terça-feira, 27 de outubro de 2015

Necessidade da pureza no padre e Malícia do pecado de impureza no padre


A incontinência é chamada por Basílio de Seleucia uma peste viva, e por S. Bernardino de Sena, o mais funesto de todos os vícios; e isso porque, como diz S. Boaventura, a impudicícia destrói o germe de todas as virtudes. Por isso Sto. Ambrósio lhe chama a origem e mãe de todos os vícios. De fato, este vício arrasta consigo todos os crimes: ódios, roubos, sacrilégios etc. S. Remígio teve pois razão em dizer que por causa deste vício, poucos adultos se salvam. E lê-se no Pe. Paulo Segneri que assim como o orgulho encheu o inferno de anjos rebeldes, assim a impudicícia o enche de homens. Nos outros vícios pesca o demônio ao anzol; neste é à rede, de modo que enche mais o inferno com esta paixão, do que com todas as outras. Assim, para punir a incontinência, há Deus enviado à terra os flagelos mais espantosos: dilúvios de água e de fogo! Segundo Sto. Atanásio, é a castidade uma pérola mui preciosa, mas poucas pessoas cá na terra sabem encontrá-la. Ora, se esta pérola convém aos seculares, é absolutamente necessária aos padres. Entre todas as virtudes que o Apóstolo prescreve a Timóteo, recomenda-lhe em especial a castidade. Orígenes diz que é a primeira virtude que deve adornar o padre, quando sobe ao altar. E, segundo S. Clemente de Alexandria, nesta vida, somente são e se podem com verdade dizer sacerdotes os de vida pura. Se pois a pureza faz o padre, a impureza dalgum modo o há de despojar da sua dignidade, diz Sto. Isidoro de Pelusa.
Eis a razão por que a santa Igreja, em tantos concílios, em tantas leis e advertências, sempre se tem mostrado ciosa de conservar a castidade nos padres. Inocêncio III publicou o seguinte decreto: “Ninguém seja admitido a uma Ordem sacra, desde que não seja virgem ou duma castidade provada; = Nemo ad sacrum Ordinem permittatur accedere, nisi aut virgo aut probatae castitatis existat (Cap. a multis. De aet. et qual. ord.). E ao mesmo tempo ordenou que os eclesiásticos incontinentes fossem excluídos — ab omnium graduum dignitate. Outro decreto é de S. Gregório: “Se alguém se manchar com um pecado carnal, depois de receber alguma Ordem sacra, seja excluído das funções da sua Ordem, e não seja mais admitido a servir ao altar”. Além disto, condenou todo o sacerdote réu dum pecado vergonhoso, a dez anos de penitência: durante os três primeiros meses devia dormir no chão duro, viver na solidão, sem nenhuma comunicação com os homens, e privado da sagrada comunhão; depois, durante ano e meio, devia sustenta-se a pão e água; nos anos seguintes, devia continuar o jejum a pão e água, mas só três dias na semana. Em suma, a Igreja olha como monstros os padres que não têm uma vida casta.

Malícia do pecado de impureza no padre

Examinemos primeiro a malícia do pecado dum padre contra a castidade. O padre é o templo de Deus, tanto pelo voto de castidade que fez, como pela unção santa que o consagrou a Deus. Assim fala S. Paulo de si próprio e dos outros sacerdotes, associados ao seu ministério; o que faz dizer ao cardeal Hugues: Acautele-se o padre de manchar o santuário de Deus, porque ele foi ungido com óleo sagrado. O corpo do padre é pois esse santuário do Senhor. Conservai-vos casto, escrevia Sto. Inácio mártir, como casa de Deus e templo de Jesus Cristo. Por isso S. Pedro Damião diz que os padres, manchando o seu corpo com ações desonestas, profanam o templo de Deus. Depois ajunta: “Não demudeis os vasos consagrados a Deus, em vasos de desprezo”. Que se diria se alguém se servisse, à mesa para beber, dum cálice consagrado? Dirigindo-se aos padres, diz Inocêncio II: Visto que eles devem ser santuário de Espírito Santo, que indignidade vê-los escravos da impureza! Que horror ver manchado com as ignomínias dos pecados carnais um padre, que por toda a parte devia difundir, a par duma vida luz, o doce odor da pureza: vê-lo imundo e pestilento! Foi o que fez dizer a Clemente de Alexandria que os padres impudicos, quanto lhes é possível, mancham o próprio Deus, que habita na sua alma. E disso se lamenta o Senhor: Os sacerdotes calcaram aos pés a minha lei e profanaram os meus santuários, e Eu era manchado no meio deles. Pois que, exclama Ele! Vejo-me desonrado pela incontinência dos meus padres, porque, faltando à castidade, profanam os meus santuários, isto é, os seus corpos, que eu consagrei ao meu culto, e onde venho muitas vezes fazer a minha morada! Foi também o que fez compreender S. Jerônimo nestas palavras: “Manchamos o corpo de Cristo, quando nos aproximamos indignamente do altar”. Além disto, o padre imola a Deus sobre o altar o Cordeiro sem mancha, o Filho do próprio Deus; por este motivo ainda, diz S. Jerônimo, deve ser de tal modo casto, que se abstenha não só de toda a ação desonesta, mas até do menor olhar pouco honesto. S. João Crisóstomo ensina igualmente que o padre deve ser muito puro, para tomar lugar no Céu entre os Anjos. Noutra parte acrescenta que a mão do padre, que há de tocar a carne de Jesus Cristo, deveria resplandecer em pureza mais que o sol.
 Onde se poderia encontrar, pergunta Sto. Agostinho, um homem bastante ímpio que se atrevesse a tocar o Sacramento do altar com as mãos cheias de imundícia? Mas há ainda uma coisa muito mais horrível, — é que os padres ousem subir ao altar e tocar o corpo de Jesus Cristo, depois de se terem manchado com pecados obscenos, como diz S. Bernardo. Ai, padres do Senhor, exclama Sto. Agostinho! Tomai cuidado para que essas mãos que se banham no sangue do Redentor, derramado outrora por vosso amor, não venham a manchar-se no sangue sacrílego do pecado Demais, Cassiano observa que os padres não devem somente tocar a carne do Cordeiro sagrado, mas alimentar-se dela, o que os obriga a uma pureza mais que angélica. Segundo Pedro Comestor, quando o padre pronuncia, com os lábios manchados do vício vergonhoso, as palavras da consagração, é como se escarrasse no rosto do Salvador; e quando mete na sua boca impura o Corpo sagrado e o Sangue precioso, é como se os lançasse na lama. Mais ainda, diz S. Vicente Ferrer, esse desgraçado comete crime mais horrível do que se lançasse uma hóstia consagrada numa sentina. Ó Padre! Exclama aqui S. Pedro Damião, vós que deveis sacrificar a Deus o Cordeiro sem mancha, não vades antes imolar-vos ao demônio por vossas impurezas! O mesmo santo chama aos padres impudicos vítimas do demônio, vítimas de que o inimigo das almas faz as suas delícias no inferno. É necessário ajuntar que o padre impuro não se perde só; arrasta consigo muitos outros. Segundo S. Bernardo, a incontinência dos eclesiásticos é a perseguição mais funesta que a Igreja sofre. Sobre estas palavras de Ezequias — eis que no seio da paz a minha amargura é amaríssima — escreve ele gemendo: Foi a dor da Igreja amarga na morte dos mártires, mais amarga na guerra, que lhe moveram os hereges, amaríssima na corrupção dos seus membros. Está em paz a Igreja, e não tem paz: está em paz da parte dos pagãos, em paz do lado dos hereges, mas não por certo da parte dos seus filhos. Os filhos dilaceram as entranhas da sua mãe. Na verdade a Igreja sofreu cruelmente da parte dos tiranos, que pelo martírio lhe arrebataram tantos fiéis; depois sofreu ainda mais cruelmente da parte dos hereges, que com o veneno do erro inficionaram muitos dos seus súditos; mas o seu maior sofrimento, a sua maior perseguição é a que lhe advém dos seus filhos, desses eclesiásticos indignos, que por seus escândalos dilaceram as entranhas maternais! — Que vergonha, exclama também S. Pedro Damião, ver escravo da luxúria aquele que devia pregar a castidade!

Nenhum comentário:

Postar um comentário