quarta-feira, 2 de setembro de 2015

Meditação - Da eternidade do inferno, por Santo Afonso de Ligório

02/09/2015 - Quarta-Feira - Da eternidade do inferno.


Et ibunt hi in supplicium aeternum - Estes irão para o suplício eterno (Math. 25,46)

    Se o inferno não fosse eterno, deixaria de ser inferno. A pena que dura pouco, não é grande pena. Quando se rompe a um doente um abscesso, quando a outro se queima uma úlcera, a dor é viva, mas, como passa rapidamente, o tormento não é grande. Que sofrimento porém não seria, se aquela incisão, aquela operação por meio do fogo, continuasse por uma semana, por um mês inteiro? Quando o sofrimento é bastante prolongado, apesar de leve, como uma dor de olhos, uma dor de dentes, torna-se insuportável. - Mas para que falar de sofrimento? Mesmo uma comédia uma música que se prolongasse muito ou durasse um dia inteiro, não se poderia aturar pelo grande fastio. Que será, pois, do inferno, onde não se trata de assistir a mesma comédia, de ouvir a mesma música, onde não se tem unicamente a sofrer uma dor de olhos ou de dentes, onde não se sente só o tormento de uma incisão ou de um ferro em brasa, mas onde estão reunidos todos os tormentos e todas as dores? E por isto, por quanto tempo? Por toda a eternidade? Cruciabuntur die ac in saecula saeculorum - Serão atormentados de dia e de noite pelos séculos dos séculos. 

    Esta eternidade não é simples opinião, mas sim uma verdade de fé, atestada repetidas vezes por Deus nas Sagradas Escrituras. Só no capítulo 9 de São Marcos Jesus Cristo afirma até três vezes que o verme roedor e a consciência dos condenados nunca morrerá: Vermis eorum non moritur ; até cinco vezes repete que o fogo que os abrasa, nunca será apagado: Et ignis eorum non extinguitor; e finalmente conclue dizendo: Ominis egne salietur - Será todo salgado pelo fogo. Assim como o sal tem a propriedade de conservar as coisas, assim o fogo do inferno, ao mesmo tempo que atormenta os reprobos, produz neles o efeito do sal, conservando-lhes a vida. Desgraçados reprobos!
    Que loucura não seria se por um dia de divertimento alguém se deixasse encerrar num calabouço vinte ou trinta anos? Se o inferno durasse cem anos - cem anos! Que digo? - Se durasse somente dois ou três anos, seria já grande loucura condenar-se ao fogo esses dois ou três anos por um momento de vil prazer. Mas não se trata de trina, nem de cem, nem de mil, nem de cem mil anos; trata-se de eternidade, trata-se de sofrer para sempre os mesmos tormentos, sem nunca esperar fim nem momento de descanso.
    Tinham razão os santos para temer e gemer, enquanto estavam no mundo e, portanto, em risco de se perderem. O Bemaventurado Isaias, posto que passasse os dias no deserto entre jejuns e penitências, exclamava chorando: Desgraçado de mim, que ainda não escapei ao perigo da condenação! Nondum a gehennae igne sum liber! Mas se os santos tremiam, nós, que somos pecadores, teremos a presunção de nos julgar seguros?
   Ah, meu Deus! Se me tivésseis lançado no inferno, como tantas vezes mereci, e depois me tivésseis tirado d'ali pela vossa misericórdia, quanto Vos seria obrigado! Que vida santa não teria desde então principiado! Agora por uma misericórdia maior me preservastes de cair no inferno: que farei? Tornarei a ofender-Vos e a provocar a vossa indignação, afim de que me condeneis realmente a arder nessa prisão dos revoltosos contra Vós, onde já ardem tantas almas que cometeram menos pecados que eu? Ah! Meu Redentor, é o que fiz no passado; em lugar de aproveitar o tempo que me dáveis para chorar os meus pecados, abusei dele para excitar a vossa ira. Agradeço a vossa infinita bondade o ter-me aturado tanto tempo. Se não fosse infinita, como me houvera sofrido?
    Graças Vos dou por me haverdes esperado até aqui com tamanha paciência, e graças Vos dou sobretudo pela luz que me concedeis agora, luz que me deixa ver a minha demência e o agravo que Vos fiz, ultrajando-Vos com tantos pecados. Detesto-os, meu Jesus, e arrependo-me de todo o coração; perdoai-me, em consideração a vossa Paixão e ajudai-me, com a vossa graça,a  não mais Vos ofender. Com razão devo temer que, depois de mais um pecado mortal, me abandoneis. - Ah, Senhor! Rogo-Vos que me ponhais sempre diante dos olhos este justo temor, em particular quando o demônio novamente me provocar a Vos ofender. Amo-Vos, meu Deus, e não Vos quero mais perder; ajudai-me com a vossa graça. - Ajudai-me também vós, ó Virgem Santíssima, e fazei com que em minhas tentações sempre recorre a vós, afim de que nunca mais perca, ó meu Deus. Ó Maria, vós sois a minha esperança.

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