sexta-feira, 23 de outubro de 2015

Aridez Espiritual - Parte I


Vale incomparavelmente mais
um ato de piedade ou de Virtude
praticado na aridez de espirito,
que muitos na ternura
e no tempo da consolação. 


A vida espiritual tem muitas alternativas. Assim como os dias da semana uns são claros e serenos, e outros carregados de nuvens e desagradáveis, e assim também, como nas diferentes estações do ano, a Natureza se mostra, ora triste e melancólica, como no inverno, ora exuberante de formosura, de verdor e louçania, como na primavera, da  mesma maneira a alma que se entrega à devoção, umas vezes sente-se cheia de fervor e de consolações sensíveis na oração e nas demais obras do serviço divino, e outras, pelo contrário, vê-se mergulhada na maior insensibilidade e aridez de espírito, não encontrando prazer, nem gosto, senão tédio, fastio e desalento em todos os seus exercícios.

E há muitas almas piedosas que, enquanto Deus Nosso Senhor as mimoseia com aqueles fervores e consolações julgam elas amá-lo e agradar-lhe mais e serem mais amadas por Ele, e sentem-se, por isso mesmo, muito animadas para continuarem o caminho empreendido ; mas se se vêem privadas de tais consolações e gostos, caem no desalento, pensando que nenhum valor tem tudo aquilo que fazem ; que perdem tempo inutilmente ; que não têm bom espírito nem verdadeira virtude ; que não amam nem agradam a Deus, e que Deus as tem abandonadas e afastadas de si. Isto é certamente um erro, e um erro muito prejudicial que tem feito que algumas abandonem para sempre o caminho da perfeição que tinham começado ; e revela, além disso, uma afeição desordenada às consolações sensíveis, ao que S. João da Cruz chamava com grande propriedade gula espiritual. 
A devoção essencial, a devoção sólida e verdadeira, não consiste no fervor sensível, mas na «determinação e prontidão da vontade para fazer por amor de Deus tudo aquilo que é do maior agrado e serviço divino». 
Assim a define S. Tomás, segundo dissemos. Donde se deduz que o gosto e a ternura sensível que experimentamos às vezes nos nossos exercícios espirituais ou na prática da virtude, são a parte acidental e acessória da devoção. «0 amor de Deus, diz S. Francisco de Sales, não consiste em consolações e ternuras ; porque se fosse isso, podia dizer-se que Jesus Cristo não amava muito o eterno Pai, quando se confessava triste até ã morte, e quando clamava na Cruz: «Meu Deus, meu Deus, porque me abandonaste », e é tão ao contrário, que era então quando fazia o ato mais sublime de amor que é possível imaginar-se .
 Longe de ser sempre a aridez espiritual sinal de falta de virtude, é, pelo contrário, em muitas ocasiões, efeito do amor especialíssimo que Deus tem àquelas almas que deseja elevar a grande perfeição, às quais quer pôr à prova e purificar dessa maneira, e daí todos os Santos, numa ou noutra época da sua vida, terem passado por esta prova; da aridez e desolação interior. «Nunca encontrei homem tão religioso e devoto, diz a Imitação de Cristo, que alguma vez não se visse privado da consolação divina ou não sentisse diminuição de fervor.
 Nenhum Santo foi tão altamente arrebatado ou iluminado, que antes ou depois não tenha sido provado pelo Senhor» . O Santo Rei David, num desses momentos de aridez espiritual. comparava a sua alma a uma terra sem água . S. Francisco de Assis passou dois anos contínuos na maior desolação e trevas, sentindo tédio de todas as coisas espirituais. Santa Tereza de Jesus refere de si mesma na sua vida  ter experimentado muitas vezes esse estado, mesmo naquela época em que o Senhor já havia elevado o seu espírito aos graus mais elevados da oração. De Santa Joana Maria de Chantal lê-se, que durante algum tempo foi provada da mesma forma, e nos seus últimos nove anos foi tal a intensidade, tal a amargura da sua aridez e desolação interior, que a sua vida não era senão um martírio ininterrupto e uma agonia continuada, mais penosa que a própria morte ; e poderíamos dizer o mesmo, em maior ou menor grau de todos os Santos. Muitos deles, na sua ânsia de sofrer por amor de Deus e de imitar a Nosso Senhor Jesus Cristo, chegaram a desejar e a pedir esse mesmo estado de secura e desolação de espírito. A serva de Deus, D. Carmen de Sojo, falecida em Barcelona, no ano de 1 890, em. odor de santidade, num ato de consagração que escreveu com o seu próprio sangue, arrancado pelo cilício, deixou estampadas estas palavras admiráveis: « ... Sim, meu amado Jesus ; do Intimo do meu coração consagro-me inteira e exclusivamente a Vós, cravada na Cruz, sem querer para mim outra coisa senão o martírio, penas sem conta, abandono, escárnio, desprezo e, o que mais me fará sofrer, desolação, secura, aridez interior» E Santa Maria Madalena de Pazzis, ao ver mudarem-se em aridez os transportes de amor que tinha experimentado noutras ocasiões ; em tédio, o fervor da sua devoção anterior ; sossego e a paz da sua alma, em horríveis tentações que a assediavam noite e dia. .. no meio do seu grande desconsolo exclamava com generosidade heroica: «Senhor ; não Vos peço a morte, mas novas amarguras e sofrimentos ; padecer e não morrer». Por aqui poderás compreender, leitor piedoso, que a aridez e a secura de espírito em que te possas ver caído, não querem dizer de si imperfeição ou inimizade com Deus, ou falta de virtude, mas que é compatível. como acabas de' ver, com a mais eminente santidade. O que importa, quando te achares em semelhante estado, é que averigues. enquanto te seja possível. a causa donde vem em ti essa aridez, para saber se és ou não culpado dela, e como te hás-de conduzir num e noutro caso. Disso vamos agora tratar.

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