sexta-feira, 21 de agosto de 2015

Outros pontos sobre a mortificação da boca - Santo Afonso Maria de Ligório

(Nota do blog: Sexta-Feira, dia de abstinência de carne vermelha)

   Além disso, quem dá liberdade a boca, a dará facilmente aos outros sentidos; porque, tendo perdido o recolhimento, como ficou dito, cairá facilmente em outras faltas por palavras e ações inconvenientes. E o pior é que, com a intemperança no comer, corre grande risco a castidade; pois, como diz S. Jerônimo, a saciedade produz a incontinência. Pelo que diz Cassiano ser impossível não experimentar tentações impuras quem tem o estômago farto.

Por isso, os santos, para se conservarem castos, sempre estiveram atentos a mortificação da boca. 
Quando o demônio é vencido na tentação da gula, deixa de solicitar a santa pureza, diz o doutor angélico.
   Ao contrário, aqueles que procuram mortificar o gosto, fazem progressos contínuos no espírito; porque mortificando a gula, facilmente mortificarão também os outros sentidos e se exercitarão nas outras virtudes, como canta a Santa Igreja: Deus, pelo jejum corporal, reprime os vícios, eleva os corações, dá com liberalidade as virtudes e os prêmios. Por meio do jejum, o Senhor dá à alma forças para vencer os vícios, elevar-se acima dos afetos terrenos, praticar as virtudes e adquirir os merecimentos eternos. Os que se apegam aos prazeres da terra, dizem: Deus criou estas comidas, para que delas gozássemos e vivêssemos alegres e contentes. Mas não falam assim os santos. O padre Vicente Carafa da Companhia de Jesus dizia: O Senhor nos deu as delícias desta terra, não só para nos alegrar, mas também para nos proporcionar meios de nos mostrarmos gratos aos seus benefícios, tributando-lhe nosso amor com oferecimento desses mesmos dons, pela abstenção do uso deles. 


    É assim de fato que praticam as almas santas. Os monges antigos, como refere S. Jerônimo, reputavam grande defeito alimentar-se de comidas cozidas: todo o seu sustento consistia em um pão de uma libra. S. Luiz Gonzaga, não obstante ser uma saúde muito delicada, fazia três jejuns a pão e água por semana. S. Francisco Xavier, nas suas missões, não se nutria senão de um pouco de arroz tostado. — S. João Francisco Regis também, no curso de seus trabalhos apostólicos, não tomava outro alimento que um punhado de farinha umedecida em água. — S. Pedro de Alcântara se contentava de uma escudela de caldo para todo seu alimento. E, para citar um exemplo dos nossos dias, é bem conhecido de todos o que se lê na vida do venerável padre João José da Cruz, religioso alcantarino, que desde a sua profissão, durante vinte e quatro anos, não se nutriu senão de pão e algumas ervas ou frutas, fazendo jejuns mui freqüentes a pão e água. Obrigado depois por suas enfermidades e por obediência a tomar alguma comida quente, o servo de Deus molhava o pão em uma taça de caldo: e, tendo os médicos prescrito que usasse de um pouco de vinho, o misturava no seu caldo, para tornar mais desagradável ao paladar esse escasso alimento
    Quando se quer reduzir a nutrição à medita conveniente, é bom diminuí-la pouco a pouco, até que a experiência mostre que basta tal quantidade para o sustento, sem se ficar muito incomodado. É assim que S. Doroteu reduziu seu discípulo S. Dositeu a uma justa mortificação. — Para uma pessoa se livrar de dúvidas e inquietações quanto ao jejum e abstinência, a regra mais segura é submeter-se ao juízo do seu diretor. — S. Bento e depois dele S. Bernardo afirmam que as mortificações feitas sem permissão do padre espiritual, são atos de presunção dignos de castigo, e não obras dignas de recompensa. Ainda quando isto não fosse uma regra geral para todas, se-lo-ia especial para as religiosas, como acima já ficou dito, ter cuidado de comer sobriamente na ceia, ainda mesmo que haja bastante apetite; porque, a noite, a fome é muitas vezes falsa, e excesso que se cometa, a pobre se achará no dia seguinte adoentada, com a cabeça pesada, e estômago embrulhado, e por conseguinte enferma e quase impossibilitada de qualquer trabalho espiritual. 
   No tocante a bebida, pode-se sem fazer mal à saúde, praticar a mortificação, abstendo-se de tomar qualquer coisa fora das refeições, a não ser que, por exigência especial da natureza, haja inconvenientes em suportar a sede ardente que se experimenta, como sóe acontecer no tempo do verão. 
S.Lourenço Justiniano não bebia fora da mesa, mesmo nos calores do estio, e, quando lhe perguntavam como podia suportar a sede, respondia: “Como poderei sofrer os ardores do purgatório, se agora não posso suportar esta privação?” 
    Os antigos cristãos, nos dias de jejum, não bebiam antes do jantar, que só tomavam ao cair da tarde; e esta é ainda hoje a prática dos muçulmanos durante o Ramadan, que é a sua quaresma. Siga-se ao menos a boa regra que dão geralmente os médicos, de não beber senão quatro ou cinco horas depois do jantar.


Santo Afonso de Ligório - A Verdadeira Esposa de Jesus Cristo

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