quarta-feira, 19 de agosto de 2015

A mortificação da boca - Santo Afonso Maria de Ligório

   Sto André Avelino dizia que quem quiser aplicar-se à perfeição, deve começar por mortificar a boca com muito cuidado. Já antes dele, tinha ensinado São Gregório: Não pode entrar na arena dos combates espirituais, quem não houver primeiro domado a paixão da gula.
   Escreve além disso o Padre Rogacci que a maior parte das penitências exteriores consiste em mortificar o gosto. - Mas o comer naturalmente agrada ao paladar, então por isso não há de se comer mais? - Não. O homem há de comer, porque Deus quer que assim conservemos a vida do corpo para servi-lo, enquanto lhe aprouver deixar-nos nesta terra. Devemos entretanto cuidar de sustentar o corpo no dizer do padre Vicente Carafa, do mesmo modo que faria um rei possuidor de meio mundo, que fosse obrigado a tratar com as suas próprias mãos um cavalo, muitas vezes por dia. Como desempenharia este dever? Com certa náusea e desdém, e o mais depressa possível.

   Dizia São Francisco de Sales que é preciso comer para viver, e não viver para comer. Parece que alguns não vivem senão para outra coisa, como os brutos que só vivem para comer. O homem torna-se bruto, diz São Bernardo, cessa de ser espiritual e racional, quando ama a nutrição como os irracionais.
   Assim praticou o infeliz Adão que se tronou semelhante aos brutos por ter comido do fruto proibido. Se os animais tivessem tido o uso da razão, acrescenta o santo, que não teriam pensado, ao verem o primeiro homem esquecido de Deus, e da salvação eterna, por causa do gosto miserável de comer um pomo? Com certeza, dele zombando, teriam dito: Eis como Adão se tornou bruto como um de nós! Dai esta máxima como Santa Catarina de Senna: Quem não é mortificado no comer, não pode conservar a inocência, porque é pela gula que Adão a perdeu. Que miséria ver alguns que fazem do ventre o seu deus, como observa São Paulo.
   Quantos infelizes perderam a sua alma pelo vício da gula! Conta São Gregório, nos seus diálogos, que em um mosteiro de Licaonia havia um monge de vida muito exemplar. Achando-se este às portas da morte, lhe rodearam no leito os seus religiosos, para receberam dele, no último momento da vida, uma palavra de edificação. Qual, porém, não foi a sua decepção? Meus irmãos, disse o moribundo, sabei que, enquanto os outros praticavam o jejum, eu comia às escondidas, e por isso fui entregue ao demônio que já me tira a vida e leva a minha alma para o inferno. E, dizendo isto, expirou. - O mesmo santo refere este outro fato. Uma religiosa. notando na hora uma bela alface, a tomou e comeu, contra a regra. Foi logo possuída e cruelmente atormentada pelo demônio. Suas companheiras mandaram chamar o santo abade Equicio. A sua chegada, o demônio pos-se a gritar: Que mal fiz eu? Estava sentado no alface e ela me engoliu. Mas não pode resistir ao poder do servo de Deus que o obrigou a deixá-la. Narra-se ainda, nas crônicas da Ordem de Cister, que São Bernardo, visitando um dia os noviços, tomou parte de um deles, chamado Acardo, e, apontando para outro disse-lhe que aquele, nesse mesmo dia, fugiria miseravelmente do mosteiro. Pelo que ele recomendou que, vedo-o partir, o acompanhasse e o detivesse. De fato, na noite seguinte, Acardo viu primeiro um demônio chegar no noviço e o tentar de gula, esfregando-lhe aos narizes um frango assado. No entanto, o infeliz despertou e, cedendo à tentação, vestiu-se e preparou-se para sair do mosteiro. Então, Acardo o segurou, mas em vão, porque, dominado pela gula, ficou obstinado em querer voltar para o mundo, onde acabou miseravelmente a vida.
   Estejamos pois atentos para não sermos vencidos por este feio vício. - Sto Agostinho diz que devemos usar dos alimentos para sustentar a vida, com a mesma cautela com que tomas os remédios, isto é, só enquanto são necessários e nada mais.
   A intemperança no comer é muito nociva a alma e ao corpo. Quanto a este, é certo que a maior parte das enfermidades são causadas pela gula: as apoplexias, as doenças dos intestinos, os embaraços gástricos, as dores de cabeça, do estômago, do lado, e outros males miseráveis, são, às mais das vezes, provenientes do excesso de comida. Entretanto, as moléstias do corpo são o menor mal. O pior são as enfermidades que atenuam na alma.
   Primeiramente, como ensina o doutor angélico, este vício obscurece o espírito e o torna inepto para os exercícios espirituais, especialmente para a oração. Assim como o jejum dispõe o espírito para a contemplação de Deus e dos bens eternos, assim a intemperança o distrai. - São João Crisóstomo compara o homem de estômago cheio a um navio demasiadamente carregado, que apenas pode mover-se, e por isso está em grande risco de perder-se em qualquer tempestade de tentações que lhe sobrevenha.


Retirado do livro: A Verdadeira Esposa de Jesus Cristo de Santo Afonso Maria de Ligório.

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