quarta-feira, 9 de setembro de 2015

Meditação - Felicidade eterna do céu, por Santo Afonso de Ligório

09/09/2015 - Quarta-Feira - Felicidade eterna do céu.


Beati qui habitant in domo tua, Domine; in saecula saculorum laudabunt te - Bem aventurados, Senhor, os que moram na tua casa; pelos séculos dos séculos te louvarão. (Ps 83,4)


    Na terra, a maior pena das almas que amam a Deus e se acham em desolação, é o receio de não o amarem e de não serem por Ele amados: Nescit homo, utrum amore an odio dignus sit - O homem não sabe se é digno de amor ou de ódio. Mas no paraíso a alma está certa de que ama a Deus, e de que é amada por Ele; vê que está felizmente abismada no amor do seu Senhor e que o Senhor a abraça como querida filha; vê, enfim que os laços de seu amor são para sempre indissolúveis. - Estas venturosas chamas desenvolver-se-ão mais ainda pelo conhecimento mais perfeito, que então adquirirá, do amor que levou Deus a fazer-se homem e a morrer por nós, do amor que o levou a instituir o Santíssimo Sacramento, no qual um Deus se faz alimento de um verme.
    Demais; verá distintamente todas as graças que Deus lhe prodigalizou, livrando-a de tantas tentações e perigos de condenação. Compreenderá que essas tribulações, doenças, perseguições, revezes, que chamara desgraças e castigos de Deus, foram, ao contrário, manifestações de amor e lances da Divina Providência para a levar ao céu. - Verá especialmente a paciência que Deus teve em atura-la depois de tantos pecados, e as suas misericórdias enviar-lhe tantas luzes e tantos convires cheios de amor. Do alto desta feliz montanha, verá tantas almas condenadas ao inferno por menos pecados,e a si mesma se verá salva, na posse de Deus, certa de nunca perder no futuro esse bem supremo durante toda a eternidade.

    Sempre, portanto, gozará o bemaventurado dessa beatitude, que durante toda a eternidade e a cada instante lhe parecerá nova, como se então pela primeira vez entrasse a goza-la. Sempre desejará a sua felicidade e obte-la-a sempre satisfeita e sempre desejosa, sempre ávida e sempre saciada. Numa palavra, assim como os réprobos são vasos cheios de ria, assim os escolhidos são os vasos cheios de contentamento, de modo que nunca tem coisa alguma a desejar. Pelo que diz Davi: Inebriabuntur ab ubertate domus tuae - Embriagar-se-ão da abundancia de tua casa. Como se dissesse: A alma, vendo a descoberto e abraçando com transporte o seu soberano Bem, embriagar-se-á de tal sorte de amor, que se perderá felizmente em Deus, isto é, esquecer-se-á completamente de si, e não pensará desde então senão em amar, louvar e abençoar esse bem infinito que possui.
    Quando nos oprimirem as cruzes da vida, animemo-nos a suporta-las com paciência, com esperança do céu. O abade Zosimo perguntou a Santa Maria Egypciaca, como aguentara viver tantos anos deserto, ao que a Santa respondeu: Pela esperança do céu. Quando São Felipe Neri foi oferecida a dignidade carnialicia, a recusou atirando o barrete no ar e exclamando: Ó Paraíso, ó Paraíso!
    Assim também nós, quando gemermos ao peso das misérias deste mundo, levantemos os olhos ao céu e consolemo-nos, dizendo: Ó Paraíso, ó Paraíso! Lembremo-nos de que se, se formos fiéis a Deus, acabarão um dia todas as nossas penas, misérias, e temores, e seremos admitidos nessa feliz pátria, na qual estaremos plenamente felizes, em quanto Deus for Deus. Já esperam-nos nos Santos, espera-nos Maria, e Jesus já tem na mão a coroa, para nos coroar reis no seu reino eterno.
    Meu querido Salvador, ensinaste-me a rogar: Aveniat regnum tuum - Venha a nós o vosso reino. Tal é a oração que Vos dirijo; estabeleça-se o vosso reino em minha alma, de maneira que a possuais toda e ela também Vos possua a Vós, que sois o supremo Bem. Ó meu Jesus, nada poupaste para me salvar e para ganhar o meu amor; salvai-me, pois, e consinta a minha salvação em Vos amar incessantemente nesta vida e na outra.
    Tantas vezes Vos tenho ofendido, e não obstante isto, me afiançais que não Vos dedignareis de me conservar unido convosco durante toda a eternidade, se eu me quiser arrepender. Sim, arrependo-me, e quisera morrer de dor. De hoje em diante só quero pensar em Vos ser agradável. Aceito e abraço todas as mortificações e penas que me quiserdes enviar. Baste-me que não me priveis da vossa graça; basta que um dia possa eu ir amar-Vos, louvar-Vos, bemdizer-Vos no paraíso. - Ó Maria, quando é que me verei aos vossos pés, seguro de não mais poder perder o meu Deus? Socorrei-me, minha Mãe e não consintais que me condene e tenha de viver para sempre apartado de Vós e do vosso divino Filho.

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