terça-feira, 20 de outubro de 2015

Meditação - Fins da oração mental, por Santo Afonso de Ligório.

20/10/2015 - Terça-Feira - Fins da oração mental

     In meditatione mea exardescet ignis - Na minha meditação se acenderá o fogo. (Ps. 38,4)


      Para que façamos bem a oração menta e tiremos dela grande fruto para a alma, devemos fixar o fim pelo qual a queiramos fazer. Primeiro, devemos fazer oração para nos unir mais a Deus. O que nos une a Deus, não são tantos os bons pensamentos de espírito, como os atos de vontade, os santos afetos. E são estes afetos que se excitam na meditação; como sejam os afetos de humildade, de confiança, de desapego, de resignação e, sobretudo, os de amor e de arrependimento dos próprios pecados. Os atos de amor, diz Santa Teresa, conservam aceso no coração o fogo do santo amor.

     Em segundo lugar, devemos fazer a meditação afim de alcançarmos de Deus as graças necessárias para progredir no caminho da salvação, e especialmente afim de alcançarmos a luz divina para evitar os pecados e empregar os meios que nos conduzem a perfeição. O grande fruto da oração é excitar-nos a rogar graças, visto que, de ordinário, Deus não concede as graças senão ao que as pedir. Escreve São Gregório: Deus quer ser rogado, quer ser constrangido, quer ser vencido pela importunação. Notemos estas palavras: Vult quadam importunitate vinci - Quer ser vencido pela importunação. Para obtermos certas graças mais importantes, ás vezes não será bastante que as peçamos; devemos insistir, e com nossos pedidos obrigar Deus a no-las conceder. Verdade é que em todo o tempo o Senhor está pronto para nos atender; mas no tempo da meditação, quando estamos mais recolhidos a Deus, ele nos concede o  seu auxílio com mais liberalidade.
     O que sobretudo devemos pedir na oração é a perseverança e o santo amor. A perseverança não é uma única graça, senão uma corrente de graças, a qual deve corresponder a corrente de nossas orações. Se deixarmos de rezar, Deus deixará de nos dar o seu auxílio, e assim nos perdermos. O que não medita, dificilmente perseverará na graça de Deus até á morte. - Devemos rezar, e rezar muito, para obtermos de Deus o seu divino amor. Dizia São Francisco de Sales que o santo amor traz unidas consigo todas as virtudes: Venerunt autem mihi omnia bona pariter cum illa - Juntamente com ela vieram-me todos os bens,
     A oração não é senão um coloquio entre Deus e a alma. Esta lhe manifesta os seus afetos, os seus desejos, os seus temores, os seus pedidos; e Deus lhe fala ao coração, fazendo-lhe conhecer a sua bondade, o amor que lhe tem e o que a alma deve fazer para lhe agradar. D'onde resulta que não devemos ir á meditação para nela gozarmos consolações espirituais, mas principalmente para conhecermos o que Deus quer de nós. Digamos a Deus com Samuel: Loquere, Domine, quia audit servus tuus - Senhor, faze-me conhecer o que quereis de mim, que eu quero faze-lo.
     Alguns perseveram na oração, enquanto durem as consolações; mas, cessando estas, deixam a oração. Enganam-se, pois, saibamos bem, que em regra geral as almas santas sofrem aridez. Por isso escreve Santa Teresa: "O Senhor experimenta os que o amam com aridez e tentações. Mas por mais que dure a aridez, não deixe a alma de fazer oração; tempo virá em que tudo lhe será pago com abundância - O tempo de aridez é, portanto, o tempo de maior lucro. Humilhemo-nos e resignemo-nos; porque tal oração nos trará maior fruto do que qualquer outra. Se não pudermos fazer mais, basta que repitamos então: Meu Deus, misericórdia. Senhor ajudai-me, tende piedade de mim, não me abandoneis. Recorramos também a nossa consoladora, Maria Santíssima. Bem aventurado o que não deixa a oração no tempo de desolação! Deus o encherá de graças.
     Ah, meu Deus! Como posso pretender ser consolado por Vós, eu que mereci estar no inferno, separado de Vós para sempre e sem esperança de Vos poder ainda amar? Não em queixo, pois, meu Senhor, de que me privais das vossas consolações; não as mereço nem as exijo. Contento-me em saber que não me repelis a alma que Vos ama. Não me priveis de vosso amor e depois tratai-me como quiserdes. Se é vossa bondade que até minha morte e por toda eternidade eu esteja em aflição e desolação, fico satisfeito. Basta que deveras Vos possa dizer: Jesus, meu Deus, amo-Vos, amo-Vos, sobre todas as coisas - Maria, Mãe de Deus, tende piedade de mim.

Nenhum comentário:

Postar um comentário