quinta-feira, 15 de outubro de 2015

A respeito das amizades, por Santa Teresa D Ávila

   Esse Padre começou a me pôr maior perfeição. Dizia-me que, para alegrar totalmente a Deus, eu não devia deixar nada por fazer. Agia também com grande perícia e brandura, porque minha alma ainda não estava nada forte, mas muito tenra, especialmente para deixar algumas amizades que tinha, ainda que não ofendesse a Deus com elas. Era muita afeição e parecia-me que seria ingratidão deixá-las. E, assim, dizia que, já que não ofendia a Deus, porque haveria de ser ingrata? Ele me disse que me encomendasse a Deus uns dias e rezasse o hino "Veni Creator" para que Ele desse luz sobre o que seria melhor.
    Tendo estado um dia em muita oração e suplicando ao Senhor que me ajudasse a alegrá-lo em tuo, comecei o hino. E, estando a dizê-lo, veio-me uma arrebatamento tão súbito que quase me tirou de mim, coisa de que não pude duvidar, porque foi muito evidente.
    Foi a primeira vez que o Senhor me fez essa dádiva de arrebatamento. Ouvi essas palavras: "Já não quero que tenhas conversas com homens, mas sim com os anjos." A mim, causou grande espanto, porque o movimento da alma foi grade. E muito no espírito me foram ditas essas palavras e, assim, me deu medo, ainda que, por outro lado, grande consolo, que ficou comigo, passado o medo que, me parece, a novidade causou.
    Isso se cumpriu bem, pois nunca mais pude assentar em amizade, nem ter consolação, nem amor particular, a não ser por pessoas que percebo terem amor a Deus e procuram servi-Lo. E não é algo que está em meu poder. Nem me importa se são parentes ou amigos. Se não percebo isso, ou se não for pessoa de oração, é uma penosa cruz para mim conversar com alguém. Isso é assim, parece-me, sem nenhuma falha.

Já a respeito de amizades com pessoas de orações, Santa Teresa D Ávila diz:

«Grande mal é uma alma encontrar-se só no meio de tantos perigos. Estou em crer que, se eu tivesse com quem falar sobre tudo isto, muito me teria ajudado a não voltar a cair, ao menos por vergonha, já que a não tinha de Deus. Por isso, eu aconselharia aos que têm oração, sobretudo ao princípio, que procurassem ter amizade e relação com outras pessoas que tratam do mesmo.
Isto é muito importante, ainda que não seja mais do que ajudarem-se umas às outras com as suas orações. Porém, há muitos mais ganhos! Se nas conversações e amizades humanas, mesmo não sendo muito boas, se procuram amigos para ter mais gosto em contar esses vãos prazeres, não sei porque é que não se há-de permitir, a quem deveras começa a amar a Deus e a servi-lo, que fale com algumas pessoas sobre as suas consolações e trabalhos, pois de tudo isto têm os que fazem oração. Se a amizade que quer ter com Sua Majestade for verdadeira, não tenha medo de vanglória; e quando o primeiro movimento de vanglória lhe surgir, saia dele a ganhar. Eu creio que quem o fizer com esta intenção, ajudar-se-á a si e aos que o ouvirem; sairá mais ensinado e até, sem saber como, ensinará aos seus amigos».

Retirado do Livro da Vida, de Santa Teresa D'Ávila.

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