terça-feira, 17 de novembro de 2015

Não podendo mais o homem voltar-se para Deus, o Senhor veio procurá-lo sobre a terra. Santo Afonso Maria de Ligório

    Mas como pode Deus dizer que os homens são as suas delícias? — Ah! responde S. Tomás, é que Deus ama o homem, como se o homem fosse seu Deus, e como se não pudesse ser feliz sem o homem. S. Dionísio ajunta que, devido ao amor que tem aos homens, Deus parece fora de si mesmo. Há um provérbio que diz que o amor põe fora de si aquele que ama: Amor extra se rapit
    Não, disse Deus, não quero perder os homens; haja um Redentor que satisfaça por eles à minha justiça, e os resgate das mãos de seus inimigos e da morte eterna que mereceram... Aqui S. Bernardo, contemplando esse mistério, julga ver uma contenda entre a Justiça e a Misericórdia de Deus. 
     Estou perdida, diz a Justiça, se Adão não for punido. — Estou perdida, diz por sua vez a Misericórdia, se o homem não obtiver perdão. O Senhor põe fim a essa contenda: “Morra um inocente, diz ele, e salve-se o homem da pena de morte, em que incorreu.” 
    Na terra não havia esse inocente. Então, disse o Padre Eterno, já que entre os homens não há quem possa satisfazer a minha justiça, qual dos habitantes do céu descerá para resgatar a humanidade? Os anjos, os querubins, os serafins, todos calam-se, ninguém responde. Só responde o Verbo Eterno e diz: Eis-me aqui, mandai-me. Meu Pai, uma pura criatura, um anjo, não poderia oferecer a vós, Majestade infinita, uma digna satisfação pela ofensa recebida do homem. E mesmo que vos quisésseis contentar com uma tal reparação, pensai que até esta hora nem os nossos benefícios, nem as nossas promessas e ameaças puderam decidir o homem a amar-nos. É que ele não sabe ainda a que ponto o amamos; se quisermos obrigá-lo a amar-vos infalivelmente, eis a mais bela ocasião que possamos ter: eu, vosso unigênito Filho, encarregar-me-ei de resgatar o homem perdido, descerei à terra, tomarei um corpo humano, morrerei para pagar a pena que ele deve à vossa justiça; esta será assim plenamente satisfeita e o homem se persuadirá do nosso amor para com ele. 

     Mas, pensa, meu Filho, responde o Padre Eterno; pensa que, se te encarregares de satisfazer pelo homem, terás de levar uma vida cheia de trabalhos e dores. 
      — Não importa, eis-me, mandai-me... 
      Pensa que terás de nascer numa gruta, que será estábulo de animais; que depois terás de fugir para o Egito a fim de escapar das mãos desses mesmos homens que procurarão, desde a infância, tirar-te a vida.
      — Não importa, mandai-me... 
    Pensa que, voltando do Egito, terás de levar vida extremamente penosa e abjeta como auxiliar dum pobre artífice. 
    — Não importa, mandai-me... 
    Pensa enfim que, quando apareceres em público para pregar tua doutrina e te manifestar ao mundo, terás sim discípulos, mas serão pouquíssimos; a maior parte dos homens te desprezará, te tratará de impostor, de mago, insensato, samaritano e não deixará de perseguir-te, enquanto não e fizer nos mais ignominiosos tormentos e suspenso num patíbulo infame. 
     — Não importa, mandai-me... 
     Lavrado o decreto de que o Filho de Deus se faria homem para ser o Redentor do gênero humano, o Arcanjo Gabriel foi enviado a Maria. 
     A humilde Virgem consente em tornar-se a Mãe de Deus e o Verbo Eterno se faz carne. Eis pois Jesus no seio de Maria; e entrando no mundo, ele diz com a mais profunda humildade e inteira obediência: Meu Pai, já que os homens não podem aplacar vossa justiça por suas obras nem por seus sacrifícios, eis-me aqui, o vosso Filho unigênito, revestido da carne humana, e pronto a expiar as faltas humanas por meus sofrimentos e por minha morte. Assim o faz falar S. Paulo: Entrando no mundo, diz: Não quiseste hóstia, nem oblação, mas me formaste um corpo... 
     E eu disse: Eis-me que venho... para fazer, ó Deus, a tua vontade (Hb 10,5). 
     Assim, pois, por nós míseros vermes e para ganhar o nosso amor, é que Deus quis fazer-se homem. Sim, isso é de fé, como a Santa Igreja o proclama: “Por nossa causa e para nos salvar, ele desceu do céu..., diz ela, e se fez homem”. Sim, um Deus fez isso para nos obrigar a amá-lo.
     Ah! se a fé não nos desse a certeza, quem poderia jamais imaginar que por amor dum verme da terra como é o homem, um Deus se fez verme da terra como o homem! Se acontecesse, diz um piedoso autor, que passando pela estrada pisásseis casualmente um verme e o matásseis, e que alguém, vendo-vos ter dele compaixão, vos dissesse: Se quereis restituir a vida a esse pobre verme, deveis primeiro tornar-vos como ele, e depois abrindo-vos as veias, banhá-lo em vosso sangue; — que responderíeis? — Que me importa, diríeis certamente, que o verme ressuscite ou fique morto, que eu tenha de procurar a sua vida com a minha morte? 
     Essa seria com mais razão a vossa resposta, se se tratasse não dum verme inocente, mas dum áspide ingrato que, depois de beneficiado por vós, vos tentasse tirar a vida. Mas se, não obstante isso, levásseis o amor ao ponto de sofrer a morte para restituir a vida a essa malvado reptil, que diriam os homens? E se esse animal salvo assim pela vossa morte tivesse raciocínio, que não faria por vós?
    Mas Jesus Cristo fez isso por ti, mísero verme da terra; e tu ingrato tentaste muitas vezes tirar-lhe a vida, e os teus pecados o teriam matado realmente, se ele ainda estivesse sujeito à morte. Tens sido mais vil a respeito de Deus do que o verme a teu respeito! 
     Que importava a Deus que ficasses ou não no pecado, presa da morte e da condenação segundo o teu mérito? E esse Deus teve tanto amor por ti que, para livrar-te da morte eterna, primeiro se fez verme como tu, e depois para salvar-te quis derramar todo o seu sangue e sofrer a morte que merecias. Sim, tudo isso é de fé: O Verbo se fez carne, diz S. João, e amou-nos ao ponto de nos lavar em seu próprio sangue (Ap 1,5).
      A Santa Igreja ao considerar a obra da Redenção declara-se aterrada. E ela não faz senão repetir as palavras do profeta a exclamar: Senhor, eu ouvi a tua palavra, e temi; tu saíste para a salvação do teu povo, para o salvar com o teu Cristo (Ha 3,2-13). 
     S. Tomás tem pois razão de chamar o mistério da Encarnação o milagre dos milagres; milagre incompreensível, em que Deus mostra o poder de seu amor pelos homens; pois que, de Deus que é, esse amor o faz homem, de Criador, criatura nascida duma criatura, diz S. Pedro Damião; de soberano Senhor, simples servo, de impassível, sujeito às penas e à morte. É assim que, segundo a palavra da SS. Virgem, ele fez brilhar o poder de seu braço. S. Pedro de Alcântara ao ouvir uma vez cantar o Evangelho que se reza na terceira missa de Natal: In principio erat Verbum etc., contemplando esse mistério ficou de tal modo inflamado de amor para com Deus que em êxtase se elevou nos ares e, embora distante, foi levado para diante do SS. Sacramento. E S. Agostinho dizia que se não saciava nunca de considerar a grandeza da bondade divina na obra da redenção dos homens. 
    É sem dúvida por causa da grande devoção que ele tinha a esse sublime mistério, que o Senhor lhe mandou escrever sobre o coração de S. Maria Madalena de Pazzi estas palavras: E o Verbo se fez carne.


Santo Afonso Maria de Ligório

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