quinta-feira, 17 de setembro de 2015

Nossa consolação na morte - Por Santo Afonso de Ligório

     Não nos atemorizem, pois, todos os combates que temos de travar contra o mundo e contra o inferno; se formos prontos em recorrer a Jesus Cristo, ele nos concederá todos os bens, a paciência em todos os trabalhos, a perseverança e finalmente uma boa morte. Grandes são as amarguras que se sofrem na hora da morte e só Jesus Cristo pode dar-nos a constância e merecimento. Grandes são então especialmente as tentações do inferno, que se esforça de modo particular em arrastar-nos à perdição, vendo-nos próximos de nosso fim.
     Narra Rinaldo que S. Elzeário suportou as mais horríveis batalhas da parte dos demônios na hora da morte, apesar de ter levado uma vida tão santa. Ele afirma que grandes são as tentações do inferno nessa hora, mas que Jesus Cristo, com os merecimentos de sua paixão, abate as suas forças. Por isso quis S. Francisco que lhe recitassem a história da paixão na hora da morte. S. Carlos Borromeu, vendo-se próximo da morte, mandou colocar ao redor de si várias representações da paixão para entregar sua alma a Deus na contemplação dessas imagens. 

    S. Paulo escreve que Jesus quis padecer a morte “a fim de destruir pela morte aquele que tinha o império da morte, isto é, o diabo, e para livrar os que pelo temor da morte se achavam por toda a vida sujeitos à servidão” (Hb 2,14-15). Assim quis Jesus morrer para destruir com sua morte as forças do demônio que tinha até então o impé- rio a morte e por esse meio livrar-nos da escravidão de Lúcifer e por conseguinte do temor a morte eterna. Quis submeter-se a todas as condições e paixões da natureza humana (exceto a ignorância, a concupiscência e o pecado) e para que fim? para se tornar misericordioso, isto é, tomando sobre si mesmo as nossas misérias, tivesse mais compaixão conosco, já que muito melhor se conheceu as misérias experimentando-as do que considerando-as, e dessa maneira se sentisse mais pronto a socorrer-nos, quando tentados na vida e especialmente na hora da morte. 
    A isso se refere aquela palavra de S. Agostinho: “Se te perturbares pela iminência da morte, não te julgues um réprobo, nem te entregues ao desespero, pois foi para impedir isso que Cristo ficou perturbado em presença de sua morte” (Lib. Pronost.). O inferno na hora de nossa morte empregará todos os esforços para nos fazer desesperar da misericórdia divina, pondo-nos diante dos olhos todos os pecados da nossa vida. A recordação, porém, da morte de Jesus Cristo nos dará coragem e confiança nos seus merecimentos, para que não temamos a morte. S. Tomás comenta o aludido texto de S. Paulo da seguinte forma: “Cristo por sua morte destruiu o temor da morte: quando o homem considera que o Filho de Deus quis morrer, perde o medo da morte”. Quando consideramos que o Filho de Deus quis sofrer a morte para nos obter o perdão dos pecados, desaparece o temor e vem o desejo de morrer. A morte para os pagãos é motivo de grande pavor, pois para eles, com a morte, acabam-se todos os bens. A morte de Jesus Cristo, porém, nos dá uma firme confiança de que, morrendo na graça de Deus, passaremos da morte à vida eterna. Desta esperança S. Paulo nos dá um argumento seguro, dizendo que o Padre eterno entregou à morte seu próprio Filho por nós todos, a fim de nos enriquecer com todos os bens, porque, dando-nos Jesus Cristo, nos deu o perdão, a perseverança final, o seu amor, a boa morte, a vida eterna e todos os bens.


A Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo, por Santo Afonso de Ligório.

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