terça-feira, 1 de setembro de 2015

Meditação - A cada momento nos aproximamos da morte, por Santo Afonso de Ligório

01/09/2015 - Terça-Feira - A cada momento nos aproximamos da morte.

Omnes morimur, et quasi aque dilabimur in terram, quae non revertuntur - Nós morremos todos, e corremos pela terra como as águas que não tornam mais. (2 Reg. 14,14)

    É certo que fomos condenados a morte. Todos nascemos, diz São Cipriano, com a corda o pescoço e, a cada passo que damos, nos aproximamos mais da morte. Meu irmão, assim como foste inscrito um dia no livro dos batismos, assim será inscrito um dia no livro dos mortos. Assim como dizes hoje dos teus antepassados: meu falecido pai, tio ou irmão, assim dirão de ti os que vierem depois. Assim como ouviste muitas vezes dobrar os sinos pela morte dos outros, assim como os outros ouvirão dobrar pela tua morte.
    Que dirias, se visses um condenado a morte caminhar para o suplício galhofando, rindo, olhando para toda a parte, e pensando ainda em comédias, festins e divertimentos? E tu, não caminhas neste momento para a morte? E em que pensas? Vê nessa cova teus amigos e parentes, e quem já feriu a sentença. Que horror se apodera dos condenados quando veem os seus companheiros já mortos e pendentes da força! Atenta nesses cadáveres, cada um dos quais te diz: Mihi heri et tibi hodie - Ontem a mim, hoje a ti. É isto o que te dizem ainda os retratos de teus parentes já mortos, os seus escritos, as casas, os leitos, as roupas que deixaram.

    Haverá loucura maior do que saber que se há de morrer, e que depois da morte nos espera uma eternidade de alegrias ou de penas; saber que do momento da morte depende um futuro eternamente feliz ou eternamente infeliz; e não pensar em ajustar as contas e em empregar todos os meios para ter uma boa morte? Compadece-nos dos que morrem subitamente e não se acham preparados para a morte; como é então que não cuidamos de estar preparados, podendo-nos acontecer o mesmo? - Mas cedo ou tarde, prevista ou imprevistamente, quer pensemos nisto quer não, devemos morrer; e a todas as horas, a todos os instantes que nos vamos aproximando da nossa forca, quer dizer, da última doença que nos deve fazer sair deste mundo.
    Em cada século, as casas, as praças e as cidades enchem-se de novos habitantes, e os que precederam são levados e enterrados nos túmulos. Assim como para estes passaram os dias da vida, da mesma maneira chegará o tempo em que nem eu, nem vós,  nem nenhum dos que vivem atualmente, existirá  da terra. Então estaremos todos na eternidade, que será para nós ou um eterno dia de delícias, ou uma eterna noite de tormentos. Não há meio termo; é certo, é de fé que uma das duas sortes nos espera.
    Meu amado Redentor, não teria a ousadia de aparecer diante de Vós, se Vos não considerasse suspenso nessa cruz. despeçado, ultrajado e morto por minha causa. Foi grande a minha ingratidão, maior ainda porém é a vossa misericórdia. Grandes foram os meus pecados, mas muito maiores são os vossos méritos. As vossas chagas, o vosso sangue, a vossa morte são as minhas esperanças. Merecia o inferno desde o instante do meu primeiro pecado e depois tantas vezes Vos tornei a ofender, e Vós não só me haveis de conservado a vida, mas com extrema bondade e amor me convidastes ao perdão e me haveis oferecido a paz. Como poderei recear que me afasteis de Vós, agora que vos amo e só desejo a vossa graça?
    Sim, amo-Vos de todo o coração, meu querido Senhor, e só desejo amar-Vos. Amo-Vos e arrependo-me de Vos ter desprezado, não tanto pelo inferno que mereci, como por ter ofendido a Vós, meu Deus, que tanto me tendes amado. Ó meu Jesus, abri-me o seio da vossa bondade, acrescentai misericórdia a misericórdia. Fazei que não torne a ser ingrato para convosco, e mude completamente o meu coração. Fazei que o meu coração, que antigamente nenhum caso fez do vosso amor, e lhe preferiu as miseráveis satisfações da terra, seja doravante todo vosso e continuamente inflamado de amor por Vós. - Esta graça peço-a também a vós, ó grande Mãe de Deus e minha Mãe, Maria.


Meditações de Santo Afonso de Ligório, Tomo III.

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