quinta-feira, 1 de outubro de 2015

A respeito da importância da oração mental, por Santo Afonso de Ligório

   Antes de tudo, a alma sem oração não tem luz. Quem tem os olhos fechados, diz Sto. Agostinho, não pode ver o caminho que conduz à pátria. As verdades eternas são coisas espirituais que não se vêem com os olhos do corpo, mas somente com os olhos d’alma, isto é, com o pensamento e com a consideração. As pessoas que não fazem oração mental, não vêem estas verdades, e é por isso que não vêem também a importância da salvação eterna, nem os meios que devem empregar para alcançá-la. A causa da perda de tantas almas é descuidar de considerar no grande negócio da nossa salvação e naquilo que devemos praticar para os salvarmos: A desolação reina em toda a terra, porque ninguém medita em seu coração . — Ao contrário, o Senhor nos assegura, que aquele que tem diante dos olhos as verdades da fé, isto é a morte, o juízo e a eternidade feliz ou desgraçada que nos espera, não cairá nunca em pecado. 

    Lembra-te de teus últimos fins e nunca pecarás. Aproximai-vos de Deus, e sereis esclarecidos, nos diz Davi . E o nosso divino Salvador nos manda ter sempre cingidos os nossos rins e nas mãos lanternas acesas. — Essas lanternas nos adverte S. Boaventura que são justamente as santas meditações . É na oração que o Senhor nos fala e ilumina para acertar com o caminho da salvação. — S. Boaventura chama também a oração mental um espelho que nos mostra todas as manchas que temos na alma. Sta. Teresa escreveu ao Bispo de Osma: Ainda que nos pareça que não há em nós imperfeições, estas aparecem bastante, logo que Deus nos abre os olhos da alma como soe fazer na oração. 
     Quem não faz oração não conhece os seus defeitos, e por isso os não aborrece, como diz S. Bernardo, nem tão pouco vê os perigos que corre a sua salvação, e por isso nem pensa em safar-se ou preservar-se deles. Mas quem se dá à oração, logo enxerga os seus defeitos e os perigos de se perder, e vendo-os cuidará de remediá-los. Davi, meditando na eternidade, movia-se a praticar as virtudes e a se purificar dos vício. O Esposo dos Cantares dizia: Apareceram as flores na nossa terra; chegou o tempo da poda; ouviu-se a voz da rola. Quando a alma, como a rola solitária, se retira e recolhe na oração para falar com Deus, então aparecem as flores, isto é os bons desejos; e vem também o tempo de podar, isto é de reformar os defeitos que se descobrem na oração mental, como diz S. Bernardo. — Em outro lugar o Santo acrescenta: É assim, porque a meditação tem por efeito regular os afetos, dirigir as ações e corrigir os defeito. 
     Além disso sem a oração não se tem a força necessária para resistir aos assaltos dos inimigos e para praticar as virtudes cristãs. A oração age sobre o nosso coração, como o fogo sobre o ferro. Quando este está frio, é muito duro e difícil de se trabalhar; mas, submetido a ação do fogo, amolece, e se amolda facilmente à vontade de ferreiro, segundo escreve o Venerável Frei Bartolomeu dor Martires. Para observar os preceitos divinos e os conselhos, é preciso ter um coração tenro, isto é dócil e disposto a receber as impressões celestes, e pronto para executá-los. Isto é o que Salomão pedia a Deus: Dareis ao vosso servo um coração dócil. — Presentemente, por causa do pecado, o nosso coração é naturalmente duro e indócil: todo inclinado aos prazeres dos sentidos, resiste às leis do espírito, assim como se queixava o Apóstolo: Eu sinto em meus membros uma outra lei rebelde à lei do meu espírito. — Mas o homem torna-se brando e dócil sob a influência da graça, que recebe na oração. Meditando na bondade divina, no grande amor que Deus lhe teve, nos grandes benefícios que lhe fez, se inflama, se enternece e se dispõe a obedecer à voz divina. 
    Ao contrário, sem a oração, o coração ficará duro, obstinado, desobediente, e assim se perderá, pois está escrito que o coração duro terá um fim desgraçado, e aquele que ama o perigo, nele perecerá. Eis porque S. Bernardo exortava ao Papa Eugênio III que tinha sido seu discípulo, nunca abandonasse a oração por causa dos negócios exteriore. 
    Alguns consideram ocioso e perdido o tempo considerável que as pessoas devotas consagram aos exercícios da oração, e dizem que poderiam empregá-lo em obras frutuosas. — Mas não sabem que as almas na oração adquirem força para vencer os inimigos e exercitar as virtudes, como escrevia S. Bernardo. — É por isso que o Senhor proíbe perturbar o sono da sua esposa: Não desperteis a minha amada, deixai-a dormir todo o tempo que quiser. Diz o tempo que quiser; porque o sono ou repouso que a alma toma na oração é todo voluntário, mas é ao mesmo tempo necessário para a sua vida espiritual. — Quem não dorme, não tem força para trabalhar nem para caminhar, mas vai caindo pela estrada. A pessoa que não repousa e não toma forças na oração, torna-se incapaz de operar o bem e de resistir às tentações: vai de queda em queda. Lê-se na vida da venerável Sór Maria Crucifixa, que, estando na oração, ouviu o demônio gabar-se de ter feito certa religiosa faltar à oração comum, e de continuar a tentá-la em ponto grave, estando já prestes a sucumbir a pobre irmã. Pelo que a serva de Deus correu logo a socorrê-la, e com o auxílio divino a livrou da má sugestão. Veja-se em que perigo se põe a religiosa que deixa a oração! — Sta. Teresa dizia que aquele que deixa a oração mental, não tem necessidade de demônios que o levem ao inferno, mas que nele se põe com suas próprias mãos. E o abade Diocles dizia: Aquele que abandona a oração torna-se em pouco tempo ou um bruto ou um demônio.
     A oração nos é absolutamente necessária para a salvação, e a meditação necessária para orar bem. Se não orarmos; Deus não nos concede os seus auxílios, e sem estes não podemos observar seus mandamentos. É por isso que o Apóstolo exortava os seus discípulos a orarem sem interrupção. Todos nós somos pobres mendigos, assim como Davi dizia de si mesmo. O único recurso dos pobres é pedir esmola aos ricos; e todo recurso está igualmente na oração, pois que com a oração obtemos de Deus suas graças. — Sem a oração, diz S. João Crisóstomo, é absolutamente impossível viver bem. Donde vem, com efeito, dizia o douto bispo Abelly, donde vem o grande relaxamento que se nota nos costumes, senão da falta de oração? Deus está todo disposto a nos enriquecer de suas graças; mas, como observa S. Gregório, quer ser rogado e como que forçado a nô-las dar, pelas nossas orações. — De outro lado, segundo S. João Crisóstomo, aquele que se aplica bem a oração, não pode cair em pecado. Os demônios, diz ele em outro lugar cessam de nos tentar quando nos vêem armados da oração — Desta necessidade absoluta que temos de orar, nasce a necessidade moral da oração mental; pois a pessoa que não medita e vive distraída com os negócios do mundo, não conhecerá bem as suas necessidades espirituais, nem os perigos que corre a sua salvação, nem os meios que deve empregar para vencer as tentações, nem a grande necessidade que todos têm de se aplicar a oração. Destarte deixará os exercícios da oração, e, não orando, com certeza se perderá. O grande bispo Monsenhor Palafox, nas suas anotações às cartas de Sta. Teresa, assim escreveu: Como pode durar a caridade, se Deus nos não dá a perseverança? Como nos há de dar a perseverança, se nós lha não pedimos? E como a pediremos sem a oração? Sem oração não há comunicação com Deus para conservar as virtudes. — No mesmo sentido, afirmava o cardeal Bellarmino que era moralmente impossível viver sem pecado aquele que não medita. 
     Quanto a mim, dirá alguém, eu não pratico a oração mental, mas recito muitas orações vocais. — Mas é preciso entender, como nota Sto. Agostinho, que para obter as graças, não basta orar só de boca, é preciso fazê-lo também de coração. Sobre estas palavras de Davi: Elevei a minha voz ao Senhor, o santo observa que muitos gritam, não com a sua voz, a voz interior da alma, mas somente com a voz do corpo. Gritai no vosso pensamento, no vosso coração, acrescenta ele, porque é lá que Deus escuta. Isto é conforme a exortação do Apóstolo: Orai sem cessar em espírito. — As orações vocais, às mais das vezes, se fazem distraídas, com a voz do corpo e não com a do coração, especialmente quando são numerosas, e, sobretudo, quando são recitadas por pessoas, que não se aplicam a oração mental; e, por isso, Deus pouco as ouve e pouco as escuta. Muitos recitam o rosário, o ofício da Santíssima Virgem e fazem outros atos externos de devoção e ainda continuam a permanecer no pecado. Entretanto quem continua a fazer a oração mental não pode continuar a estar em pecado: ou deixará a oração mental, ou deixará o pecado. — Dizia um grande servo de Deus: A oração mental e o pecado não podem ficar juntos. A experiência nos mostra, com efeito, que aqueles que praticam a oração mental, dificilmente perdem a graça de Deus; e se, por desgraça, caírem alguma vez, continuando a oração, logo entram em si e voltam para Deus. Por mais relaxada que seja uma alma, diz Sta. Teresa, se perseverar na oração, o Senhor a reconduzirá ao porto da salvação. 


Retirado do Livro: A Verdadeira Esposa de Cristo.

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