sexta-feira, 9 de outubro de 2015

A vontade dirige de diversos motos as potências da alma, São Francisco de Sales.

     O pai de família guia a sua mulher, seus filhos e seus criados por conselhos e ordens, às quais todos são obrigados a obedecer, bem que possam deixar de o fazer; se tem ser­vos e escravos, governa-os pela força, à qual não podem deixar de se submeter. Os seus cavalos e os seus bois maneja-os com indústria, prendendo-os, pondo-lhes o freio, chegando-lhes a espora, encurralando-os, soltando-os.
    Por certo, que a vontade governa a faculdade dos movi­mentos exteriores como um servo ou um escravo; a não ser que externamente qualquer coisa a estorve, nunca deixa de obedecer. Abrimos e fechamos a boca, movemos a língua, as mãos, os pés, os olhos, e todas as partes em que a facul­dade do movimento se encontra, sem resistência, como nos apraz e segundo a nossa vontade.
    Mas quanto aos nossos sentidos e à faculdade de nutrir, crescer e desenvolver-nos, não a podemos governar tão facíl­mente, antes carecemos de empregar a indústria e a arte. Se chamamos um criado, ele vem; se lhe dizemos que pare, ele para; mas não podemos esperar esta obediência de um gavião ou falcão; quem o quiser obrigar a voltar, tem de fazer-lhe negaças, quem o quiser sossegar, tem de lhe cobrir a cabeça. Diz-se a um criado : volta à esquerda ou à direita, e ele obedece: mas para fazer voltar assim um cavalo, precisamos servir-nos das rédeas. Não podemos, Teotimo, ordenar aos nossos olhos que não vejam, nem aos nossos ouvidos que não ouçam, nem às nossas mãos que não toquem, nem ao nosso estômago que não digira, nem ao nosso corpo que não cresça, porque todas estas faculdades são privadas de entendimento, e portanto incapazes de obedecer.

    Ninguém pode acrescentar um cavado à sua estatura.
    Raquel queria, mas não podia conceber.
    Comemos muitas vezes sem nos nutrirmos nem nos desenvolvermos. Quem quiser dominar as suas faculdades, tem de ser industrioso. O médico, tratando de uma criança de berço, não se dirige nunca a ela, mas ordena· à ama que lhe aplique isto ou aquilo; às vezes manda que tome este ou aquele alimento, que use de certo medicamento; o efeito deste comunica-se ao leite, o leite alimenta o corpo da criança, e a vontade do médico alcança feliz êxito neste pequenino doente, que nem sequer nisso podia pensar. Não é de certo necessário impor leis de abstinência, de sobriedade e de continência ao estômago, à garganta ou ao ventre; mas é preciso ordenar às mãos que não forneçam à boca as viandas e bebidas, a não ser nesta ou naquela me­dida. É preciso tirar ou dar às paixões más os objetos e os alimentos que as fortificam, segundo o que a razão exigir. É preciso distrair os olhos, ou fechá-los quando quisermos que não vejam; e com estas indústrias os encaminharemos como a vontade o desejar. É assim, Teotimo, que Nosso Senhor ensina que há eunucos que o são para o Reino dos Céus, isto é, que não são eunucos por impotência natural mas pelos meios de que a sua vontade se serve para os reter na santa continência. É loucura ordenar a um cavalo que não engorde, que não cresça, que não escoicinhe; se desejais tudo isto, levantai-lhe a manjedoura; não basta mandá-lo, é preciso refreá-lo duramente para o domar.
    Sim, a vontade tem poder sobre o entendimento e sobre a memória: porque das muitas coisas que o entendimento pode compreender ou elas que a memória pode recordar, a vontade determina aquelas às quais quer que as suas faculdades se apliquem, ou das quais quer que se desviem. É verdade que não pode dirigi-Ias nem submetê-las tão abso­lutamente como faz com as mãos, com os pés ou com a lín­gua, em razão das faculdades sensitivas, e especialmente a imaginação, não obedecerem pronta e infalivelmente à von­tade; todavia a vontade agita-as, emprega-as e aplica-as como lhe apraz, se bem que não tão firme e invariavelmente que a fantasia, inconstante e volúvel, as não distraia muitas vezes, desviando-as para outro lado; de forma que, como diz o Após­tolo: Eu faço, não o bem que quero, mas o mal que aborreço: do mesmo modo somos muitas vezes forçados a lamentar-nos, porque pensamos não no bem que amamos, mas no mal que detestamos.


São Francisco de Sales - O Tratado do amor de Deus.

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