segunda-feira, 31 de agosto de 2015

A Paz Interior

Num excelente Tratado sobre a paz interior, o Padre Ambrósio de Lombez diz que toda a nossa piedade só deve tender a nos unir a Deus pelo conhecimento, e pelo amor, a fazê-lO reinar em nós pela nossa dependência absoluta e contínua, por uma fiel correspondência ao Seu atrativo interior e a todos os Seus movimentos, enquanto aguardamos que Ele nos faça reinar conSigo na Sua glória. Ora, sem a paz interior não podemos possuir todas essas vantagens senão imperfeitamente. A perturbação interrompe as nossas meditações; então a nossa alma, enfraquecida, só se eleva a Deus com esforço, e os violentos abalos que ela sofre alteram muito em nós a tranqüilidade e a solidez do Seu reinado.

O nosso coração é sempre o trono dEle, porém um trono vacilante, ameaçada de ruína próxima; é a Sua sede, mas uma sede mal segura, onde Ele não pode achar o repouso. Por isto o profeta diz que Deus habita na paz: Factus est in pace locus ejus (SI 75, v. 2). E continuando diz ainda o mesmo Padre que não é que Ele não habite também na alma do justo agitado; mas está nela como um estranho, porque a agitação e a perturbação que ela sofre anuncia que a permanência dEle nela será de pouca duração. Daí fácil é concluir quão excelente e necessária é essa paz da alma, e como se deve banir a agitação e a perturbação que os escrúpulos nela introduzem.

1º. A paz interior dispõe-nos para as comunicações divinas, e ao mesmo tempo dispõe Deus a no-las conceder, pois Ele gosta de falar à alma na calma, na solidão, na liberdade. Então, Sua voz harmoniosa faz-se ouvir melhor, a Sua graça opera, ilumina, inflama, revolve e conduz como quer. Mas, se a perturbação forma como que uma nuvem espessa que nos furta uma parte dessa luz celeste, se o ruído confuso das agitações e das perturbações interiores impede de ouvir a voz do Espírito divino, então a Sua ação é neutralizada, e a nossa alma, por sua vez, é privada desses preciosos favores que tanto a ajudariam no cumprimento do bem.


2º. Como, então, discernirmos os movimentes que Deus opera em nós daqueles que não vêm dEle? Só na paz é que a alma pode fazê-lo, porque então está recolhida, atenta, e no ponto de vista verdadeiro para esse discernimento. Ao passo que, quando, deixamos entrar a dissipação, as angústias, a perturbação que o espírito de malícia nela entretém, é impossível ser bem sucedido nisso. Oh! diz o P. Lombez, quantos escrúpulos eliminados, quantas ilusões dissipadas, quantas falsas devoções retificadas, se nunca saíssemos dessa paz que nos leva a Deus sem ruído e sem perturbação, e, ao menos, se tivéssemos por suspeito tudo o que pode alterar a doçura dela!

3º. De que socorro não é ainda a paz interior para lutarmos com vantagem contra o inimigo da salvação e triunfarmos das tentações! Quando se vela no interior da casa, quando se tem luz, quando se está forte armado, não se teme a surpresa do inimigo; assim também, quando a alma está recolhida, atenta sobre o seu interior, quando se possui, quando está esclarecida pelas luzes do Espírito Santo, da Sagrada Escritura e dos prudentes avisos do diretor, quando empunha as armas da salvação, esse gládio de que o arcanjo se serviu contra Lúcifer, isto é, a oração, não pode a alma ser surpreendida pelo inimigo, nem vencida pela tentação. Ao contrário, a perturbação, lançando em nós a confusão, como no meio de um exército em desordem, desconcerta-nos, abre as portas ao inimigo, faz-nos esquecer as armas, e então somos fáceis de vencer. O grande segredo, nos perigos em geral, e nestes em particular, é possuir-se.

4º. Mas é pela calma da alma que podemos, sobretudo fazer progressos no conhecimento de nós mesmos, conhecimento este indispensável para progredirmos na humildade e na abnegação de nós mesmos. Ora, este estudo não pode fazer-se senão ao favor da paz da alma: numa água tranquila e clara distinguem-se os mais pequenos grãos de areia; e na alma tranquila percebem-se também as mais leves faltas. Então nos vemos tais quais somos, conhecemo-nos e desprezamo-nos, porquanto conhecer-se e desprezar-se são duas coisas inseparáveis: dai nasce à humildade, fundamento de todo edifício interior.

5º. Outra vantagem bem preciosa, dessa paz interior é a facilidade que dela retiramos, para nos recolhermos. Sem dúvida, a presença de Deus, a atenção à oração, os pensamentos graves e sérios contribuem poderosamente para nos recolhermos, mas a paz da alma é para isto um meio mais direto e mais eficaz. Quem diz paz; calma, tranqüilidade interior, diz recolhimento; porquanto, se é verdade que a dissipação provém do espírito e do coração, só da paz da alma se pode esperar o recolhimento.

6º. Digamos, enfim, que ela produz nos nossos corações delícias inexprimíveis, que ela nos desgosta dos bens sensíveis e dos prazeres insulsos deste mundo, para nos fazer degustar as coisas espirituais e celestes; que nos faz saborear as doçuras que se respiram no serviço de Deus, nos dá uma conduta uniforme, doce, modesta, tranqüila, ingênua, que faz sentir o encanto da virtude aos homens que estão mais distanciados dela, os leva a amá-la a honrar a. piedade, a respeitar a religião e a glorificar a Deus.

A paz da alma é, pois, algo de inteiramente divino; é como que a alma da piedade, o manancial das graças e das consolações, a felicidade desta vida o título mais seguro às predileções de Jesus Cristo que diz: "Felizes os pacíficos, porque serão chamados filhos de Deus". É um meio poderoso de obter a paz futura, pois ela firma em nós o Reino de Deus, dispõe para as comunicações divinas, favorece o discernimento dos movimentos sobrenaturais, repele as tentações, ajuda-nos a nos reconhecermos, dá-nos a simplicidade, secunda o recolhimento, enche-nos enfim de inefáveis doçuras, de merecimentos e de bens.

Se tais são as vantagens e a excelência dessa paz, não é de admirar que o demônio se encarnice em perturbá-la e em destruí-la em nós, e, pelo contrário, de admirar seria que não estivéssemos prontos a superar tudo para obtê-la e possuí-la.

(Tratado dos Escrúpulos, Instruções para esclarecer, dirigir, consolar e curar as pessoas escrupulosas pelo Padre Grimes – 1952)

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