sábado, 3 de outubro de 2015

Catecismo sobre a Oração, por São João Maria Vianney


Vede, meus filhos: o tesouro de um cristão não está na terra, está no Céu. Pois bem! O nosso pensamento deve estar onde está o nosso tesouro. O homem tem uma bela função, a de rezar e de amar...Vós rezais, vós amais: eis a felicidade do homem na terra! A oração não é outra coisa senão uma união com Deus. Quando se tem o coração puro e unido a Deus, sente-se um bálsamo, uma doçura que inebria, uma luz que deslumbra. Nessa união íntima, Deus e a alma são como dois pedaços de cera fundidos juntos; não se pode mais separá-los. É uma coisa bem bela essa união de Deus com a sua criaturinha. 


É uma felicidade que não se pode compreender. Nós havíamos merecido não rezar; mas Deus, na sua bondade, permitiu-nos falar-lhe. A nossa oração é um incenso que Ele recebe com extremo prazer. Meus filhos, vós tendes um coração pequeno, mas a oração dilata-o e torna-o capaz de amar a Deus... 

A oração é um antegozo do Céu, um derramamento do Paraíso. Nunca nos deixa sem doçura. É um mel que desce à alma e adoça tudo. As penas derretem-se ante uma oração bem feita, como a neve diante do sol. A oração faz passar o tempo com grande rapidez, e tão agradavelmente, que a gente não lhe percebe a duração. Reparai, quando ou percorria a Bresse, no tempo  em que os pobres curas estavam quase todos doentes, rezava a Deus ao longo do caminho. Asseguro-vos que o tempo não me durava. Veem-se alguns que se perdem na oração como o peixe n'água, porque são todos de Deus. No seu coração  não há intermédio. Oh! Como gosto dessas almas generosas!... S. Francisco de Assis e Santa Clara viam Nosso Senhor e lhe falavam como nós nos falamos. Ao passo que nós, quantas vezes vimos à  igreja sem saber o  que vimos fazer e o que queremos pedir! E, entretanto quando vamos à casa de alguém, sabemos bem porque vamos... Há uns que parecem dizer a Deus: "Vou dizer-Vos duas palavras para me ver livre de Vós..." Eu penso com frequência que quando nós vimos adorar Nosso Senhor, alcançaríamos tudo o que quiséssemos se lhe  pedíssemos com uma fé bem viva e um coração bem  puro. Mas sucede justamente que estamos sem fé, sem esperança, sem desejo e sem amor... Há  dois gritos no homem: o grito do anjo e o grito  da  besta. O grito do anjo é a oração; o grito da besta é o pecado. Os que não rezam, curvam-se para a terra como uma toupeira que procura fazer um buraco para  se esconder. São todos terrenos, todos embrutecidos, e  só pensam nas coisas do tempo... como aquele avarento  a quem administravam um dia os sacramentos; quando lhe apresentaram a beijar um crucifixo de prata, disse ele: "Aí esta uma cruz que pesa bem dez onças". 

 O Céu, se houvesse nele um dia sem adoração, não seria mais o Céu; e se os pobres condenados, apesar dos  seus sofrimentos, pudessem adorar, não haveria mais  inferno. Ai! Eles tinham um coração para amar a Deus, uma língua para bendizê-lo: era o seu destino... E agora, condenaram-se a maldizê-lo durante toda a eternidade. Se eles pudessem esperar vir a rezar uma vez ao menos durante um minuto, esperariam por esse minuto com tal impaciência que isso lhes amenizaria os tormentos. Pai Nosso, que etais nos Céus. . . Oh! Como é belo,  meus filhos, ter um pai no Céu!... — Venha a nós o vosso reino!... Se eu fizer reinar Deus no meu coração, Ele me fará reinar consigo na sua glória. — Seja feita a vossa vontade!. . . Não há nada tão doce quanto fazer a vontade de Deus, e nada tão perfeito... Para fazer bem as coisas, é preciso fazê-las como Deus quer, em toda conformidade com os seus desígnios. — O pão nosso de cada dia nos dai hoje... Nós temos duas partes, a alma e o corpo. Pedimos a Deus que alimente o nosso pobre cadáver, e ele nos responde fazendo a terra produzir tudo quanto é necessário à nossa subsistência... Mas lhe pedimos que alimente a nossa alma, que é a mais bela parte de nós mesmos; e a terra é pequena demais para fornecer à nossa alma com que saciá-la; ela tem fome de Deus, e só Deus pode  enchê-la. Por isto  o  bom. Deus não julgou  fazer demais ficando na terra e tomando um corpo a fim de que esse corpo se tornasse  o alimento das nossas almas. "Minha carne, disse Nosso Senhor, é verdadeiramente comida... O pão que Eu vos vou dar é a 

Minha Carne para a vida do mundo". O pão das almas está no tabernáculo. O tabernáculo é o guarda-comida dos cristãos... Oh! Como é belo, meus filhos! Quando o sacerdote apresenta a hóstia e vo-la mostra, a vossa alma pode dizer: Eis a minha comida!... Ó meus filhos, nós temos felicidade demais!... Só no Céu o compreenderemos. Como é pena!

(Abbé A. Monnin, Espírito do Cura d’Ars NOS SEUS CATECISMOS, HOMILIAS E CONVERSAÇÃO

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