sexta-feira, 16 de outubro de 2015

Meditação - Quarta palavra de Jesus Cristo na Cruz, por Santo Afonso Maria de Ligório.

16/10/2015 - Sexta-Feira - Quarta palavra de Jesus Cristo na cruz.

   Et circa horam nonam clamavit Iesus voce magna diens: Deus meus, Deus meus, ut quid dereliquisti me? - E perto da hora nona deu Jesus um grande brado, dizendo: Deus meu, Deus meu, porque me desamparaste? (Mat. 27,46)

    Escreve São Leão, que aquele brado do Senhor não foi uma queixa, mas um ensina: Vox ista doctrina est, non querela. Ensino, pelo qual Jesus nos quis mostrar quão grande é a malícia do pecado, que, por assim dizer, obrigou Deus a entregar a uma pena sem alívio seu Filho amadíssimo, unicamente por se ter este encarregado de satisfazer pelos nossos crimes. - Jesus não foi então abandonado pela divindade, nem privado da glória, que fora comunicada a sua alma bendita desde o primeiro instante de sua criação; foi, porém, privado de o consolo sensível com que Deus costuma confortar os seus servos fiéis, no meio de seus sofrimentos, e foi entregue as trevas, a temores e amarguras, penas essas por nós merecidas. No horto do Getsemani Jesus sofreu igual privação da presença sensível da divindade;mas a que sofreu na cruz foi mais completa e mais amargosa.

    Mas, ó Pai Eterno, que desgosto Vos deu jamais o vosso Filho inocente e obedientissimo, para o punirdes com uma morte tão amargosa? Vede como está pregado no lenho, a cabeça atormentada pelos espinhos, como está suspenso em três pregos de ferro, apoiando-se nas mesmas chagas. Abandonaram-no todos, mesmo os seus discípulos; todos ao redor o escarnecem e blasfemam contra ele; porque é que vós, que tanto o amais, o haveis também abandonado?
    Lembremo-nos que Jesus se tinha encarregado dos pecados de todos os homens. Por isso, muito embora fosse Jesus, quanto á sua pessoa, o mais santo de todos os homens, ou antes a santidade mesma, todavia pelo ônus assumido de satisfazer por todos os pecados, parecia ser o maior pecador do mundo, como tal se fizera réu em lugar de todos, e se oferecera a pagar por todos. E já que nós merecíamos ser abandonados eternamente no inferno, entregues a desesperação eterna, Jesus quis ser entregue a uma morte sem consolação alguma, afim de nos livrar assim da morte eterna.
     Demos graças a bondade do nosso Salvador, por ter tomado sobre si as penas por nós merecidas, afim de nos librar assim da morte eterna. Procuremos ser doravante gratos ao nosso libertador, expelindo de nosso coração todo afeto que não seja para ele. Quando estivermos em desconsolação espiritual, privados da presença sensível da divindade, unamos a nossa desolação a que padeceu Jesus na hora da sua morte. - O Senhor não ficará ofendido, se nesse desamparo dissermos o que ele mesmo no Horto disse a seu Pai divino: "Pai meu, se é possível, passe de mim este cálice." ; mas devemos logo acrescentar como ele "Todavia não eja como eu quero, mas sim como tu."
    Se a desolação continuar, devemos repetir o mesmo ato de conformidade, assim como Jesus o repetiu durante as três horas de sua oração no Horto: Et oravit tertio, eundem sermonem dicens - Orou pela terceira vez dizendo as mesmas palavras. Diz São Francisco de Sales, que Jesus é igualmente amável, quando se deixa ver como quando se escode. - Pelo mais, o que mereceu o inferno e se vê fora dele, sempre deve dizer: Benedicam Dominum in omni tempore. - Bendirei o Senhor em todo o tempo. Senhor, não mereço consolações; fazei com que Vos ame sempre, e estou contente por viver em desolação por todo o tempo que Vos aprouver. Ah! Se os réprobos pudessem em suas penas conformar-se assim com a vontade divina, o inferno deixaria de ser inferno.
     Ó meu Jesus, pelos merecimentos de vossa morte, rogo-Vos não me desampareis no grande combate que na hora da morte terei de sustentar contra o inferno. Então todos me abandonarão e não poderão mais valer; Vós porém não me abandoneis, Vós que morrestes por meu amor e só me podereis socorrer neste momento supremo. Fazei-o pelo merecimento da pena que sofrestes no vosso desamparo, pelo qual nos merecestes não sejamos desamparados pela divina graça, conforme os nossos pecados tinham merecido. Fazei-o também pela dor que então sentiu vossa e minha amada Mãe, Maria.
   

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