quinta-feira, 22 de outubro de 2015

Aridez Espiritual - Parte II


A aridez espiritual pode provir de varias causas: umas vezes provém da tibieza voluntária, a saber: ou da negligência em evitar os pecados veniais ou as pequenas transgressões da nossa regra ; ou da falta habitual de mortificação e reconhecimento interior ; ou do desprezo e Infidelidade às graças e inspirações divinas ; ou do espírito de presunção e vanglória pelos favores recebidos, com o que nos tomamos indignos doutros ; ou do apego excessivo às consolações sensíveis das quais o Senhor nos quer ver mais desprendidos ; ou da omissão deliberada dos exercícios de piedade ; ou da falta de devoção e negligência na prática dos mesmos, etc.

 Outras vezes não provém de alguma causa voluntária ou culpável. senão que é Deus mesmo, segundo temos visto, que põe a alma nesse estado de desolação e abandono aparente, para maior bem e proveito dessa mesma alma, por exemplo ; para que satisfaça aqui pelos seus pecados e seja preservada na outra vida das penas do Purgatório ; para firmá-la mais na humildade e conhecimento da sua própria impotência e miséria ; para a desprender do apego dos gostos e consolações sensíveis e purificá-la de qualquer outra afeição desordenada ; para provar a generosidade e o desinteresse do seu amor a Deus ; para que se exercite em virtudes sólidas e assim aumente os seus merecimentos ; para que, enfim, sendo experimentada nos caminhos e combates do espírito, saiba ter caridade e consideração com os outros e assim posso instrui-los e consolá-los quando estes forem também postos à prova, e necessitarem do seu conselho ou ajuda. 
Examina, pois, alma devota, o que te diz a tua consciência ; e se, depois de exame prudente (feito sem inquietação e sem descer a uma excessiva ou escrupulosa minuciosidade), encontrares em ti mesmo, quer dizer, na tua própria vontade e tibieza, a causa da aridez espiritual de que padeces, liberta-te dessa causa, e assim remediarás o teu mal : mas se a não encontrares em ti, mas vires que o estado de aridez ou desolação provém de um motivo desconhecido ou inevitável para ti, em tal caso eis aqui como te deves portar: Humilha-te na presença de Deus, vendo a tua miséria e o teu nada, e pensa que és indigno das consolações de que só se tornam merecedores aqueles que servem ao Senhor com maior fidelidade e perfeição do que tu, que talvez muitas vezes terás merecido o Inferno. Não te entregues às tristezas, nem te desgostes com inquietes por isso, julgando-te abandonado de Deus, e que, por te achares em tal aridez, és menos agradável a seus divinos olhos ; antes, leva com paciência tal prova, e ainda, se puderes, alegra-te no mais íntimo do teu espírito e bendiz e dá graças ao Senhor por ela, considerando-a como um grande bem ; e isto, por várias razões, porque devemos bendizer a Deus por todos os acontecimentos, e adorar em todas as: coisas a sua vontade, as suas disposições e a ordem da sua. Providência, porque nada se faz que não seja para nosso proveito, porque tudo se converte em bem para os que o amam, e a quem Ele ama, porque somos filhos da Cruz, e como tais, devemos alegrar-nos em participar da paixão de Nosso Senhor (I Petr. IV, 13) ;  porque na desolação e nas securas temos mais ocasião de manifestar ao Senhor a nossa fidelidade, porque a doçura das consolações sensíveis gerará ordinariamente em nós os gérmens da complacência e esta, a vanglória, que é o veneno da alma e que corrompe todas as obras boas, porque, enfim, nas consolações facilmente mudamos de objecto, e em vez de amarmos ao Deus das consolações, gostamos de acariciar e amar as consolações de Deus, estratagema notável do inimigo principal da nossa salvação. 
 Santa Teresa de Jesus, que passou muitos anos de vida neste estado de aridez e desolação interior, disse no livro da sua vida com este estilo tão simples e encantador que caracteriza os seus escritos: «Pois que fará aqui o que vê que em muitos dias não há senão secura e desgosto e dissabor, e tão má vontade para vir buscar a água (da consolação e ternura) ... que muitas vezes lhe acontecerá não poder ter sequer um bom pensamento ? Que fará aqui o hortelão? Alegra-se e consolar-se e ter por grande mercê trabalhar na horta de tão grande Imperador ; e visto saber que O· contenta com isso e o seu intento não há-de ser contentar-se a si, mas a Ele, elogie-o muito, que faz confiança nele, pois. vê que sem lhe pagar nada tem muito cuidado do que lhe encomendou ; e ajude-o a levar a cruz e pense que toda a vida viveu nela, e não queira aqui o seu reino, nem deixe jamais a oração, e assim se resolva, ainda que esta secura lhe dure toda a vida, a não deixar a Cristo cai.r com a cruz ; tempo virá em que lho pagará por junto. 

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