quarta-feira, 25 de novembro de 2015

Da malícia do pecado mortal - Santo Afonso de Ligório (Parte III)

     O pecador injuria, desonra a Deus, e, no que toca sua parte, o cobre de amargura, pois não há amargura mais sensível do que ver-se pago com ingratidão pela pessoa amada em extremo favorecida. E a que se atreve o pecador?... Ofende ao Deus que o criou e tanto o amou, que deu por seu amor o sangue e a vida. E o homem o expulsa de seu coração ao cometer um pecado mortal. Deus habita na alma que o ama. 
     “Se alguém me ama... meu Pai o amará, e viremos a ele e faremos nele nossa morada” (Jo 14,23). Notai a expressão faremos morada; Deus vem a essa alma e nela fixa sua mansão; de sorte que não a deixa, a não ser que a alma o expulse. “Não abandona se não é abandonado”, como diz o Concílio de Trento. E já que sabeis, Senhor, que aquele ingrato há de expulsar-vos, por que não o deixais desde já? Abandonai-o, parti antes que vos faça tão grande ofensa... Não, diz o Senhor; não quero deixá-lo, senão esperar que ele formalmente me despeça.
    Assim, quando a alma consente no pecado, diz a seu Deus: Senhor, apartai-vos de mim (Jo 31,14). Não o diz por palavras, mas de fato, como adverte São Gregório.
      Bem sabe o pecador que Deus não pode harmonizar com o pecado. Bem vê que, pecando, obriga Deus a afastar-se dele. Rigorosamente, é como se lhe dissesse: Já que não, podeis ficar com meu pecado e tendes de afastar-vos de mim, — ide quando vos aprouver. E expulsando a Deus da alma, deixa entrar o inimigo que dela toma posse. Pela mesma porta por onde sai Deus, entra o demônio. “Então vai, e leva consigo outros sete espíritos piores do que ele, entram e moram ali” (Mt 12,45). Ao batizar-se um menino, o sacerdote exorciza o inimigo, dizendo-lhe: “Sai daqui, espírito imundo, e dá lugar ao Espírito Santo”; porque a alma do batizado, ao receber a graça, converte-se em templo de Deus (1Cor 3,16). Quando, porém, o homem consente no pecado, efetua precisamente o contrário, dizendo a Deus, que reside na sua alma: “Sai daqui, Senhor, e cede lugar ao demônio”. É disto de que se queixa o Senhor a Santa Brígida quando lhe diz que, ao despedi-lo, o pecador procedia como aqueles que expulsassem o seu rei do próprio trono: “Sou como um rei banido de seu próprio reino, elegendo-se em meu lugar um péssimo ladrão...” 
      Que mágoa não sentiríeis se recebêsseis grave ofensa duma pessoa, a quem tivésseis feito grande benefício? Esta mesma mágoa causais a Deus, que chegou a dar sua vida para vos salvar. Clama o Senhor a dar sua vida para vos salvar. Clama o Senhor à terra e ao céu para que se compadeçam dele à vista da ingratidão com que o tratam os pecadores: “Ouvi, ó céus; tu, ó terra, escuta... Filhos criei e engrandeci... mas eles me desprezaram” (Is 1,2). Em suma, os pecadores afligem com seus pecados o coração do Senhor... (Is 63,10) Deus não está sujeito à dor, mas — como disse o Padre Medina — se fosse suscetível de sofrer, um só pecado mortal bastaria para o fazer morrer, pelo infinito pesar que lhe causaria. Assim, pois, afirma São Bernardo, “o pecado, quanto em si é, dá morte a Deus”. De modo que o pecador, ao cometer um pecado mortal, fere, por assim dizer, a seu Senhor, e nada omite para tirar-lhe a vida, se pudesse (Sl 30,4). Segundo a expressão de São Paulo, calca aos pés o Filho de Deus (Hb 10,29), e despreza tudo o que Jesus Cristo fez e sofreu para tirar o pecado do mundo.

AFETOS E SÚPLICAS

     Assim, meu Redentor, todas as vezes em que pequei vos expulsei de minha alma, e fiz tudo para vos tirar a vida, se pudésseis morrer. Ouço-vos dizer: “Que mal te fiz ou em que te contristei para me causares tanto desgostos... Perguntais-me, Senhor, que mal me fizestes?... Destes-me o ser, morrestes por mim: é este o mal que me haveis feito!... Que hei de responder?... Confesso, Senhor, que mereci mil vezes o inferno, e que mui justamente já me poderíeis ter condenado a ele. Lembrai-vos, porém, do amor que vos fez morrer por mim na cruz; lembrai-vos do sangue que por meu amor derramastes, tende compaixão de mim... Mas já sei, Senhor: não quereis que desespere, e me dizeis que estais à porta de meu coração (deste coração que vos expulsou), e que bateis nele com vossas inspirações para entrar, pedindo-me que vos abra... (Ap 3,20; Ct 5,2). Sim, meu Jesus, estou resolvido a apartar-me do pecado; dói-me de todo o coração de vos ter ofendido e vos amo sobre todas as coisas. Entrai, meu amor; a porta está aberta; entrai, e não vos afasteis mais de mim. Abrasai-me com vosso amor, e não permitais que torne a separar-me de vós... Não, meu Deus, não queremos mais separar-nos. Abraço-vos e aperto-vos a meu coração... Dai-me a santa perseverança.... Maria, minha Mãe, socorrei-me sempre; rogai por mim a Jesus, e alcançai-me a dita de jamais perder a sua graça.



Santo Afonso de Ligório - Preparação para a morte.


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