sexta-feira, 2 de outubro de 2015

A oração mental é sobretudo necessária para se tender à perfeição. Santo Afonso de Ligório

A oração mental é sobretudo necessária para se tender à perfeição. — Todos os santos chegaram à santidade com o auxílio da oração mental.. É nesta feliz fornalha que as almas se inflamam do divino amor: O fogo se acenderá na minha meditação, dizia Davi. — Segundo S. Vicente de Paulo, seria um milagre ver um pecador ouvir os sermões de uma missão ou um retiro espiritual e não se converter. Entretanto aquele que prega e que fala nestes exercícios, não é senão um homem, ao passo que aquele que fala a nossa alma na oração mental é o mesmo Deus: Eu a conduzirei a solidão e lhe falarei ao coração. Dizia Sta. Catarina de Bolonha: Quem não freqüenta o oração, priva-se do vínculo que une a alma a Deus; e não será difícil ao demônio dominá-lo, achando-o só. — Como, dizia a santa, pretenderei achar amor de Deus em uma alma que não cuida muito de se entreter com o Senhor na oração?
E onde se abrasarão tanto de amor divino os santos, a não ser na oração? — Por meio da oração, S. Pedro de Alcântara chegou a arder de tanto amor de Deus, que, um dia, para se refrigerar, se lançou em um tanque gelado e fez a água ferver como em uma caldeira posta ao fogo. — S. Filipe Neri, pondo-se em oração, se inflamava e tremia de tal modo que fazia abalar toda a cela. — S. Luiz Gonzaga, na oração, se abrasava de divino ardor, de sorte que também seu rosto parecia todo afogueado, e seu coração batia com tanta força que parecia estar a ponto de saltar fora do peito. S. Lourenço Justiniano escreveu que pela oração tem a virtude de expulsar as tentações, dissipar a tristeza, reparar as perdas da virtude, reanimar o fervor que se extingue e aumentar as chamas do amor divino. Por isso S. Luiz Gonzaga tinha razão de dizer que aquele que não faz muita oração, nunca chegará a um alto grau de virtudes. 

    Uma alma aplicada à oração, diz o Salmista, é como uma árvore plantada perto da corrente das águas, que dá frutos no seu tempo; e todas as suas ações são meritórias diante de Deus. Notai estas palavras: No seu tempo, — isto é no tempo em que deve suportar aquela dor, aquela afronta etc. S. João Crisóstomo compara a oração à uma fonte que está no meio do jardim. Quando um jardim é constantemente irrigado pelas águas benéficas de uma fonte perene, como tem sempre cheias de viço e de frescura suas flores e plantas? O mesmo se dá com a alma aplicada a oração: crescerá sempre nos bons desejos e nos frutos das santas virtudes. Donde lhe vem essas vantagens? Da oração, que, irrigandoa continuamente com suas águas salutares e fecundas, dela fazem um jardim de delícias. Mas suprimi esta benéfica fonte: logo as flores caem, as plantas secam e tudo desaparece. Porque? Porque estancou-se a fonte vivificadora. Vede aquela pessoa que dá a oração, como é um modelo de modéstia, de humildade, de devoção e de mortificação. Se abandonar a oração, vereis logo como se tornará imodesta nos olhos, soberba, que se ressentirá de qualquer palavra que lhe digam, sem devoção, pouco se lhe dando da freqüência dos sacramentos e da igreja, e ainda menos da mortificação; toda entregue às vaidades, às hilaridades e conversas levianas, aos passatempos e outros prazeres terrenos. E porque! Porque lhe faltou a irrigação celeste e o espírito divino: A minha alma é diante de vós como uma terra sem água, e o meu espírito desfaleceu. Deixou a oração e o jardim secou, e a miserável vai de mal a pior. Quando uma alma deixa a oração S. João Crisóstomo a considera não só enferma, mas como já morta. 
    Quem não ora a Deus, e não deseja assiduamente gozar da conversação divina, está morto... É a morte da alma não se prostrar diante de Deus. O mesmo santo doutor diz ainda que a oração é raiz da vida fecunda. E S. João Clímaco lhe chama um baluarte contra as aflições, a fonte das virtudes e o canal das graças. — Rufino assegura que todo o progresso espiritual das almas é devido à oração mental. — E Gerson chega a dizer que a-quele que não medita, não pode, sem milagre, viver como cristão. Jeremias, falando daquele que se entrega à oração, assim se exprime: Ele se conservará na solidão e no silêncio, porque tomou sobre si o jugo do Senhor. Por isto o profeta dá a entender que a alma não pode gostar das coisas de Deus, sem se afastar das criaturas e sem se conservar em repouso, isto é, sem se aplicar a contemplar a bondade, o amor, a amabilidade de seu soberano Senhor; mas quando se retira à solidão e ao silêncio, e recolhe à oração, isto é, deixa os pensamentos do mundo, então se eleva acima de si mesma e sai da oração bem diferente do que era antes. Segundo Sto. Inácio de Loyola, a oração mental é o caminho mais curto para chegar à perfeição. Em uma palavra, quem mais se adianta na oração, maiores progressos faz na perfeição. Na oração a alma se enche de santos pensamentos, de santos afetos, de santos desejos, de santas resoluções e de sentimentos de amor para com Deus; sacrifica-lhe suas paixões, suas inclinações, seus apegos terrenos e todos os interesses do seu amor próprio. Além disso, na oração, podemos salvar muitos pecadores, rezando por eles a exemplo de Sta. Tereza, de Sta. Maria Madalena de Pazzi e tantas outras almas penetradas de amor de Deus. Todas estas nunca deixam de recomendar ao Senhor os infiéis, os hereges e todos os pobres pecadores, e lhe suplicam que encha os Sacerdotes de santo zelo para que trabalhem afim de convertê-los. 
    Na oração podemos também ganhar os merecimentos de muitas obras boas que não fazemos, excitando o desejo de praticá-las; porque, assim como o Senhor pune os maus desejos, assim também recompensa a galardôa os bons desejos, que formamos.
    É necessário sobretudo ir a oração não para ter consolações e doçuras espirituais, mas somente para agradar a Deus e saber dele como quer ser amado e servido por nós. — O Padre Baltasar Alvares dizia que amar a Deus não consiste em receber seus favores, mas em servi-lo só para lhe agradar. E acrescentava que as consolações celestes são como paradas que o viajor faz de tempos a tempos, não para ai ficar, mas para se refrescar, e depois passar adiante com novo ardor. Quando, pois, vos achardes áridos na oração e, apesar de todo o tédio que sentirdes, continuardes a fazê-la com constância, ficai sabendo que agradareis muito ao divino Esposo e lucrareis grandes méritos. Dizei-lhe então: Meu Jesus, porque me tratais assim? Vós me privastes de tudo, dos bens, dos parentes, da vontade, e eu consenti em perder tudo para vos ganhar. Porque, pois, agora me privais de vós mesmo? — Dizei-lhe isto com humildade de coração, e ele vos fará compreender que assim faz porque vos ama e para vosso maior bem. Dizia o Padre Torres que levar a cruz com Jesus Cristo sem consolação, faz a alma correr, ou antes voar, para a perfeição.

Santo Afonso de Ligório, em a Verdadeira Esposa de Cristo.  

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