sexta-feira, 30 de outubro de 2015

Não desanimemos por causa dos nossos pecados, São Francisco de Sales.

     Um piedoso eclesiástico estava a fazer o seu retiro sob a direção do Padre Rothaan. No meio dos santos exercícios, o ilustre jesuíta foi subitamente chamado a Roma, onde, logo depois, devia ser eleito Geral da sua Companhia. Tinha-se já despedido dos seus irmãos e posto a caminho quando, retrocedendo dum golpe, entra no quarto daquele exercitante, e diz-lhe: "Senhor padre, ia-me esquecendo duma recomendação de suma importância: suceda-vos o que sempre suceder, não desanimeis nunca!"
    Palavra de ouro! A quantas almas seria necessário dizê-la e torná-la a dizer! São João Crisóstomo não se cansava de repetir: "Não desespereis! Dir-vo-lo-ei em todos os meus discursos, em cada uma das nossas entrevistas, e, se me escutardes, ficareis curados! ... Tem a nossa salvação dois inimigos mortais: a presunção na inocência e a desesperação depois da queda; mas este último é o mais terrível."
    Com efeito, "é pela esperança que nós somos salvos" (Rom. 8,24). À semelhança duma forte cadeia que desce do Céu e prende as almas, assim é a esperança. Quando as almas se prendem firmemente a ela, atrai-as pouco a pouco a sublimes alturas e as subtrai aos vendavais da vida presente. Mas a alma que, vencida pelo desânimo, larga esta âncora santa, cai logo e perece, submergida no abismo do mal.
     Não o ignora o pérfido adversário das almas. Desde que nos vê alquebrados sob o peso do sentimento das nossas culpas, precipita-se sobre nós e arremessa aos nossos corações pensamentos desesperadores, mais pesados ainda que o chumbo e, se o acolhemos, arrasta-nos o seu peso, foge-nos a cadeia tutelar e rolamos ao fundo do abismo.

Dupla tática do demônio

     Ai! Quanto a experiência confirma a verdade destas últimas palavras! Vem do desânimo a imensa maioria das quedas não reparadas, que deram escândalo a Igreja, e a maior parte daqueles que só os anjos da paz conhecem e pranteiam. Se, em vez de desespero, tivesse havido uma arrependimento esperançoso, nada estaria perdido. Insinuando-se na alma perturbada por uma queda, que muitas vezes foi apenas uma surpresa, este demônio do desespero, à custa de mil argumentos, cada qual mais desanimador, acaba por lançar na alma o pensamento esmagador de Caim: "É grande demais a minha iniquidade para que eu possa merecer perdão." (Gn. 4,13)
     Desde esse momento, no dizer de São Paulo, assenhora-se desta alma o príncipe das trevas: dirige-a, impele-a, precipita-a onde bem quer: "Operatur in filios diffidentiae" (Ef. 2,2). E a razão é porque lhe comunica duas das mais diabólicas disposições: a aversão a Deus pelo pecado e o receio de Deus pelo desânimo. E Deus nos livre de crer que esta tentação só vem depois de faltas graves. Dela faz o espírito da mentira uma arma tanto mais terrível quanto mais habilmente dissimulada, para combater as almas virtuosas após as mais ligeiras quedas; e se não logra arrastá-las ao abismo dum desespero completo, paralisa-as pelo menos no caminho do bem, desconcerta-as, distende-lhes os seus mais fortes laços, e fá-las em breve decair do seu fervor para as mergulhar na melancolia e no relaxamento. Vem tudo à carga; já não se cuida mais em reparar as faltas, e daí nasce uma verdadeira tibieza, com seus estragos quase irreparáveis.
     As nossas faltas, sobretudo as de nossos dias, fornecem a Satanás um meio fácil de conseguir tal resultado, e, se é na guerra contra a esperança que o espírito infernal mais lida por transfroma-se em anjo de luz (2 Cor. 11,14). fácil lhe é representar este papel, contrapondo as nossas infidelidades sem número às incessantes solicitações da graça, as nossas ingratidões aos benefícios de Deus, as nossas defecções às resoluções tomadas.
     Não é de justiça, exclama a alma no extremo do seu desânimo, que Deus esteja cansado e se tenha esgotado a fonte de graças de que não fiz senão abusar?! Deus abandona-me; tem todo direito e razão. É tempo de renunciar a uma empresa que as minhas repetidas quedas patentearam ser superior às minhas forças. Tive demasiada presunção a respeito da bondade de Deus e do que eu podia fazer. De que serve consumir-me em estéreis esforços para prosseguir todos os dias, sem nunca atingir o fim, na conquista dua santidade a que não posso chegar?
    A experiência está feita. Levou-me ela à evidência do que para as minhas forças são demasiado altas estas sumidades. Para que estarei sempre a formar novas resoluções: quandim ponam consilia in anima mea, para afinal ter a dor de faltar a elas no decorrer do dia: dolorem in corde meo per diem, e encher de alegria o inimigo por muitas quedas; usquequo exaltabitur inimicus meus super me? (Sl 12,2-3)
    Não é tanto pelas tuas faltas, ó alma desalentada, que teu inimigo exulta de prazer, mas sim por causa do abatimento que te deixas cair depois e da desconfiança que elas te inspiram para com a misericórdia divina. 
     "Eis o maior mal que a uma criatura pode suceder, diz o ven. Padre Cláudio de la Colombière. Quando se pode evitar este mal, nenhum há que não possa converter-se em bem e ter facilmente grandes vantagens..."
      Nada vale o mal que fazeis, em comparação do mal que vos causa a desconfiança. Confiai, pois, até o fim, ordeno-vos com todo o poder que me delegastes sobre vós. Se me obedecerdes neste ponto, eu respondo pela vossa conversão.



Retirado do Livro: A Arte da Aproveitar as Próprias Faltas, de São Francisco de Sales.

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