domingo, 18 de outubro de 2015

A respeito da presença de Deus - Parte II, por Santo Afonso de Ligório


      Os reis da terra, embora possuam vastos palácios, têm todavia seus aposentos particulares, onde moram ordinariamente. Deus está em toda a parte. Sua presença enche o céu e a terra; mas ele habita de um modo particular nas nossas almas, onde prefere estar e passear com em outros tantos jardins que fazem suas delícias, segundo no-lo declara por boca do Apóstolo: Eu habitarei neles, caminharei no meio deles, e serei o seu Deus. — E ai quer ser amado e rogado por nós, porque está em nós todo cheio de amor e de bondade, para ouvir as nossas súplicas, para receber nossos carinhos, para nos defender, nos esclarecer, nos dirigir, nos comunicar seus dons, e para nos ajudar em tudo o que pode ser útil à nossa salvação eterna. Portanto, depois de reavivar a nossa fé, nesta verdade, procuremos muitas vezes nos aniquilar, à vista de tão grande majestade que se digna habitar em nós; e tratemos ao mesmo tempo de fazer atos de confiança, de oferecimento e de amor para com sua infinita bondade; rendamoslhe graças por seus favores; regozijemo-nos de sua glória; peçamos-lhe conselho em nossas dúvidas, e nos julguemos sempre felizes de possuir este sumo bem dentro de nós, sem temer que nenhuma criatura no-lo possa arrebatar jamais ou que se afaste de nós, se o não banirmos voluntariamente.  

     Tal era a pequena cela que Sta. Catarina de Senna tinha fabricado dentro de si mesma, e onde se conservava constantemente retirada, para ai se entreter em doces colóquios com Deus. Assim se desforrava da proibição recebida dos pais de se retirar à sua câmara para orar. Esta pequena cela foi mais vantajosa à santa, porque a faziam sair da sua câmara muitas vezes por dia, ao passo que nunca saia deste santuário interior, onde estava continuamente recolhida com Deus. — Pelo que Sta. Teresa, falando desta presença de Deus dentro de nós, dizia às suas religiosas: Aquelas que de tal modo puderem encerrar-se neste pequeno céu de sua alma, onde reside Aquele que o criou, eu creio que marcham por um excelente caminho; porque fazem grande viagem em pouco tempo. Em suma, é por este exercício da presença de Deus que os santos chegaram a adquirir o grande tesouro dos seus merecimentos. — Assim fazia o Profeta rei: procurava, dizia ele, ver sempre Deus presente em suas obras. 
     O beato Henrique Suzo se aplicou de tal sorte a este exercício, que fazia todas as suas ações, em presença de Deus; e por este meio, conversava continuamente com o Senhor com ternos afetos. — Do mesmo modo, Sta. Gertrudes se habituou tão bem a este exercício, que Nosso Senhor falando dela à Sta. Mechtilde, disse um dia: “Minha bem amada caminha sem cessar na minha presença; procura fazer sempre a minha vontade, e dirige todas as suas obras para minha glória. — É o que praticava também Sta. Teresa: em todas as suas ocupações, não perdia de vista seu amado Senhor. 
      Se, pois, me perguntardes quantas vezes por dia vos deveis lembrar da presença de Deus, eu vos responderei, com S. Bernardo, que devereis fazê-lo a cada instante. Como não há momento, em que não gozemos dos benefícios de Deus, nota o santo, assim não devemos passar um só sem nos lembrarmos dele e sem lhe testemunharmos nosso reconhecimento. — Se alguém soubesse que seu rei pensa sempre nele e na sua felicidade, embora nada lhe aproveitasse esse sentimento de benevolência não poderia esquecer um tão bom príncipe e o amaria do fundo do coração. Ora, é certo que vosso Deus está sempre pensando em vós, e não cessa de vos fazer bem, pelas luzes que vos envia, pelos socorros interiores, por visitas amorosas. Não seria uma ingratidão ficardes algum tempo esquecida de Deus? 
       É pois um dever para nós, nos lembrarmos sem cessar, ou ao menos o mais possível, de sua divina presença. Eis a advertência que o Senhor deu a Abraão: Procura caminhar sempre na minha presença e serás perfeito. — Tobias deu a mesma regra de conduta a seu filho: Meu filho, em toda a tua vida, tem sempre Deus diante dos olhos. — E S. Doroteu recomendou sobretudo este exercício da divina presença a S. Dositeu, seu discípulo que lhe perguntou o que devia fazer para se santificar: Pensai, lhe disse ele, que Deus está sempre perto de ti e te vê. — S. Doroteu refere que seu fiel discípulo seguiu tão bem este conselho que, em todas as suas ocupações e nas enfermidades extremas que teve de sofrer, nunca perdeu a Deus de vista. É assim que, de jovem soldado que antes era entregue aos vícios, conseguiu, no espaço de cinco anos somente, chegar a um tal grau de perfeição, que depois de sua morte foi visto sentado no céu, na ordem dos mais santos anacoretas. 
       O grande servo de Deus padre José de Anchieta que, pela prática da presença de Deus, chegou a levar uma vida muito perfeita, dizia que nada pode nos afastar deste exercício, a não ser a pouco atenção que lhe damos. — É por isso que o profeta Michéas nos dá este aviso: Ó homem, eu vou indicar-te o que é bom e o que o Senhor exige de ti. Ele quer que apliques tua atenção e todos os teus cuidados em fazer as tuas ações em sua presença. Quem assim procede, faz bem tudo. Pelo que escreveu S. Gregório Nazianzeno: Devemos lembrar-nos de Deus todas as vezes que respiramos. E acrescenta que, deste modo, faremos tudo bem. — Diz um outro pio autor que pode omitir-se a meditação, em algumas circunstâncias, como em tempo de doença ou de ocupação grave e urgente; ao passo que deve sempre praticar-se o exercício da presença de Deus, por meio de atos piedosos, de boa intenção, de oferecimento, e outros semelhantes, como depois diremos mais explicitamente. 



Retirado do Livro: A Verdadeira Esposa de Cristo, por Santo Afonso de Ligório.

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