terça-feira, 20 de outubro de 2015

Pedras e sangue


Na primavera o sangue circula com maior velocidade
e os meninos com frequência sentem vontade de brigar.
Assim acontecia também na escola de Domingos. De vez
em quando desafios cruzavam-se nos ares: “Apareça hoje,
se for homem!”. “Vamos resolver o assunto lá fora!”. Assim
que se viam fora da escola, jogavam os livros no chão e
brigavam furiosamente, chegando em casa sujos e com
a roupa rasgada. Então eles recebiam dos próprios pais o
resto da surra.

Um dia, porém, a coisa foi mais feia. Dois briguentos
começaram a encarar-se ameaçadoramente e a trocar
insultos. Um deles teve a triste ideia de ofender a família
do companheiro. O outro, enfurecido, retrucou com
xingos. Ajustaram então um duelo de verdade. O mais
impressionante foi que os dois rivais não se atacaram nesse
momento de fúria: a raiva era profunda e fria; queriam
mesmo ferir-se. Para tanto, decidiram encontrar-se longe
de qualquer assistência, num prado perto da Cittadella.
Seria um duelo a pedradas.
Alguns souberam da coisa, mas os dois ameaçaram:
– Se alguém falar, a primeira cabeça quebrada será a
dele, e não estamos brincando.
O caso chegou aos ouvidos de Domingos. Os duelistas
não eram do Oratório, caso contrário Domingos avisaria
Dom Bosco: não teria medo de fazê-lo, porque isso não
o transformaria em inimigo nem o faria bancar o dedoduro.
Queria apenas impedir que alguém se machucasse
gravemente. Enquanto os outros “lavavam as mãos” (por
covardia, claro), Domingos procurou os adversários, quis conversar com eles, disse-lhes com toda clareza que estavam
ofendendo gravemente a Deus. Tudo em vão. Então
Domingos escreveu para cada um deles um bilhete: se
teimassem em fazer semelhante tolice avisaria o professor
e os pais. Os dois enfi aram os bilhetes no bolso, e nem as
aulas terminaram dirigiram-se para os prados da Cittadella.
Estavam escoltados por “amigos”, que em vez de ajudar
atiçavam os dois ainda mais, só para “apreciar o espetáculo”.
Cada um catou cinco pedras e escolheram o juiz do
duelo. Foram para as extremidades de um prado, mediram
20 passos de distância.
Durante esses preparativos alguém foi chamar Domingos:
– Vai começar o duelo! Venha!
Domingos correu, abriu caminho, entrou no espaço
livre entre os adversários.
– Saia daqui! – gritou um deles, empunhando a primeira
pedra. – Tenho que acertar contas com aquele covarde. E
não adianta falar nada!
Domingos encarou-o tristonho. O que fazer? Um raio
iluminou-lhe a mente. Tomou o pequeno crucifixo que
trazia ao pescoço e correu ao encontro do que estava mais
perto:
– Olha o crucifixo! E agora se tem coragem, repita:
“Jesus morreu perdoando seus algozes. Mas eu não quero
perdoar, quero vingar-me até o fi m”.
O rapaz olhou para ele e rosnou:
– E eu com isso?
Domingos andou os 20 passos que o separavam do outro
e repetiu-lhe com o mesmo tom de comando: – Olha o crucifixo! E agora se tem coragem, repita:
“Jesus morreu perdoando seus algozes. Mas eu não quero
perdoar, quero vingar-me até o fi m”.
 Era um bom rapaz este outro menino e ficou impressionado.
Então Domingos segurou-o pela mão e arrastou-o
para perto do outro:
– Mas por que querem se machucar? Por que querem
causar desgosto aos seus pais e a Deus? Jesus perdoou a
quem o matava, e vocês não são capazes de perdoar uma
ofensa feita num momento de raiva?
Domingos se calou, mas continuou a observar com
tristeza os dois inimigos, ao mesmo tempo em que apertava
na mão o pequeno crucifixo. As pedras caíram no
chão. Não houve duelo. Um dos dois rapazes, já adulto,
recordava ainda a cena: “Senti vergonha por ter obrigado
um amigo tão bom a recorrer a medidas extremas para
impedir aquela triste aventura e perdoei de coração a quem
me havia ofendido”.
(Livro: Domingos Sávio, por Terésio Bosco)

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