quarta-feira, 14 de outubro de 2015

Transverberação do Coração de Santa Teresa de Jesus!

   "Desde que me mandaram fazer estas tais provas e resistir, foi muito maior o crescimento das mercês. Em me querendo distrair, nunca saía de oração; até dormindo me parecia que estava nela. Então cresciam o amor e as queixas que eu fazia ao Senhor, pois não o podia sofrer; nem estava na minha mão deixar de pensar n’Ele, por mais que eu quisesse e por mais que me esforçasse. Contudo, obedecia quando podia, mas nisto pouco ou nada podia e o Senhor nunca me dispensou de obedecer. Mas, ainda que me dizia para o fazer, assegurava-me, por outro lado, e ensinava-me o que lhes havia de dizer, e assim ainda o faz agora. Dava-me razões tão fortes que a mim me incutiam inteira segurança.

Dentro de pouco tempo começou Sua Majestade, como mo tinha prometido, a mostrar mais claramente que era Ele, crescendo em mim um amor tão grande de Deus que não sabia quem mo infundia, porque era muito sobrenatural, nem eu o procurava. Via-me morrer com desejo de ver a Deus e não sabia aonde havia de buscar esta vida, a não ser com a morte. Davam-me uns ímpetos tão grandes deste amor que, embora não fossem tão insofríveis como os que já de outra vez tenho dito, nem de tanto valor, eu não sabia que fazer de mim. Nada me satisfazia, nem eu cabia em mim, senão que verdadeiramente me parecia que se me arrancava a alma. Oh! artifício soberano do Senhor! De que indústria tão delicada usáveis para com a Vossa escrava miserável! Escondíeis-Vos de mim e apertáveis-me com Vosso amor, com uma morte tão saborosa que nunca a alma quereria sair dela.

Quis o Senhor que viesse então algumas vezes esta visão. Via um anjo ao pé de mim, para o lado esquerdo, em forma corporal, o que não costumo ver senão por milagre. Ainda que muitas vezes se me representam anjos, é sem os ver, senão como na visão passada, que disse antes. Nesta visão quis o Senhor que o visse assim: não era grande, mas pequeno, formoso em extremo, o rosto tão incendido, que parecia dos anjos mais sublimes que parecem todos se abrasam. Devem ser os que se chamam Querubins, que os nomes não mos dizem, mas bem vejo que no Céu há tanta diferença duns anjos a outros e destes outros a outros, que não o saberia dizer. Via-lhe nas mãos um dardo de oiro comprido e, no fim da ponta de ferro, me parecia que tinha um pouco de fogo. Parecia-me meter-me este pelo coração algumas vezes e que me chegava às entranhas. Ao tirá-lo, dir-se-ia que as levava consigo, e me deixava toda abrasada em grande amor de Deus. Era tão intensa a dor, que me fazia dar aqueles queixumes e tão excessiva a suavidade que me causava esta grandíssima dor, que não se pode desejar que se tire, nem a alma se contenta com menos de que com Deus. Não é dor corporal, mas espiritual, embora o corpo não deixa de ter a sua parte, e até muita. É um requebro tão suave que têm entre si a alma e Deus, que suplico à Sua bondade o dê a gostar a quem pensar que minto.
Os dias que isto durava, andava como alheada; não queria ver nem falar, senão abraçar-me com a minha pena, que era para mim maior glória que quantas há em tudo o criado.
Isto me acontecia algumas vezes, quando quis o Senhor que me viessem estes arroubamentos tão grandes que, até mesmo estando entre muitas pessoas, não lhes podia resistir, e assim, com muita pena minha, se começaram a divulgar."



Retirado do Livro da Vida de Santa Teresa de Jesus

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