quinta-feira, 22 de outubro de 2015

Aridez Espiritual - Parte III (Final)


Não tenha medo que o trabalho se perca ; a bom amo serve ; ele o está vendo : não faça caso dos maus pensamentos ; repare que o demônio os apresentava a S. Jeronimo no deserto ... Para nosso bem creio que Sua Majestade nos quer levar por aqui, para que compreendamos bem o pouco que somos ; porque são de tão grande dignidade as mercês que vêm depois, que quer que vejamos antes por experiência a nossa miséria, antes de no-las conceder, para que não nos aconteça como a Lúcifer.

Em tal estado de aridez espiritual não deixes de praticar as boas obras que costumavas, nem omitas nenhum dos exercícios de piedade das tuas constituições ou da tua regra particular, pois é então que precisamente as tuas ações serão mais excelentes e meritórias, por te serem mais custosas, já que exigem uma vontade mais vigorosa e constante e supõem maior sacrifício, e revelam um amor de Deus mais puro, mais forte, mais generoso e desinteressado ; pelo que, bem se pode afirmar com toda a verdade, que vale incomparavelmente mais um ato bom praticado na aridez espiritual que muitos na ternura e no tempo da consolação.

«As nossas ações, diz belamente S. Francisco .de Sales, são como as rosas, que, frescas, têm mais formosura, secas têm mais perfume e virtude ; assim são as obras: se quanto as executamos com ternura de coração, são mais agradáveis a nossos olhos ( aos nossos digo, que só olham ao seu próprio gosto ) , quando as fazemos com secura e aridez, têm mais perfume e valor diante de Deus pois o Senhor estima-as  e aprecia-as na proporção das contrariedades que sentimos interior ou exteriormente ; e quanto menos interesse particular tenhamos em as praticar, tanto mais resplandecerá nelas a pureza do amor divino: não é muito uma criança acariciar a sua mãe quando esta lhe dá açúcar ; mas é prova de a amar muito, o acariciá-la depois de lhe ter dado absinto ou aloés» Podes, sem que nisso nada haja de censurável ou de imperfeito, pedir humildemente ao Senhor, em momentos d'e aridez e desolação, que te devolva o favor da devoção e a santa alegria do espírito, pois as nossas súplicas e queixas sentidas, dirigidas ao Senhor com humildade e afeto de filhos, não podem deixar de ser muito agradáveis ao seu bondosíssimo Coração ; mas, ao mesmo tempo, não desejes com ansiedade e inquietação ver-te livre desse estado penoso em que o Senhor te quis pôr, mas deves aceitar isso com inteira submissão, resignando-te com a vontade divina e abandonando-te de todo nos seus braços. «Então, diz a Imitação de Cristo, não há remédio melhor que a paciência e, negando-me a mim mesmo, resignar-me com a vontade de Deus» . Assim o fez o nosso dulcíssimo Salvador, o qual, ao suplicar a seu Eterno Pai nas agonias do horto, que, se fosse possível afastasse d'Ele aquele cálice, terminou sempre a sua oração dizendo: Mas não se faça, meu Pai  minha vontade, mas a vossa ; e a seguir, posto já na cruz, ao mesmo tempo que se via mergulhado num mar de amargura e experimentava em si a maior desconsolação e o mais horrível desamparo que se pode imaginar, exclamou, cheio de confiança resignada em seu Pai celestial: Pai, em tuas mãos encomendo o meu espírito  . Se te acontecer, como acontece algumas vezes, que a secura e desolação em que te aches provenha de doença ou fraqueza corporal, então convém que atendas com mais esmero do que o costume ao cuidado do corpo, e recuperes com a alimentação conveniente e por outros meios salutares e higiênicos as forças perdidas ; e entretanto, como aconselha' S. Francisco de Sales, pratica simples e suavemente atos interiores de virtude com a parte superior da tua vontade, pois ainda que te pareça que tais atos são produzidos com negligência e sem fervor, são muito agradáveis e meritórios diante do Senhor.
 Por último, aconselho-te como coisa da maior importância, que vás ao teu diretor espiritual, ou se não o tiveres à mão, a uma pessoa amiga, prudente, instruída e de espírito bom, a quem descubras o estado da tua alma ; encontrarás nisso, seguramente, luz e. consolação, e livrar-te-ás por esse meio de cair no abismo da tristeza, do desalento ou do desespero, onde nos pretende conduzir o inimigo das nossas almas.

RESOLUÇÃO : Evitarei a dissipação e tibieza voluntárias.
causas frequentes da aridez espiritual ; mas se me
vir em tal estado de aridez· sem culpa minha, não me inquietarei,
nem desanimarei na prática da virtude e dos exercícios
de piedade ; pensando então que a minha fidelidade ao Senhor
é mais pura e mais meritória. Jaculatória: Fazei, meu Jesus, que eu seja fiel ao vosso amor. tanto nos dias de aridez e desolação de espírito como nos momentos de grande consolação e 'fervor' sensível. 

( A PERFEIÇÃO CRISTA, Segundo o espirito de  S. francisco de Sales)

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