domingo, 18 de outubro de 2015

A respeito da presença de Deus - Parte I, por Santo Afonso de Ligório

     Vamos agora à prática deste excelente exercício da presença de Deus. Consiste ele parte na operação do espírito ou inteligência, e parte na operação da vontade. Pela primeira se considera que Deus está presente; e pela segunda, une-se a ela, fazendo atos de humildade, de adoração, de amor e outros semelhantes, dos quais falaremos aqui perto.
     Pelo que respeita a oração do espírito, pode praticar-se a presença de Deus de quatro modos.

     1. O primeiro consiste em figurar-nos que nosso divino Redentor nos acompanha e nos vê em todos os lugares em que estamos. — Podemos no-lo representar ora em um mistério ora em outro, por exemplo: nós o veremos ora menino deitado no presépio de Belém, ora pobre desterrado fugindo para o Egito; hoje simples operário trabalhando na oficina de Nazaré, amanhã condenado como criminoso em Jerusalém, flagelado, coroado de espinhos ou crucificado. — Sta. Teresa louvava muito este modo de considerar a presença de Deus. É preciso todavia observar que embora seja bom, não é porém o melhor e nem sempre é vantajoso por duas razões: primeiro, porque não é realmente conforme à verdade, visto que Jesus Cristo não está presente verdadeiramente como Deus e como homem, ao mesmo tempo, senão por ocasião e depois da comunhão, ou quando estamos diante do Santíssimo Sacramento. — Em segundo lugar, esse modo pode dar lugar à ilusões ou ao menos cansar e transtornar a cabeça, pelos esforços da fantasias exaltada. — Se, pois, alguém quiser servir-se dele, deve fazê-lo, com reserva, somente enquanto for útil, sem procurar com esforço representar ao espírito os próprios traços do nosso Salvador, o seu rosto, estatura, cor etc. Bastará representá-lo confusamente, como se estivesse a observar tudo o que fazemos.
   
 2. O segundo modo, mais seguro e mais excelente, é fundado sobre a verdade. Consiste em olhar com os olhos da fé a Deus, que está presente em toda a parte, e nos rodeia, vendo e observando tudo o que fazemos. Que importa não o vermos com os olhos da carne? Não vemos também o ar, mas sabemos com certeza que por todos os lados, somos circundados do ar e no meio dele estamos, pois sem ele não poderíamos respirar nem viver. Não vemos a Deus; mas a fé nos ensina que ele está sempre presente. Pois não é verdade, diz o Senhor, que eu encho com minha presença o céu e a terra? Assim como uma esponja, no meio do mar, está, de toda a parte, cercada e penetrada de água, assim, nos diz o Apóstolo, vivemos em Deus, em Deus nos movemos, e em Deus existimos. — Este nosso Deus, diz Sto. Agostinho, está tão atento a observar todas as ações, palavras e pensamentos de cada um de nós, como se, descuidado de todas as outras criaturas, não tivesse que inspecionar senão a nós somente. Além disso, não contente de ver o que fazemos, dizemos e pensamos, nota e escreve tudo, para nos pedir contas no dia de juízo e nos dar, em tempo próprio, o prêmio ou o castigo que merecermos. Este segundo modo da divina presença não fadiga o espírito, pois que basta para exercitá-lo reavivar a fé por um consentimento afetuoso, dizendo interiormente: “Meu Deus, eu creio firmemente que estais aqui presente”. — A este pode-se acrescentar facilmente algum ato de amor, de resignação, de retidão, de intenção e outros.
     3. O terceiro modo de conservar a lembrança da presença de Deus, é reconhecê-lo nas suas criaturas, que todas dele têm o ser e a força para nos servirem. Deus está na água para nos lavar, está no fogo para nos aquecer, no sol para nos iluminar, nos alimentos para nos nutrir, nas roupas para nos cobrir, e em todas as outras coisas que ele criou para nossa utilidade. Quando vemos um belo objeto, como um belo jardim, uma bela flor, pensemos que ali brilha um pequeno raio da beleza infinita de Deus, que deu a existência a esse objeto. Se tratamos com um homem santo e douto, consideremos que Deus é que lhe comunica uma parcela de sua santidade e sabedoria. Do mesmo modo, quando ouvirmos uma música agradável, quando sentirmos um bom odor, quando experimentarmos algum prazer na comida ou na bebida, afiguremo-nos que é Deus que, por sua presença, nos procura esses deleites, para deles nos elevarmos a aspirar as delícias eternas do paraíso.
      Acostumemo-nos, pois, a ver Deus presente em cada objeto, e façamos atos de agradecimento e de amor, considerando que, desde a eternidade, pensou em criar tantas formosas criaturas, para que por elas nós o amássemos. Sto. Agostinho dizia: Aprende a amar na criatura o teu criador, sem dar o teu afeto ao que Deus fez, de modo que, te apegando à criatura, não percas aquele, pelo qual também foste criado. — É com efeito assim que praticava o santo doutor. A vista das criaturas elevava o seu coração a Deus, e ele exclamava com amor: Senhor, no céu e na terra, tudo me exorta a vos amar. Olhando o céu, as estrelas, os campos, as montanhas, parecia-lhe que tudo lhe dizia: Agostinho, ama a Deus, porque ele te criou somente para que o amasses. O mesmo sucedia com Sta. Teresa. À vista dos campos, dos lagos, dos regatos, e de outros objetos agradáveis, ela imaginava que todas essas criaturas lhe repreendiam sua ingratidão para com Deus. — Assim também Sta. Maria Madalena de Pazzi ficava arrebatada de amor divino, ao considerar uma bela flor uma deliciosa fruta, que tivesse na mão, e dizia consigo: É verdade! Meu Deus, desde a eternidade, pensou em criar esta flor, esta fruta por meu amor e para me dar um sinal do amor que me tem!
     Conta-se também de S. Simão Salus, que, andando pelo campo, batia com o seu bastão nas flores e as ervas, dizendo-lhes: “Vamos, calai-vos. Basta, calai-vos. Vós me repreendeis de não amar a Deus que vos fez tão belas por meu amor, afim de me atrair a ele. Eu já vos ouvi. Basta. Não me repreendais mais. Calaivos”. —  Enfim, o quarto e o mais perfeito modo de manter a presença divina é considerar Deus dentro de nós. Não temos necessidade de subir ao céu para achar o nosso Deus; basta nos recolhermos e o acharemos em nós mesmos. Entreter-se com Deus na oração, como de longe, é um método que causa muitas distrações. — Sta. Teresa dizia: Eu nunca soube o que era fazer oração como se deve, senão depois que Deus me ensinou este modo de orar. Neste recolhimento dentro de mim, encontrei sempre grande proveito. Para vir à prática, é preciso entender que Deus está em nós de um modo diverso do que nas outras criaturas. Em nós está como em seu templo, em sua casa, segundo escreveu o Apóstolo: Ignorais que sós o templo de Deus, e que o Espírito de Deus habita em vós?
É por que nosso divino Salvador disse que ele vem, com o Padre e o Espírito Santo, à alma que o ama, não para ai ficar só um instante, mas para morar sempre, e nela estabelecer a sua habitação perpétua: Se alguém me ama... meu Pai o amará e nós viremos a ele e nele fixaremos a nossa morada.


Retirado do Livro: A Verdadeira Esposa de Cristo, de Santo Afonso de Ligório.

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