quinta-feira, 29 de outubro de 2015

O Comunismo - G.K. Chesterton

É comumente notado, e em geral de forma suficientemente verdadeira, que o Bolchevismo está necessariamente ligado ao ateísmo. Não é tão percebido, talvez, que o ateísmo está agora sob uma crescente necessidade de se ligar ao Bolchevismo. Pois o Bolchevismo é ao menos em parte positivo, mesmo que seja grandemente destrutivo. E a história da noção puramente negativa de ataque abstrato à religião, tem sido a esse respeito uma história realmente curiosa. Tomada como um todo, de fato ela é ao mesmo tempo melancólica e cômica. Aqueles que nos tempos modernos tentaram destruir a religião popular, ou uma fé tradicional, sempre sentiram a necessidade de oferecer algo sólido como substituto. A parte estranha disso é que eles ofereceram cerca de uma dúzia de coisas totalmente diferentes; algumas delas completamente contraditórias; de modo que as promessas variaram perpetuamente e apenas a ameaçadora negativa permaneceu a mesma.
Logo antes da Revolução Francesa, entre os primeiros filósofos do século XVIII, geralmente assumia-se que a Liberdade não era meramente uma coisa boa, mas a própria e única origem de todas as coisas boas. O homem vivendo de acordo com a Natureza, o Homem Natural ou o Bom Selvagem, se encontraria imediatamente livre e feliz desde que nunca fosse à igreja, e tivesse o cuidado de cortar o padre da paróquia na rua. Esses filósofos descobriram cedo o que o pároco poderia ter dito a eles no começo, que é na verdade mais difícil ser um animal feliz do que ser um homem feliz. De fato, um homem não pode ser um animal pelo mesmo motivo que ele não pode ser um animal; porque ele é um homem. Mas por algum tempo os filósofos que não acreditavam em Deus, a quem eles consideravam um mito, acabaram acreditando na Natureza sem perceber que ela é uma metáfora. E eles garantiram àqueles que eles persuadiram a queimar igrejas, que depois disso eles seriam eternamente felizes em seus campos e jardins.
Então após a revolução política veio a revolução industrial; e com ela uma enorme importância ligada à ciência. O amigável ateu voltou para as pessoas, sorriu para elas, tossiu de lado, e explicou que ainda era necessário queimar igrejas, mas que um pequeno erro havia sido cometido sobre o contraditórias; de modo que as promessas variaram substituto das igrejas. A segunda filosofia ateísta foi fundada não no fato de que a Natureza é gentil, mas no fato de que a Natureza é cruel; não de que campos são livres e belos, mas de que o homem científico e os industrialistas são tão enérgicos que logo eles cobrirão todos os campos com fábricas e armazéns. Agora havia um novo substituto para Deus; que era o gás, o carvão, o ferro e o privilégio de girar rodas para transformar essas substâncias. Era agora positivamente afirmado que a liberdade econômica, a liberdade de comprar e vender e contratar e explorar, faria as pessoas tão abençoadamente felizes que elas esqueceriam todos os seus sonhos sobre os campos do céu; ou nesse caso sobre os campos da terra. E de alguma forma isso também foi um pouco decepcionante.
Dois Paraísos Terrenos desmoronaram. O primeiro foi o paraíso natural de Rousseau; o segundo o paraíso econômico de Ricardo. O homem não se tornou perfeito tendo sido livre para viver e amar; o homem não se tornou perfeito tendo sido livre para comprar e vender. Obviamente era hora de os ateus encontrarem um terceiro imediato e inevitável ideal. Eles o encontraram no Comunismo. E não os preocupa que seja bem diferente do primeiro ideal e bastante contrário ao segundo. Tudo que eles querem é um suposto aperfeiçoamento da humanidade que será um suborno para privar a humanidade da divindade. Leia as entrelinhas de meia centena de livros novos – esboços de ciência popular e publicações educacionais sobre história e filosofia – e você verá que o único sentimento fundamental neles é o ódio pela religião. A única coisa positiva é negativa. Mas eles são forçados mais e mais a idealizar o Bolchevismo, simplesmente porque é a única coisa que sobrou que ainda é nova o suficiente para ser oferecida como uma esperança, quando cada uma das esperanças revolucionárias que eles mesmos ofereceram se tornaram, cada uma em sua vez, desesperadas.
Disponível no livro de ensaios ‘The Common Man (1950)’, capítulo “God and goods”.
Tradução: Vinicius Oliveira

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