sábado, 12 de setembro de 2015

Meditação - Maria Santíssima, modelo de mortificação, por Santo Afonso de Ligório

12/09/2015 - Sábado - Maria Santíssima, modelo de mortificação.

Manus meae stillaverunt myrrham, et digiti mei pleni myrrha probatissima - As minhas mãos destilaram mirra, e os meus dedos estavam cheios da mirra mais preciosa. (Cant. 5,5)


    É uma verdade de nossa fé que a Santíssima Virgem, por ser concebida isenta de pecado, não teve nenhuma desordem interior a combater; apesar disso o Senhor quis que em toda a vida ela se houvesse de tal forma que se tornou um modelo perfeito de mortificação.
    Com efeito, Maria praticou a mortificação interior, conservando o coração sempre desprendido de todas as coisas terrestres; desprendida estava das riquezas, querendo sempre viver pobre e ganhando o sustento com os trabalhos de suas mãos; desprendida das honras, amando a vida humilde e obscura, posto que lhe coubesse o título de nobreza, por ser descendente dos reis de Israel; desprendida afinal dos seus santos pais. porque na idade de três anos os deixou resolutamente, para ir encerrar-se no templo.

    Quanto a sua mortificação exterior, na verdade é pouco o que a este respeito sabemos; mas esse pouco é mais do que suficiente para a nossa edificação. Maria mortificava de tal maneira a vista, que tinha os olhos sempre baixos, e jamais os fixava em alguém, como dizem o Santo Epifanio e São João Damasceno, e acrescentam que desde menina foi tão recatada, que admirava a todos. Que direi da escassez de nutrimento e redundância dos trabalhos? Esta excedendo as forças da natureza, aquela que lhe quase faltando; esta não lhe permitindo tempo algum livre, aquela continuando os dias em jejum. E quando veio a vontade de refazer-se, a comida foi a mais óbvia só para afastar a morte, não para prestar delícias. Não se deu ao sono senão obrigada pela necessidade, mas quando o corpo repousava, o ânimo vigiava.
    Finalmente, quando a Bem Aventurada Virgem foi mortificada em tudo o mais, bem se infere do que ela mesma revelou a Santa Isabel beneditina, conforma se lê em São Boaventura: "Sabe" disse-lhe, "que não recebi de Deus nenhuma graça sem grande trabalho, oração contínua, desejo ardente e muitas lágrimas e penitências". Em suma, foi Maria em tudo mortificada, de modo que foi dito dela que suas mãos destilam mirra, a qual na explicação dos interpretes é símbolo de mortificação: Manus meae stillaverunt myrrham.
    Se Maria, a mais inocente de todas as virgens, quis praticar a tal ponto a mortificação, quanto mais não devemos nós praticá-la, nós que temos tantas más inclinações que reprimir, e quiçá tantos pecados que expiar! Seja, pois, o fruto da presente meditação o exercício da mortificação cristã.
    Quanto ao interior, vejamos qual seja a nossa paixão dominante, e esforcemo-nos por vence-la, pois quem não a subjugar, está em grande perigo de se perder; ao contrário, aquele que vencer a paixão dominante, facilmente vencerá todas as outras.
    Pelo que respeito á mortificação exterior, devemos, antes de mais nada, mortificar a vista, por cuja causa já muitos se acham no inferno. Notemos o que diz São Francisco de Sales: "Não é tanto o ver, como o olhar, que é a causa da perdição." - Devemos em seguida mortificar a língua, abstendo-nos de toda a crítica e de palavras injuriosas e livres. Uma palavra livre, embora dita só para rir, pode ser causa de escândalo e de mil pecados. - Em terceiro lugar devemos mortificar a gula, comer para viver, e não viver para comer. Afirma Cassiano que é impossível que não esteja sujeito a muitas tentações impuras o que se farta de comida ou de bebida. - Devemos afinal mortificar o ouvido e o tato, evitando escutar conversas maliciosas e murmurações, e usando de toda a cautela tanto para com os outros como para nós mesmos, fugindo de todo o brinquedo de mãos. Imitando Maria Santíssima, devemos praticar a mortificação em todas as coisas e assim mostrar-nos seus dignos filhos: Filii Mariae, imitatores eius.
    Se não te sentires com força para tanto, recorre com confiança a esta Mãe amorosissíma; põe-te debaixo de sua proteção especial e dize muitas vezes com São Bernardo: "Lembrai-vos, ó misericordiosissíma Virgem Maria, que jamais se ouviu dizer que fosse por vós desamparado algum daqueles que tem recorrido á vossa proteção, implorado o vosso auxílio, e exorado o vosso valimento. Animado eu, pois, com igual confiança, a vós, ó Virgem das virgens, ó minha Mãe, recorro; a vós me acolho; e gemendo sob o peso dos meus pecados, me prostro aos vossos pés. Não queiras desprezas as minhas súplicas, ó Mãe do Verbo encarnado, mas escutai-as favoravelmente e dignai-vos de atende-las. Assim seja."

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