sábado, 22 de agosto de 2015

A moderação no comer e o jejum.


A MODERAÇÃO NO COMER E O JEJUM.




Para tratarmos deste assunto, traremos um escrito de  São João Cassiano  sobre a continência do ventre, isto é, a moderação no comer e no beber. O texto mostra, de forma clara, que os pecados contra a castidade estão também ligados à gula e à imoderação do ventre. Neste texto, ele ensina uma regra universal de jejum, que é o evitar a saciedade. 

"Trataremos primeiramente da continência do ventre que se opõe à gula, da medida dos jejuns, da qualidade e da quantidade dos alimentos. E não falaremos por nós mesmos, mas conforme a tradição dos santos Padres. Estes não nos legaram uma regra única para o jejum, nem um modo único de tomar a refeição, nem uma medida uniforme, pois nem todos possuem o mesmo vigor, nem a mesma idade, nem a mesma saúde, nem a mesma constituição física. Entretanto, o objetivo que foi transmitido a todos é o mesmo: fugir da saciedade e recusar absolutamente a repleção do ventre. Eles consideravam que o jejum cotidiano era mais benéfico e favorável à pureza do que um jejum prolongado de três ou quatro dias ou mesmo de uma semana. De fato, o prolongamento excessivo do jejum é, muitas vezes, pior do que o excesso de alimento. Pois na seqüência de uma abstinência imoderada o corpo está enfraquecido e não é mais assíduo das liturgias espirituais, enquanto que o corpo pesado pelo excesso de comida causa à alma a acídia e o relaxamento.

 Por outro lado, eles achavam que não convém a todos comer apenas legumes verdes ou secos e que nem todos podem se alimentar só de pão seco. Um, diziam eles, come duas libras de pão e ainda tem fome; outro fica saciado com uma libra ou mesmo com apenas seis onças. Assim, a todos, como foi dito, eles transmitiram uma única regra de continência: não ser traído pela saciedade do ventre, nem arrastado pelo prazer da boca. Pois não é somente a qualidade dos alimentos, mas também a quantidade que normalmente atiça os tragos inflamados da prostituição.


 De fato, qualquer que seja o alimento com o qual o ventre foi preenchido, ele engendra uma semente de prostituição. E não é somente o excesso de vinho que embriaga a razão, mas também a superabundância de água e o excesso de qualquer comida a tornam pesada e sonolenta. A ruína dos Sodomitas não foi causada pela embriaguez do vinho e o excesso de comidas variadas, mas, segundo o profeta, pela saciedade de pão.


 A fraqueza do corpo não é um obstáculo à pureza do coração, quando damos ao corpo o que a fraqueza exige, não o que o prazer deseja. É preciso utilizar os alimentos na medida em que são úteis para viver e não a ponto de nos tornarmos presas dos assaltos da concupiscência. A absorção moderada e razoável de alimentos, para manter a saúde do corpo, não destrói a pureza.

Uma medida e uma regra exata da temperança nos foram transmitidas pelos Padres: quando comemos, devemos parar enquanto ainda temos apetite, sem esperar estarmos saciados. Quando o Apóstolo diz que não devemos nos preocupar com a carne no sentido de satisfazer a concupiscência, ele não proíbe prover as necessidades da vida, mas condena a busca do prazer.

Por outro lado, para uma perfeita pureza da alma, apenas a abstinência de alimento não é suficiente, sem o socorro das demais virtudes. Assim, a humildade, pela prática da obediência e pelo labor que doma o corpo, nos traz grandes benefícios. Abster-se da avareza, não apenas das riquezas, mas até do desejo de adquiri-las, conduz à pureza da alma. A abstinência de cólera, de tristeza, de vanglória e de orgulho, tudo isto produz a pureza universal da alma. Mas para a pureza específica da alma que é obtida pela castidade, a abstinência e o jejum possuem uma eficácia notável. É de fato impossível a quem enche o ventre combater o espírito da prostituição em seu pensamento. Eis porque nosso primeiro combate deve ser o de dominar o ventre e reduzir o corpo à escravidão, não apenas pelo jejum, mas pelas vigílias, a prece, a leitura e a concentração do coração no temor da Geena e no desejo pelo Reino dos céus."  (Fonte: Filocalia, Tomo I -- Cassiano O Romano).



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