quinta-feira, 29 de outubro de 2015

Castidade e Pudor - Pe José María Iraburu

Castidade e pudor

     De   fato,   na linguagem   comum,  se   toma   indistintamente   uma   pela   outra”   (Summ   Thlg.  II-II, 151,4). Pio XII ensina que o sentido do pudor consiste “na inata e mais ou menos consciente tendência de cada um a defender da indiscriminada concupiscência das demais pessoas um bem físico próprio, a fim de reservá-lo, com prudente seleção de circunstâncias, aos sábios fins do Criador, por Ele mesmo postos sob o escudo da castidade e da modéstia” (Disc. 8-XI-1957: AAS 49, 1957, 1013). Em  outro  escrito  (O  matrimônio  em Cristo,  33-38)  estudei   a  psicologia  do pudor, a naturalidade  do pudor na condição humana pecadora, a conexão do pudor com  outras   virtudes,  etc.

1. O antigo impudor
      A castidade é uma virtude que, movida pela caridade, orienta ao bem o impulso procriativo humano, tanto em seus aspectos físicos como afetivos. Implica, pois, para o homem em liberdade, domínio e respeito de si mesmo, assim como caridade e respeito para os outros, que não são vistos como objetos, mas como pessoas.
     Como é uma virtude, a castidade é uma força espiritual na pessoa, uma inclinação boa, uma facilidade   para   o   bem   próprio   de   sua   honestidade,   e   consequentemente   uma repugnância em relação à luxúria que lhe é contrária.       E um aspecto da castidade é o pudor. Enquanto a castidade modera o impulso procriativo, o pudor ordena mais propriamente os olhares, os gestos, os vestidos, as conversações, quer dizer, todo um conjunto de circunstâncias que está mais ou menos em relação com aquele impulso sexual.Por isto diz Santo Tomás que “o pudor se ordena à castidade, mas não como uma   virtude   distinta   dela,   mas   como   uma   circunstância   especial.  




      Agora,   dentro   dos   múltiples   aspectos   do   pudor,  tratarei principalmente do traje, dos olhares, da nudez. E por que motivo trato do pudor mais propriamente do que da castidade? Por uma   razão   muito   sensível.  A  maioria   dos   possíveis   leitores   deste   escrito   têm   a consciência bastante clara acerca da castidade. Mas muitos deles – recorde-se o caso concreto   que   me   impulsionou   a   escrever   este   livro   –   não   têm   sua   consciência plenamente evangelizada a respeito do pudor. Pelo contrário, sendo que estão vivendo na Babilônia, ou se se preferir, em Corinto, acabam não se dando conta às vezes das doses   de   impudor   que   vão   assimilando   (assumindo)   sem   maiores   problemas   de consciência. E isto, saibam ou não, acreditem ou não, queiram ou não, traz para eles e para outros más consequências.


       O mundo pagão


        A castidade e o pudor – inclusive a virgindade -, foram valores em alguma medida conhecidos pelo mundo pagão antigo. Esta moderação honesta, obrigada não poucas vezes pela necessidade, foi vivida sobretudo entre os pobres. Mas entre os ricos, e também entre os pobres, ainda que em outra medida, reinaram amplamente a lúxuria e o impudor, de tal modo que sobre estes pecados havia uma consciência moral sumamente obscurecida. Mais ainda, em não poucas ocasiões haveria que se dizer, como disse São Paulo, que sobre estas questões havia apenas consciência de pecado. No ensino   do  Apóstolo,   efetivamente,   esta  cegueira   moral  da   luxúria   e  do impudor afetava aos pagãos precisamente porque “alardeando sabedoria, se fizeram néscios, e trocaram a glória de Deus incorruptível pela semelhança da imagem do homem   corruptível”.   Por   isso   precisamente   se   viram   afundados   nas   misérias   da fornicação e da impudícia, “porque adoraram e deram culto à criatura em lugar do Criador, que é bendito pelos séculos (+Rm 1,22-25):“Por isto Deus os entregou aos desejos de seu coração, à impureza, com que desonram seus próprios corpos... Por isto Deus os entregou às paixões vergonhosas, pois as mulheres mudaram o uso natural em uso contra a natureza; e igualmente os varões, deixando o uso natural da mulher, se abrasaram na concupiscência de uns pelos outros, comentendo torpezas homens com homens, e recebendo em si mesmos o pagamento devido aos seus extravios. E por isto, porque não procuraram conhecer a Deus, Deus os entregou a seus sentimentos perversos, que os leva a cometer torpezas, e   a   encher-se   de   toda   injustiça,   malícia,   avareza,   maldade   (etc.).   Todos   estes, conhecendo a sentença de Deus, que quem faz tais coisas são dignos de morte, mas não só os que fazem como também os que aplaudem a quem as faz” (Rm 1,24-32).
            Mostra, pois, o Apóstolo neste escrito o nexo profundo que existe entre a irreligiosidade e a luxúria, que é uma forma de idolatria. A plena revelação da castidade não se dá senão em Jesus Cristo, em quem se produz   a   plena   revelação   de   Deus.   É   compreensível,   pois,   que   os   pagãos, desconhecendo a Deus, vivam na idolatria, e dêem culto à criatura humana, que é “a imagem de Deus”, idolatrando concretamente a beleza corporal e a atividade sexual. Tudo isto significa que os cristãos, também nestas questões que se referem ao impudor e à luxúria, devem morrer completamente à mentalidade e aos costumes do homem pagão, carnal, velho, cegado por sua estupidez espiritual, e devem renascer ao espírito novo e santo que Cristo traz, o novo Adão, origem da nova humanidade: “Fazei morrer em vossos membros tudo o que é terreno, a luxúria, a impureza, a paixão desordenada, aos maus desejos e também a avareza, que é uma espécie de idolatria. Estas coisas provocam a ira de Deus, e nelas também vós andaveis antes, quando viviam nelas” (Col 3,5-7).O cristianismo, é evidente, nos primeiros séculos de sua vida, teve que afirmar a castidade perfeita e o pudor perfeito num mundo judeu e num mundo greco-romano que em grande medida ignoravam e rechaçavam este espírito novo.


Retirado do livro: Elogio ao Pudor do Pe. José María Iraburu

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