sexta-feira, 31 de julho de 2015

Oração da Alma enamorada

"Senhor Deus, amado meu!
se ainda Te recordas dos meus pecados,
para não fazeres o que ando pedindo faz neles,
Deus meu, a Tua vontade,
pois é o que eu mais quero,
e exerce neles a Tua bondade e misericórdia
e serás neles conhecido;
e, se esperas por obras minhas,
para, por meio delas, me concederes o que Te rogo,
dá-mas Tu, e opera-as Tu por mim,
assim como as penas que quiseres aceitar e faça-se.

Mas se pelas minhas obras não esperas,
porque esperas, Clementíssimo Senhor Meu?
Porque tardas?
Porque, se, enfim, há-de ser graça e misericórdia
o que em Teu filho Te peço,
toma os meus parcos haveres pois os queres,
e dá-me este bem, pois que Tu também o queres.


Quem se poderá libertar dos modos e termos baixos
se não o levantas Tu a Ti em pureza de amor,
Deus meu?
Como se elevará a Ti o homem gerado e criado em baixezas,
se Tu o não levantares, Senhor, com a mão com que o fizeste?

Não me tirarás, Deus meu,
o que uma vez me deste em Teu único Filho Jesus Cristo,
em quem me deste tudo quanto quero;
por isso folgarei pois não tardarás,
se eu confiar.

Com que dilações esperas,
se desde já podes amar a Deus em teu coração?

O céu é meu e minha a terra;
minhas são as gentes,
os justos são meus e meus os pecadores,
os anjos são meus e a Mãe de Deus,
e todas as coisas são minhas;
e o próprio Deus é meu e para mim,
porque Cristo é meu e todo para mim.
Que pedes pois e buscas, alma minha?
Tudo isto é teu e tudo para ti.

Não te rebaixes,
nem atentes nas migalhas caídas da mesa de teu Pai;
sai de ti e gloria-te da tua glória;
esconde-te nela e goza, e alcançarás o que pede o teu coração."

S. João da Cruz in As mais belas páginas de S. João da Cruz p. 176,177

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