sábado, 31 de outubro de 2015

Se eu fosse espírita.

Se eu fosse espírita, curandeiro ou cartomante, colocava uma caveira em cima de minha porta, juntava uns pares de fêmures, de tíbias, de perônios, de cúbitos e rádios; fazia com isso uma figura egipcíaca e anunciava estar em contato direto com os vivos e defuntos; conhecer o passado, o presente e o futuro; suscitar e apagar amores e ódios, como se acendem e apagam velas; dar felicidade e desgraça, consertar falências e tirar quebrantos, fazer florescer negócios, adquirir fortunas colossais, nomear presidentes, governadores e sultões... e pronto! Ao toque da trombeta e do tambor, com reclamo nos jornais e pela boca dos idiotas, acorreria a multidão, acotovelando-se num "tou-vabou", pastores protestantes, espíritas sem espírito, maometanos, russos e chineses; negociantes, roceiros etc., puxando o precioso cobre, para eu lhes predizer o futuro.


E eu, muito majestoso, de barba comprida, pintada de branco, com óculos pretos sobre o nariz, de túnica vermelha, boné sírio na cabeça, ficaria sentado numa poltrona preta, tendo, de um lado, um papagaio a sujar o encosto da cadeira e, do outro, um gato preto a arrancar-lhe as palhinhas; e para completar o quadro misterioso, suspenderia ao forro um urubu de asas cobertas e de bico torcido... Neste ambiente original, à luz vacilante de uma lâmpada de querosene (pois a meia luz é necessária para o efeito)... eu, com voz rouca, sepulcral, martelando as sílabas, tal qual uma marcha fúnebre, daria as minhas irrevogáveis sentenças.

E o povo a correr... A puxar o cobre, a pratinha e até o ouro.

Aos doentes prometeria saúde e força, tomando o Biotônico ou o Iodo Suma, ou Sangue em Pílulas, do farmacêutico Raimundo Monteiro.

Aos pobres seu prometeria fortuna, roubando o bem alheio.

Aos namorados eu prometeria mil felicidades e dois mil amores, sob a condição de não se casarem antes dos 60 anos.

Aos velhos caducos prometeria o rejuvenescimento pelo método de Mozart e Voronof, sob a condição de não se deixarem morrer.

À mocidade eu prediria venturas, posições, até serem presidentes do Estado e da República.

Aos ignorantes eu prometeria ciência, ilustração e dignidade, sem estudos.

Aos calvos prometeria farta cabeleira; aos encanecidos prometeria força e vigor; aos noivos prometeria uma perene lua de mel; aos nubentes uma coroa de filhos mimosos; aos próprios desesperados da vida eu prometeria a Lua, o Sol e as estrelas.

E a multidão a passar... a entrar... a sair da minha casa, de olhos luminosos, de sorrisos nos lábios, de água na boca, puxando ricos níqueis que, sem pestanejar, eles deixariam cair no fundo do meu cofre. 

O mundo quer ser enganado... e o reino deste mundo pertence aos finórios.

Ao ver retirar-se esta multidão de consultantes, ao ver minha caixa encher-se de ouro, daria uma gostosa gargalhada, murmurando dentro da barba, para não ser ouvido: "Bando de idiotas! Até acreditam nas minhas palhaçadas! Vão tocar violas, pobres papalvos..." Porém, diria isso com a voz tão baixa que ninguém me ouvisse, enquanto os fregueses se retirariam da minha casa, impressionados pela minha sabedoria, clarividência e dotes proféticos, e, por aí, pelo mundo afora, me faria uma repetição de meio-deus encarnado. 

Que fazer? O| mundo quer ser enganado...  Ah! Se eu fosse espírita ou cartomante, faria um negocião!

Pois, meus queridos leitores, eu não o sou, e meu caráter não se adaptaria a tanta baixeza; porém, o que eu não sou há outros que o são, e fazem o que acabo de contar. E há gente que acredita nessas palhaçadas e nesses palhaços, que se chamam espíritas sem espírito...



Fonte: Texto retirado da obra "Os Segredos do Espiritismo", do Pe. Júlio Maria Lombaerde. 


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