quarta-feira, 9 de setembro de 2015

O amor é agridoce - São Francisco de Sales

Quem não estima muito a pátria não lhe dá grande cuidado que ela se arruíne; quem não ama muito a Deus, também não aborrece muito o pecado.

O amor é a primeira, ou para melhor dizer, é o princípio e origem de todas as paixões; por isso é o primeiro a entrar no coração: e, porque penetra, traspassa até ao fundo da vontade, onde tem a sua sede, diz-se que fere o coração,

É o agudo diz o Apóstolo da França e entra intimamente no espírito, Os outros afetos também entram, é certo, mas por intermédio do amor; pois é ele que, atravessando o coração, lhes dá passagem; o amor fere apenas com a ponta do dardo e os outros afetos aumentam a ferida e a dor.

Ora se o amor fere, necessariamente causa dor. As romãs, por sua cor vermelha, pela multidão de seus grãos tão numerosos e tão bem dispostos, e por suas belas coroas, representam singelamente, diz S. Gregório, a san­tíssima caridade, toda vermelha, por causa do seu ardor para com Deus, cumulada de toda a sorte de virtudes, e a única a alcançar e a ostentar a coroa das recompensas eternas; mas o suco das romãs, que, como sabemos, é tão agradável aos sãos como aos doentes, tem uma tal mistura de acidez e doçura, que não se pode distinguir se agrada ao paladar pela acidez adocicada, se pela doçura acidulada,



O amor· é assim também agridoce, porque, enquanto andamos nesfe mundo nunca tem uma doçura perfeitamente doce, nem satisfação plena, pois nunca é perfeito. Todavia, não deixa de ser muito agradável, porque a sua acidez tem­pera a suavidade da sua doçura, como a sua doçura encobre o agro da sua acidez. O amor causa alegria, mas, ferindo­-nos, prende-nos ao objecto amado, e daí vem não raro também para nós melancolia, inquietação e tristeza.

Além disso, no amor de Deus, há uma espécie de ferida, que o Senhor produz algumas vezes na alma que deseja aperfeiçoar. Dando-lhe sentimentos admiráveis e gra­ças inefáveis que a incitam a amá-lo, ela lança-se com tal ímpeto que parece querer voar para o seu divino objecto: mas como não o consegue, porque nunca chega a amar a Deus tanto quanto deseja, por essa razão sente uma dor violenta e indizível. Por um lado é fortemente impelida a voar para Deus, seu bem amado; por outro lado não pode realizar o desejo por estar ligada às vis misérias desta vida mortal e da sua própria impotência. 

Quer ter asas de pomba para voar ao seu repouso, e não as tem; ei-Ja, pois, duramente atormentada entre a violência de seus impul­sos e a da sua impotência. Quão miserável eu sou! Dizia um dos que sofreram esta pena, quem me livrará do corpo desta morte?

Se bem repararmos, Teotimo, não é o desejo duma coisa ausente que fere o coração, porque a alma sente que o seu Deus está presente, e arvorou nele o estandarte da cari­dade; mas, ainda que Deus já a veja toda sua, continua a excitá-la e, de tempos a tempos, arremessa mil e mil setas de amor, mostrando-lhe por novos meios quanto é mais amá­vel do que é amado. Então a alma, que não tem para o amar a capacidade que o seu amor desejaria, vendo tão fracos os seus esforços, comparados ao desejo que tem de amar dignamente Aquele que criatura alguma pode amar bastante, sente-se penetrada de um incomparável tormento; porque:, quanto mais tenta elevar-se até ao seu amor,. mais violenta é a dor que lhe causa a sua insuficiência.

Este coração amante do seu Deus, desejando infinitamente amar, vê que não pode nem assaz amar nem assaz desejar. Ora este  desejo que não pode realizar, é como uma seta cravada no peito dum espírito generoso. Entretanto a dor que dela deriva, não deixa de ser amável, visto que, quem deseja amar muito, também ama muito o desejo de amar, e julgar-se-ia a mais miserável das criaturas se não desejasse continuamente amar o que é tão sumamente amá­vel, O desejo do amor causa-lhe dor, mas o amor do desejo penetra-a de doçura.


São Francisco de Sales - Tratado do Amor de Deus.

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