quinta-feira, 8 de outubro de 2015

Do amor a solidão do corpo - Santo Afonso de Ligório

      Todas as almas que amam a Deus, amam a solidão, porque lá o Senhor se lhes comunica mais familiarmente, achando-as mais livres e desembaraçadas das ocupações e afetos terrenos. — É por isso que S. Jerônimo exclamava: Ó feliz solidão, em que Deus fala e se comunica familiarmente, com grande amor e grande intimidade, com as almas de sua predileção!  Ele mesmo o disse: Eu a conduzirei à solidão e lhe falarei ao coração. Fala na solidão, e faz ouvir ao coração palavras que o inflamam de seu santo amor, como atestava a Esposa dos Cantares: A minha alma se liquefez, ao ouvir as palavras do meu Esposo. Narra Sto. Eucherio que certo homem, ansioso por se fazer santo, perguntou a um servo de Deus o que deveria fazer para encontrar o Senhor. O santo homem o conduziu a um deserto e lhe disse: Eis onde Deus se acha. Com isto quis significar-lhe que Deus se deixa encontrar, não no tumulto do mundo, mas na solidão.
 
  A virtude se conserva facilmente na solidão, mas se perde facilmente nas relações com o mundo, onde Deus é pouco conhecido, e onde, por conseguinte, pouco caso se faz do seu amor e dos bens que ele reserva às almas que renunciam tudo para lhe agradar. — S. Bernardo dizia que, em relação às coisas divinas, ele muito mais tinha aprendido entre as faias e os carvalhos na solidão, do que nos livros e com os mestres. É por isso que, para viver na solidão e longe dos tumultos do mundo, os santos tanto amaram as grutas, os serros e as selvas, como foi anunciado pelo profeta: A alegria reinará na terra deserto e sem caminho; e o júbilo na solidão, que florescerá como o lírio e dará frutos abundantes... lá hão de ver a glória do Senhor e beleza do nosso Deus. — A solidão será uma fonte perene de alegrias para as almas que a buscam, florescerá como o lírio pela pureza e inocência da sua vida, e produzirá frutos de todas as virtudes. Essas almas felizes serão em fim elevadas, para verem a glória de Deus e sua beleza infinita. — É certo que para manter o espírito unido a Deus, é preciso conservar presente a idéia de Deus e dos bens imensos que ele prepara a seus amigos.
    É verdade que o homem ama a sociedade; mas haverá mais bela do que a de Deus? De certo, não se experimenta nem pena nem enfado em afastar-se das criaturas para conversar a sós com o Criador. O sábio no-lo assegura, dizendo: Sua conversação não tem amargura, não se sente enfado em sua companhia, mas sim alegria e felicidade. — O Venerável Padre Vicente Carafa, Geral que foi da Companhia de Jesus, já alhures citado, dizia que nada desejava neste mundo, mas se houvesse de desejar alguma coisa, outra não anhelaria senão uma pequena gruta com um pedaço de pão e um livro espiritual para ai viver sempre em solidão.
      Não é verdade que a vida solitária seja uma vida triste, é um antegosto e um começo da vida dos bem-aventurados, que gozam de uma alegria imensa, ocupando-se unicamente em amar e louvar a Deus infinitamente amável. — S. Jerônimo, tendo deixado Roma e tendo se encerrado na gruta de Belém, para viver solitário, escrevia que naquela solidão tinha encontrado o paraíso. — Quando os santos vivem na solidão, parecem solitários, mas não estão sós. Dai, S. Bernardo dizia: Eu nunca estou menos só, do que quando me acho só. Queria dizer: Estou então acompanhado de Deus, que me alegra mais, do que se estivesse a conversar com todas as criaturas. Parecem tristes, mas estão contentes na solidão. O mundo, vendo os santos longe dos divertimentos terrenos, os julga infelizes e desconsolados, mas é puro engano. Eles gozam de uma paz imensa e contínua, como nos atesta o Apóstolo: Nós parecemos tristes, porém estamos sempre alegres. Isto já foi predito pelo profeta Isaías, nestes termos: O Senhor consolará Sião, alegrará suas ruínas; fará do seu deserto um lugar de delícias e de sua solidão um jardim de maravilhosa beleza, mansão do gozo e da alegria, onde ressoarão as ações de graça e cânticos de louvor. O Senhor saberá bem consolar a alma no retiro; e lhe recompensará generosamente todos os prazeres temporais, que houver perdido por seu amor; converterá sua solidão em jardim de delícias, onde haverá sempre contentamento e alegria, e onde só se ouvirão hinos de ações de graças e de louvores à sua divina bondade.
    Eis como o cardeal Petrucci canta a felicidade do coração solitário: “Parece triste, e de alta alegria é cheio. Pisa na terra e já vive no céu. Nada para si mesmo implora, porque imenso tesouro no seio encerra. Parece agitado e absorto entre as tempestades, e já está chegado ao porto”.
    Para achar esta feliz solidão, caríssimo irmão, não vos é necessário ir vos esconder numa gruta ou num deserto; mesmo no mosteiro, toda a vez que quiserdes, podeis encontrar a solidão que desejais. Assim a encontrou o rei Davi no meio dos grandes negócios do reino; é o que ele exprime nos termos seguintes: Eu fugi e me retire ao ermo, e permaneci na solidão. — O mesmo fez S. Filipe de Nery: como desejava retirar-se a um deserto, Deus lhe advertiu que não saísse de Roma, mas que ai vivesse como no ermo.
    Vivei pois solitário, diz S. Bernardo: retirai-vos, não com o corpo, mas com o espírito. Ainda quando estiverdes com vossos irmãos, nos trabalhos ou recreações comuns, procurai não sair da vossa solidão, isto é, estar sempre, o melhor que for possível, recolhido diante de Deus; e se não puderdes retirar-vos da conversação com o corpo, afastai-vos ao menos pelo afeto e pela intenção, ficando lá unicamente para fazer a vontade de Deus. — Assim, pois, quando fordes obrigado a tratar com criaturas, devereis proceder como um jovem habituado a ficar constantemente em um quarto fechado e isolado. Se é constrangido a sair à rua, ele não pode suportar o ar frio nem o barulho que ai sente, e trata logo de voltar para seu quarto o mais depressa possível.
     Quando as ocupações externas se prolongam demais, é muito difícil que uma pessoa não cometa algum defeito. — Os santos apóstolos, ainda quando trabalhavam na conversão dos pecadores, deviam, por ordem de Jesus Cristo, retirar-se, de quando em quando, a algum lugar solitário, para dar algum repouso ao espírito. Vinde, lhes dizia, o divino Mestre, retiremo-nos a um lugar deserto e repousai um pouco. Porque nas ocupações exteriores, embora espirituais, a alma cai sempre em algumas distrações, inquietações, resfriamentos de amor e imperfeições; o repouso lhe é sempre indispensável para reparar as faltas cometidas e restaurar as forças para melhor caminhar para o futuro. Não se deve, portanto, guardar sempre a solidão, mas se deve aproveitar sempre que for possível consegui-la; ou, ao menos, amá-la sempre, quando não se pode gozar, como escreve S. Lourenço Justiniano.


Santo Afonso de Ligório - A Verdadeira Esposa de Cristo.

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