sábado, 3 de outubro de 2015

Meditação - Maria Santíssima, modelo de vida solitária e recolhida, por Santo Afonso de Ligório.

 03/10/2015 - Sábado - Maria Santíssima, modelo de vida solitária e recolhida.


    Quae esta ista, quae ascendit de deserto... innixa super dilectum suum? - Quem é este que sobe do deserto... firmada sobre o seu amado? (Cant. 8,5)

     No tempo do dilúvio, o corvo mandado por Noé fora da arca, ficou a comer os cadáveres; mas a pomba, sem pousar em parte alguma, voltou prestes ao ponto de onde partira. Assim, muitos, mandados por Deus a este mundo, se detem infelizmente a gozar dos bens terrestres. Não assim a nossa pomba celeste, Maria. Conheceu que o nosso único bem, a nossa única esperança deve ser Deus; conheceu que o mundo é cheio de perigos, e que aquele que mais cedo o deixa é mais livre dos seus laços. Por esta razão, como afirmam São Germano e Santo Epifanio, a Santíssima Virgem, apenas chegada a idade de três anos, idade em que as crianças desejam mais vivamente a convivência de seus pais, foi encerrar-se no templo, onde melhor pudesse ouvir a voz de seu Deus, e melhor honra-lo e ama-lo.
    Diz Santo Anselmo que, enquanto a Bem Aventurada virgem vivia no tempo, "era dócil, falava pouco, estava sempre recolhida, sempre séria e sem se perturbar. Era, além disso, constante na oração, na leitura Sagrada Escritura, nos jejuns e em todas as obras de virtude." Era tão amante do silêncio, que, como ela mesma revelou a Santa Brígida, se abstinha de falar até com os próprios pais.

    Não são menos belos os exemplos de recolhimento que a Virgem nos deu, depois de se desposar com o castíssimo São José. Conforme diz São Vicente Ferrer: "Maria não saia de casa senão para ir ao tempo; e mesmo então ia toda recolhida e com os olhos baixos." Eis porque São Lucas observa que na visita a Santa Isabel: Abiit in montana tum festinatione - Ela foi com presteza às montanhas, para menos ser vista em público e fugir o mais possível da sociedade dos homens.
    Se Maria foi tão amante da solidão quando menina e tenra donzela, imagina a que grau de recolhimento e de união com Deus deve ela ter chegado quando, já Mãe de Deus, teve a grande ventura de viver trinta e três anos e de conversar familiarmente com Jesus Cristo. Tinham, pois, os anjos razão para, no dia da Assunção da Virgem ao Céu, perguntarem: Quem é esta que sobe do deserto? Sim, porque Maria viveu sempre em solidão neste mundo, como num deserto.
     Se aspiras a honra de ser filho verdadeiro de Maria Santíssima, deves aplicar-te com todo o cuidado a sua imitação levando vida retirada e recolhida. Imagina, portanto, que a divina Mãe te diz o que o anjo disse um dia a Santo Arsenio: Fuge, tace quiesce - Foge, cala-te e descansa.
    Foge: segundo teu estado, retira-te a solidão ao menos pela vontade, evitando as conversações inúteis, mormente com pessoas de sexo diferente. Cala-te: Ama o silêncio, que é chamado a gaura da inocência, a defesa nas tentações e a fonte da oração. Descansa: Repousa em Deus pelo exercício da presença divina; porque, como Deus mesmo disse a Abraão, estre exercício é o caminho mais cruto para chegar as alturas da perfeição: Ambula coram me, et esto perfectus - Anda em minha presença e sê perfeito.
     Para imitares assim a vida solitária de Maria Santíssima, não é preciso que te escondas em alguma gruta ou no deserto; tampouco que deixes as ocupações do teu estado; porquanto é mais meritório trabalhar para Deus, do que descansar para pensar em Deus. É todavia necessário que faças cada dia alguma, ainda que breve, meditação. E como a Bem Aventurada Virgem conservava todas as palavras de Jesus Cristo em seu coração, comparando-as umas ás outras, faze tu também dos bons pensamentos, havidos na meditação, um ramilhete de flores, afim de refrescar durante o dia o espírito pela sua recordação.
    É utilíssimo sobretudo o uso das orações jaculatórias, que se podem fazer em qualquer parte, tempo e ocupação. Delas diz São Francisco de Sales que suprem a falta de todas as outras orações mas todas as outras orações não poderiam suprir a falta delas. - Ó Virgem Santíssima, obtende-nos o amor a oração e a solidão, afim de que, afastando de nós o amor as criaturas, só possamos aspirara a Deus e ao paraíso, onde esperamos ver-vos um dia para convosco louvar e amar para sempre a vosso filho Jesus, por todos os séculos dos séculos.

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