domingo, 26 de julho de 2015

Necessidade da Vocação Divina para receber as ordenas sacras - Santo Afonso de Ligório

    Para entrar em qualquer estado de vida, é necessário ser chamado por Deus, porque, sem vocação,
se não é impossível, é pelo menos muito difícil satisfazer às obrigações desse estado e salvar-se. Mas, se para todos é necessária a vocação, sobretudo é indispensável para abraçar o estado eclesiástico.
    É a porta única para se entrar na Igreja; quem lá se introduzir doutro modo é um bandido e um ladrão, diz o Senhor. S. Cirilo de Alexandria conclui que o que recebe as Ordens sacras, sem a elas ser chamado por Deus, se torna culpado de roubo, porque arrebata uma graça que Deus lhe não quer confiar. Também S. Paulo declarou que a vocação divina é necessariamente requerida para se ser elevado ao sacerdócio, e cita o exemplo de Aarão e do próprio Jesus Cristo.
    Ninguém por si mesmo assume esta honra, que não se confere senão a quem é chamado por Deus, como Aarão. Foi assim que nem o próprio Jesus Cristo se arrogou a função de Pontífice, que lhe conferiu Aquele que lhe disse: Tu és o meu Filho. Ninguém pois, por mais inteligente, sábio e santo que seja, pode entrar no santuário, por iniciativa próprio; é necessário que seja chamado e introduzido lá por Deus.
    O próprio Jesus Cristo, que foi em verdade o mais santo e sábio dos homens, por isso que é cheio de graça e de verdade, e nele estão encerrados todos os tesouros da sabedoria e da ciência, o próprio Jesus Cristo, digo, para se revestir da dignidade de sacerdote, quis ser chamado a ela por Deus. Ainda mesmo quando estavam certos da sua vocação divina, tremiam os santos de assumir o sacerdócio.        
     Santo Agostinho, na sua humildade, olhava como castigo dos seus pecados a violência que o seu bispo empregara para o fazer sacerdote. Santo Efrém, apresentou-se como insensato, para não ser constrangido a receber o sacerdócio, e Sto. Ambrósio fingiu ser cruel. O santo monge Amon, para escapar à ordenação, cortou as orelhas e fez ameaça de cortar também a língua, se persistissem em inquietá-lo a tal respeito. Em resumo, S. Cirilo de Alexandria afirma que todos os santos têm considerado a dignidade sacerdotal como um fardo enorme.
    Depois disso, pergunta S. Cipriano, poderá encontrar-se alguém tão temerário que se abalance a receber as sagradas Ordens sem a vocação divina? Quem se introduz no santuário sem vocação ofende a autoridade de Deus, como um vassalo rebelde, que por si mesmo se fizesse ministro contra a vontade do seu soberano. Que temeridade a de um súdito que, sem ordem do rei e até contra a sua vontade, se metesse a administrar os domínios da coroa, a julgar causas, a comandar o exército, numa palavra a exercer as funções de vice-rei! É de S. Bernardo esta reflexão.
    Segundo S. Próspero não são outras as funções dos padres senão serem dispenseiros na casa de Deus; chefes do rebanho de Jesus Cristo, os chama Sto. Ambrósio; intérpretes da lei divina, os apelida S. Dionísio. No dizer do autor da Obras imperfeita, são os vigários de Jesus Cristo. À vista disto, quem teria ainda a audácia de se fazer ministro de Deus, sem a isso ser chamado? Num reino, diz S. Pedro Crisólogo, só o pensamento de usurpar a autoridade suprema é um crime da parte do súdito. Até na casa dum particular, ninguém se atreveria a entrar lá, para dispor dos seus bens e administrar os seus negócios; porque é ao dono que cabe o direito de escolher e estabelecer os gerentes dos seus negócios.
    E vós, diz S. Bernardo, sem serdes chamados por Deus, quereis entrar na sua casa, para lançardes mão dos seus interesses e dispordes dos seus bens? Eis a razão por que o Concílio de Trento declarou que a Igreja não olha como seu ministro, mas como ladrão, quem ousa ingerir-se sem vocação nas funções eclesiásticas.
    Poderá esse padre dar-se a muitas fadigas, mas os seus trabalhos pouco lhe aproveitarão diante de Deus; mais ainda, as obras que para os outros são meritórias, para ele se tornarão demeritórias. Imaginais que um servo recebeu ordem do seu senhor para lhe guardar a casa, e ele por seu arbítrio preferiu ir cavar a vinha; debalde se fatigará e suará, em vez de recompensa, deve antes esperar castigo. Tal é a sorte dos que, sem vocação, invadem o santuário: em primeiro lugar, não aceitará o Senhor os meus trabalhos, porque os empreenderam sem o seu beneplácito. Não está em vós a minha vontade, diz o Senhor dos exércitos, e não receberei as dádivas das vossas mãos; e depois, em vez de recompensa, terão castigo: Todo o estrangeiro que se aproximar (do tabernáculo) será condenado à morte.
    Aquele pois que aspira a Ordens sacras, deve antes de tudo examinar bem, diz S. João Crisóstomo, se é Deus quem o chama a tão alta dignidade. Ora, para se conhecer se a vocação vem de Deus, é necessário examinar os sinais dela. Escutemos a advertência que nos faz o Senhor: Quando se quer edificar uma torre, começa-se por fazer o orçamento, para se ver se não faltam os recursos necessários para levar a obra ao fim.


Retirado do Livro 'A Selva' de Santo Afonso de Ligório

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