domingo, 6 de setembro de 2015

O mendigo que sabia o segredo da perfeição, por Santo Afonso de Ligório

O Padre João Thaulero, segundo o Padre Sangiore, e o Padre Nierember, conta de si mesmo, que tendo por muitas vezes pedido a Deus que lhe ensinasse o caminho da vida espiritual, ouviu um dia uma voz que lhe dizia, que fosse a certa Igreja, e ali acharia a pessoa que procurava. Ele se dirigiu a dita Igreja, e á porta da mesma encontrou um miserável mendigo, descalço e sujo, a quem saudou, dizendo: "Bom dia, irmão". O pobre lhe respondeu: "Não me lembro de ter passado um só dia mau, senhor." O padre replicou: "Deus vos dê uma vida feliz"; ao que ele lhe tornou: "Eu nunca fui infeliz, acrescentando: Padre, não foi o acaso que me fez responder-vos que nunca tive um dia mau: porque, se tenho fome, louvo a Deus; quando cai a neve ou chove, eu o bendigo; se alguém me despreza, me despede ou me aflige, ou se encontro outra qualquer tribulação, dou sempre graças a Deus. Disse-vos que nunca fui infeliz, falei a verdade, pois que me tenho acostumado a conformar-me com a vontade de Deus, sem reserva; assim, tudo quanto me acontece de bem ou de mal, eu o recebo de suas mãos com alegria, como se fosse a minha melhor sorte, e isto me torna feliz." - "E se Deus quisesse" disse Thaulero, "a vossa condenação, que haveis de dizer?" - "Se tal fosse a vontade de Deus, respondeu o pobre, eu com humildade e amor me abraçaria com Nosso Senhor, e me lançaria de tal modo com ele, que quando me quisesse precipitar no inferno, o obrigaria a ir ali comigo, e me acharia então mais feliz com Ele no abismo, do que gozando das delícias do Céu sem Ele." - "Onde achastes a Deus?" Perguntou o Padre. "Achei-o onde deixei as criaturas." - "Quem sois vós?" - "Eu sou um rei." - "Onde é o vosso reino?" - "Na minha alma, onde conservo a ordem; as minhas paixões obedecem a razão, e a minha razão obedece a Deus." - Por fim Thaulero lhe perguntou o que tinha feito para se adiantar na perfeição: "Guardei silêncio, respondeu o mendigo: ser silencioso com os homens em ordem a falar com Deus; e na união que tenho conservado com a vontade de meu Senhor, tenho achado toda a minha paz.
    Tal era, em uma palavra, este pobre homem, pela sua uniformidade coma vontade divina: ele na sua pobreza era seguramente mais rico de que todos os monarcas da terra, e mais feliz em seus padecimentos, que todos o mundanos no gozo de todos os prazeres. Quão grande é a estupidez daquele, que resiste a vontade divina! 


Retirado do Tratado da Conformidade com a Vontade Divina de Santo Afonso de Ligório.

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