terça-feira, 27 de outubro de 2015

MARIA FOI A RAINHA DOS MÁRTIRES POR CAUSA DA DURAÇÃO E INTENSIDADE DE SUAS DORES


Quem poderia ouvir sem comoção a história mais triste que jamais houve no mundo? Uma nobre e santa senhora tinha um único filho, o mais amável que se possa imaginar. Era inocente, virtuoso e belo. Ternamente retribuía o amor de sua mãe. Nunca lhe havia dado o mínimo desgosto, mas sempre lhe havia testemunhado todo respeito toda obediência, todo afeto. Nele, por isso, a mãe tinha posto todo o seu amor, aqui na terra. Ora, que aconteceu? Pela inveja de seus inimigos, foi esse filho acusado injustamente. O juiz reconheceu, é verdade, a inocência do acusado e proclamou-a publicamente. Mas, para não desgostar os acusadores, condenou-o a uma morte infame, como lhe haviam pedido. E a pobre mãe, para sua maior pena, teve de ver como aquele tão amante e amado filho lhe era barbaramente arrancado, na flor dos anos. Fizeram-no morrer diante de seus olhos maternos, à força de torturas e esvaído em sangue num patíbulo infamante. Que dizeis, piedoso leitor? Não vos excita à compaixão a história dessa aflita mãe? Já sabeis de quem estou falando? Esse Filho, tão cruelmente suplicado, foi Jesus, nosso amoroso Redentor. E essa Mãe foi a bem-aventurada Virgem Maria, que por nosso amor se resignou a vê-lo sacrificado à justiça divina pela crueldade dos homens. Portanto é digna de nossa piedade e gratidão essa dor imensa que Maria sofre por nosso amor. Mais lhe custou sofrê-la, do que suportar mil mortes. E se não podemos corresponder dignamente a tanto amor, demoremo-nos hoje, ao menos por algum tempo, na consideração de suas acerbíssimas dores.
Digo, por isso: Maria é Rainha dos mártires, porque as dores de seu martírio excederam às dos mártires 1.° em duração; 2. ° em intensidade. 
1. Maria é realmente uma mártir
 Jesus é chamado Rei das dores e Rei dos mártires, porque em sua vida mortal padeceu mais que todos os outros mártires. Assim também é Maria chamada com razão Rainha dos Mártires, visto ter suportado o maior martírio que se possa padecer depois das dores de seu Filho. Mártir dos mártires é por isso o nome que lhe dá Ricardo de S. Lourenço. E bem lhe pode aplicar o texto do profeta Isaías: Ele te há de coroar com uma coroa de amargura (22, 18). A coroa, com a qual foi constituída Rainha dos mártires, foi justamente sua dor tão acerba, que excedeu à de todos os mártires reunidos. É fora de dúvida o real martírio de Maria, como assaz o provam Dionísio Cartuxo, Pelbarto, Catarino e outros. Pois, conforme uma sentença incontestada, para ser mártir é suficiente sofrer uma dor capaz de dar a morte, ainda que em realidade se não venha a morrer. S. João Evangelista é reverenciado como mártir, não tenha embora morrido na caldeira de azeite fervendo, senão haja saído dela mais robustecido, como diz o Breviário. Para a glória do martírio, segundo Tomás, basta que uma pessoa leve a obediência ao ponto de oferecer-se à morte. Maria, no sentir do Abade Oger, foi mártir não pelas mãos dos algozes, mas sim pela acerba dor de sua alma. Se não lhe foi o corpo dilacerado pelos golpes do algoz, foi seu bendito coração transpassado pela Paixão de seu Filho. E essa dor foi suficiente para dar-lhe não uma, porém mil mortes. Vemos por aí que Maria não só foi verdadeiramente mártir, mas que seu martírio excedeu a todos os outros por sua duração. Pois que foi sua vida, senão um longo e lento martírio?
2. Duração do martírio de Maria 
Assim como a Paixão de Jesus começou com seu nascimento, diz S. Bernardo, também assim sofreu Maria o martírio durante toda a sua vida por ser em tudo semelhante ao Filho. Como observa S. Alberto Magno, o nome de Maria significa, entre outras coisas, amargura do mar. Aplica-lhe o Santo por isso o texto de Jeremias: Grande como o mar é a minha dor (Jr 2,13). Com efeito, é o mar amargo e salgado. Assim foi também toda a vida de Maria sempre cheia de amarguras, porque não lhe desaparecia do espírito a lembrança da Paixão do Redentor. Mais iluminada pelo Espírito Santo que todos os profetas, compreendia melhor do que eles as predições a respeito do Messias, registradas na Escritura. Está isso acima de toda e qualquer dúvida. Assim instruiu um anjo a S. Brígida, e ainda ajuntou que Nossa Senhora sentia terna compaixão com o inocente Salvador, mesmo antes de lhe ser Mãe. E tudo por causa do conhecimento que possuía sobre as dores a serem suportadas pelo Verbo Divino, para a salvação dos homens, e sobre a cruel morte que o aguardava em vista de nossos pecados. Já então começou portanto o padecimento de Maria. Mas sem medida tornou-se essa dor, desde o dia em que a Virgem ficou sendo Mãe de Jesus. Sofreu daí em diante um perene martírio, observa Roberto de Deutz, tendo em vista as dores que esperavam por seu Filho. É também o que significa a visão de S. Brígida, em Roma, na igreja de S. Maria. Aí lhe apareceu a Santíssima Virgem em companhia de S. Simeão, e de um anjo que trazia uma longa espada a gotejar sangue. Essa espada era um emblema da mui longa e acerba dor que dilacerou o coração de Maria, durante toda a sua vida. O supracitado abade põe nos lábios de Maria as seguintes palavras: Almas remidas, filhas diletas, não vos deveis compadecer de mim, só por aquela hora em que assisti à morte de meu amado Jesus. Pois a espada, prenunciada por Simeão, transpassou minha alma em todos os dias de minha vida. Quando eu aleitava meu Filho, o aconchegava ao colo, já contemplava a morte cruel que lhe estava reservada. Considerai por isso que áspera e intensa dor eu devia sofrer! Maria, pois, teve razão para dizer com Davi: A minha vida se consome na dor e os meus anos em gemidos (Sl 30,11). A minha dor está sempre ante os meus olhos (Sl 37,18). Passei toda a minha vida entre dores e lágrimas, porque a minha dor, que era a compaixão com meu Filho, nunca se apartava dos meus olhos. Eu estava sempre contemplando todos os seus tormentos e a morte que ele um dia havia de sofrer. Revelou a Divina Mãe a S. Brígida que, mesmo depois da morte e da ascensão de seu Filho ao céu, continuava viva e recente em seu materno coração a lembrança dos sofrimentos dele. Acompanhava a até nos trabalhos e nas refeições. Vulgato Taulero escreve, por isso, que a Virgem passou toda a sua vida em perpétua dor, carregando no coração luto e pesar. 
3. O tempo não mitigou os sofrimentos de Maria O tempo, que costuma mitigar a dor dos aflitos, não pôde aliviá-la em Maria. Aumentava-lhe, pelo contrário, a aflição. Crescendo, ia Jesus mostrando cada vez mais a sua beleza e amabilidade. Mas de outro lado ia também se avizinhando da morte. Com isso cada vez mais a dor por haver de perdê-lo apertava também o coração da Mãe. Tal como a rosa que cresce por entre espinhos, crescia a Mãe de Deus em anos no maior dos sofrimentos. E como crescem os espinhos à medida que a rosa desabrocha, cresceram também em Maria — rosa mística do Senhor — os penetrantes espinhos das aflições. Passemos agora à consideração da intensidade das dores de Nossa Senhora. 
(RETIRADO DO LIVRO: GLÓRIAS DE MARIA,Versão da 11ª edição italiana, última revista pelo autor, de acordo com a edição crítica dos PP. Krebs e Litz, C.Ss.R.)

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