domingo, 23 de agosto de 2015

Meditação - Os dez leprosos e o pecado da ingratidão, por Santo Afonso de Ligório

23/08/2015 - Decimo terceiro domingo depois de pentecostes - Os dez leprosos e o pecado da ingratidão, por Santo Afonso de Ligório.

    O pecado da ingratidão é um monstro tão hediondo, que desagrada também aos homens, os quais, tendo feito algum benefício que não é retribuído ao menos pela gratidão, sentem uma mágoa mais insuportável do que qualquer outro sofrimento corporal, - Quanto mais, porém, este monstro desagrada a Deus, bem o demonstra o Evangelho de hoje.
    Refere São Lucas que "Entrando Jesus em uma aldeia, sairam-lhe ao encontro dez leprosos, que pararam ao longe e levantaram a voz dizendo: Jesus, Mestre, compadece-te de nós. E Jesus, logo que os viu, disse: Ide, mostrai-vos aos sacerdotes. E aconteceu que, enquanto iam, ficaram limpos. Mas um deles, quando se viu limpo, voltou atrás, engrandecendo a Deus em alta voz; e prostrou-se por terra aos pés de Jesus, dando-lhe graças; e este era um Samaritano. E Jesus disse: Porventura não foram dez os curados? Onde estão os outros nove? Não se achou quem voltasse e viesse dar glória a Deus, senão só este estrangeiro."

    Meu irmão, façamos aqui uma consideração: para curar os dez leprosos Jesus Cristo fez apenas uso de um ato de sua vontade, e todavia a ingratidão daqueles homens desagradou-lhe a ponto de não a querer deixar passar sem censura. Quando mais não lhe deverá, pois, desagradar a ingratidão de tantos christãos, visto que, para os limpar da lepra do pecado, quis Jesus aniquilar-se a si mesmo, tomando a forma de escravo; quis ser obediente até a morte de cruz; quis, enfim, derramar o seu preciosíssimo sangue até á última gota? Lavit nos in sanguine suo - Ele nos lavou em seu sangue. Saibamos que, conforme a revelação feita a Venerável Agueda da Cruz, a previsão de tão monstruosa ingratidão começou a atormentar Nosso Senhor desde o seio de Maria, e que acompanhou durante a sua vida toda até o último suspiro.
    Se a ingratidão é um vício tão abominável e tão odioso a Jesus Cristo, a gratidão é, ao contrário, uma virtude extremamente agradável ao seu divino Coração. Pelo que escreveu Santo Agostinho: "Não podemos pensar, dizer nem escrever coisa melhor e mais agradável a Deus do que estas palavras: Deo Gratias! - Graças a Deus!" - O mesmo disse São João Crisóstomo, que acrescenta que "Não há guarda melhor dos benefícios recebidos, do que o lembrar-se deles e agradece-los. Não há coisa mais agradável a Deus do que uma alma grata; porque pelos inúmeros benefícios de que Deus nos cumula todos os dias, não nos pede outra coisa, senão que lhas agradeçamos."
    Mais: a gratidão nos abre os canais da divina misericórdia, para recebermos sempre novos e maiores dons. - Afiança-nos isso o Evangelho de hoje, porque o leproso que voltou para dar graças a Jesus Cristo, além da saúde do corpo, recebeu também a da alma, visto que, conforme explicam os intérpretes, foi então iluminado acerca da divindade de Jesus e feito em seguida seu discípulo e propagador da religião de Cristo, realizando muitos milagres em seu nome; Fides tua te salvum fecit - Tua fé te salvou.
    Longe, portanto, de imitarmos os nove leprosos ingratos, imitemos antes o Samaritano agradecido. Voltemos atrás, com nosso pensamento, para enumerar os benefícios recebidos de Deus, e considerando a ingratidão com que lhes havemos correspondido, prostremo-nos a seus pés, enaltecendo-o em alta voz, rendendo-lhe graças, e peçamos-lhe humildemente perdão.
    Ó meu Redentor amabilíssimo, graças Vos dou, e quereria morrer de dor ao pensar que Vos ofendi tanto, a Vós que sois a bondade infinita, que me enriquecestes de tantos dons e chegastes a fazer de vosso sangue um banho salutar para me limpar da lepra nojenta do pecado. Meu amor, perdoai-me, vinde tomar posse do meu coração e nunca mais Vos afasteis dele. Amo-Vos, e cada vez que disso me lembrar, prometo fazer atos de amor para compensar as minhas ingratidões para convosco. Ajudai-me para que Vos seja fiel. "Aumentai sempre em mim a fé, esperança e caridade, e fazei que ame o que mandais, para que mereça alcançar o que prometeis."
    + Doce Coração de Maria, sede a minha salvação.


Meditações de Santo Afonso Maria de Ligório - Tomo III.

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