sexta-feira, 2 de outubro de 2015

Meditação - Primeira palavra de Cristo na Cruz, por Santo Afonso de Ligório

 02/09/2015 - Sexta-Feira - Primeira palavra de Jesus Cristo na Cruz.

    Pater, dimitte illis: non enim sciunt quid faciunt  - Pai, perdoa-lhes; pois não sabem o que fazem. (Luc. 23,34)

    Ó ternura do amor de Jesus Cristo para com os homens! Os judeus, depois de o pregarem na cruz, injuriam-no, insultam-no e prorrompem em blasfêmias; e Jesus, entretanto, que faz? Jesus, diz Santo Agostinho, não cuida tanto nos ultrajes que recebe da parte daquele povo, como no amor que o faz morrer para o salvar; e por isso, ao mesmo tempo que é injuriado pelos seus inimigos, volve-se ao Eterno Pai, pede perdão para eles, e procura desculpar o crime nefando pela ignorância: Pai, perdoa-lhes; porque não sabem o que fazem.
    "Ó maravilha!" exclama São Bernardo; "Jesus Cristo pede perdão, e os judeus gritam crucifige - crucifica-o." E São Cipriano acrescente: Vivificatur Christi sanguine qui effudit sanguinem Christi - Recebem a vida pelo sangue de Cristo, aqueles mesmos que derramaram o sangue de Cristo." Na sua morte tinha o Senhor tamanho desejo de salvar a todos, que não deixa de fazer participar dos méritos de seu sangue queles mesmo que lho extraem das veias a força de tormentos. Numa palavra, como diz Arnoldo de Chartres, ao passo que os judeus trabalham para se condenarem, Jesus Cristo se empenha em os salvar.

      E não ficaram improficuos os seus empenhos; pelo que, sendo mais poderosa para com Deus a caridade do Filho, do que a cegueira daquele povo ingrato, a oração de Nosso Senhor moribundo fez, como escreve São Jeronimo, que no mesmo tempo muitos judeus abraçassem a fé; e, na opinião de São Leão, os milhares de judeus que se converteram pela pregação de São Pedro, foram o fruto da oração de Jesus Cristo.
     Mas dirá alguém: Porque é que Jesus rogou ao Pai que lhes perdoasse, já que ele mesmo lhes podia perdoar as injúrias? Responde São Bernardo que assim nos quis ensinar a orar pelos que nos perseguem. Por isso Santo Agostinho conclui: "Cristão, olha o teu Deus pendurado na cruz; ouve como roga pelos que o crucificaram, e depois atreve-te a recusar o perdão ao irmão que te ofendeu."
    Cada vez que o pecador peca gravemente, diz São Paulo, pelo que depende dele calca aos pés o Filho de Deus, profana e despreza o seu sangue, e chega a renovar a sua paixão e morte: Rursum crucifigentes sibimet ipsis Filium Dei - Outra vez crucificaram Jesus Cristo para si próprios - Naquela oração que Jesus Cristo fez por seus crucificadores, abrangeu o Senhor, pela sua divina providência, todos os pecadores e a nós particularmente. Eis porque podemos confiadamente dirigir-nos a Deus e dizer-lhe: Pater, dimitte! - Pai, perdoai-me!
    Ó Pai Eterno, escutai a voz do seu amado Filho, que Vos pede que me perdoeis. É verdade que o perdão é a obra de misericórdia para conosco, visto que não o merecemos; mas é obra de justiça para com Jesus Cristo, que satisfez superabundantemente pelos nossos pecados. Em vista de seus merecimentos não podeis deixar de nos perdoar e de receber em vossa graça aquele que se arrepende das ofendas que Vos fez. Meu Pai, arrependo-me de todo o meu coração, e antes quisera ter morrido mil vezes do que Vos ter ofendido.
    Meu Deus, não quer ser obstinado como os judeus; quero mudar de vida; em compensação das ofensas que Vos fiz, quero, para o futuro, amar-Vos com mais fervor; e pelos merecimentos de Jesus Cristo peço-Vos a graça de executar esta minha resolução. - Ó Maria, minha Mãe, sabeis que sou um pobre enfermo, perdido por causa de meus pecados; mas vosso Filho desceu do céu a terra expressamente para se fazer homem em vosso seio, e assim vos fez Rainha de misericórdia e refúgio dos desesperados, para curar os enfermos e salvar os que estavam perdidos, desde que se arrependam de seus pecados. Curai-me, pois, e salvai-me pela vossa intercessão.

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