domingo, 1 de novembro de 2015

Sinais de vocação religiosa na donzela cristã

 Sinais da vocação religiosa. - Ei-los aqui, de acordo com os mestres da vida
espiritual:

I) O atrativo. - Deus costuma inclinar suavemente as almas para a vida que lhes destina. Entendamos bem que se trata aqui de atrativo sobrenatural ; em religião não se vai procurar a satisfação das inclinações da natureza. Esta, é verdade, fornece as tendências e as energias de que a graça se apossa para, em religião, empregá-las na glorifica­ção de Deus, na demanda da finalidade própria da Comunidade; porém ela não pode bastar, e não é principalmente nela que a pessoa deve fundar-se.

2) A aptidão. - Desta já dissemos uma palavra. Todavia convém precisar as aptidões morais que a vida religiosa requer. Versam elas, em particular, sobre os pontos seguintes, ainda não plenamente adquiridos, mas em estado de germes
capazes de crescer, e cujo desenvolvimento a vontade está resolvida a promover:
A piedade verdadeira, isto é, o amor único, profundo, generoso de Nosso Senhor - o gosto da oração - uma grande docilidade de espírito - o amor da humildade, do recolhimento e do silêncio - o espírito de renúncia - a tolerância para com os outros - o espírito de dedicação - enfim, uma certa disposição para o gênero de vida e para a obra especial do instituto ao qual a pessoa se destina.



3) A retidão de intenção. - Pode esta assumir as formas seguintes, aliando-as em graus diversos e dando a uma ou a outra a preponderância :
a) O sentimento habitual de uma segurança prudente que assim se toma contra o mundo e contra si.
b) O desejo de viver de uma existência mais perfeita.
c) A aspiração a amar e servir / melhor a Deus.
d) Uma sede intensa de se assemelhar a Jesus Cristo e de viver de uma união mais íntima com ele.
e) A necessidade de se dedicar, por Deus, ao serviço do próximo.

Se Deus chama, cumpre obedecer.

 "Quanto maior e mais bela uma vocação, tanto mais acompanhada de lutas, de tristezas, de desgostos. E não poderia ser de outro modo. Como quererdes que a pessoa se entregue toda sem que a natureza se revolte? Até o último momento haverá em nós qualquer coisa que tentará furtar-se a essa consagração universal de todo o nosso ser a Deus".
Estas palavras do Pe. Marquigny levam-nos a encarar as dificuldades que uma moça pode encontrar quando quer consagrar-se a Deus. Essas dificuldades não faltarão. Mas são um sinal de que o Céu abençoa a alma a quem as envia. A obra de Deus sempre sofre perseguição, e o demônio não pode ver surgir uma vocação religiosa sem tentar alguma coisa para fazê-la fracassar. Se o consegue, que sucesso! Se é vencido, sabe que a glória de Deus resplenderá mais. A alma que quer consagrar-se a Deus terá, pois, de lutar contra si mesma, e, o que é o mais duro, contra os seus!

 Lutas contra si mesma. - Deus falou. A vocação, longamente estudada e amadurecida, está decidida. A donzela prepara-se para partir. Os últimos momentos que ela deve passar em família serão para ela um verdadeiro martírio. Ao pai, à mãe, aos irmãos e irmãs, às amigas, à casa, ao seu quarto de moça, à paróquia, às obras, à igreja, à cidade, à aldeia ou ao bairro, a tudo isso terá ela de dizer adeus. E, se a vocação a chama às missões longínquas, é ainda a pátria que ela terá de deixar para sempre. Após essas lacerações, essas separações que se impõem e que fazem sangrar o coração, ela prevê o futuro e pensa na cruz que deverá carregar. Sem dúvida, Deus lá está que lhe dará suas graças, mas nem por isto a vida religiosa deixa de ser um sacrifício de todos os dias, um holocausto que se renova incessantemente, uma luta de todos os instantes contra a natureza. Os santos votos são doces cadeias, porém sempre cadeias. Pobreza, castidade, obediência são virtudes que crucificam. Seja qual for o hábito que tome, a pessoa torna a se achar a si mesma.
 O claustro não dá a santidade; as virtudes podem ser abrigadas, protegidas pelos muros de um convento, mas não lhe nascem espontaneamente das pedras. Sim, antes de se consagrar a Deus é bom encarar o futuro, olhar bem de frente as dificuldades que ele reserva e os sacrifícios que exige. "Uma das provações da vida religiosa, diz o Pe. Lacordaire, é viver-se com pessoas que se não escolheram e cuja maioria não excita em nós nenhuma simpatia natural, de sorte que somos obrigados à intimidade sem o condimento de afeto que a torna agradável". Lá, a vossa solidão não vos pertence mais, nem a vossa intimidade. Haverá que ir com as outras quando se gostaria tanto de ficar à parte, sorrir quando se quisera chorar, nunca fazer o que agrada, e muitas vezes fazer o que não agrada, suportar alegremente o que, nos outros, irrita e horripila, viver amavelmente com quem não agrada, numa palavra, calcar continuamente aos pés todas as aspirações da natureza e esquecer sempre a si mesma.
O mundo morreu para a alma consagrada. Só Deus lhe deve bastar. Se ela quiser descer de novo às coisas que deixou, não mais terá o direito de possui-las senão por fraude, como um ladrão. Um muro de separação deve estabelecer-se entre o presente e o passado ; e esse muro ela não pode transpô-lo sem se tornar infeliz. E, se quiser tentar conciliar a um tempo Deus e a natureza, não satisfará nem um nem outro, e ficará num perpétuo mal-estar. Tudo isso, donzela que vos quereis consagrar a Deus, deveis sabê-lo, deveis seriamente refleti-lo, não para desanimardes, mas para preparardes vossa alma para o combate. Aliás, mais vale a previdência que a decepção ; não teríeis uma vocação de bom quilate se, indo para o convento, não estivésseis resolvida a lançar-vos em pleno oceano de sacrifícios. Mas essas lutas íntimas, que só vós suportareis, pouca coisa são ao lado das que vos reservam às vezes vossos pais, e da dor que vos causará, como a eles aliás, a inevitável separação.

Lutas com os pais. - Antes de entrarmos na minúcia das circunstâncias que poderão apresentar-se, vejamos o que se deve pensar dos direitos que os pais podem fazer valer nesta questão. S. Tomás escreve: "Antes de tudo, cumpre excluir os pais. No negócio da vocação eles são, não uns aliados, mas uns inimigos de vossa alma, consoante as palavras do Profeta: "Os inimigos do homem estão na sua própria casa" (Opus. 17, c. 9). E isso se compreende. Em geral, os pais querem gozar dos filhos, têm um egoísmo inconsciente que os impede de pensar que esses filhos pertencem primeiro a Deus e depois a eles, e que, ai como em qualquer parte, Deus deve ser o "primeiro servido". O mesmo Doutor escreve ainda : "Desde que o homem chega à idade da puberdade, só de si mesmo depende para tudo o que diz respeito à sua alma: assim, pode, sem nenhuma permissão, fazer voto de entrar em religião" (2, 22, q. 88, art. 8). Admitamos que, nos nossos tempos menos crentes, se passa por a isso um pouco mais de formas; sem embargo, o principio existe, e sobre ele podemo-nos apoiar solidamente.

Realmente, que é que fazem os pais que querem impedir a filha de ingressar na vida religiosa? - Combatem ao próprio Deus, que reservou para si essa alma. - Expoem-na a faltas que certamente ela não cometeria em seguindo a sua vocação. - Ao passo que, em consciência, são obrigados a ocupar-se do progresso espiritual de sua filha, fazem eles inteiramente o contrário, expondo-a mesmo a perder-se para sempre, obrigando-a a sair da trilha que Deus lhe traçou. Não é, pois, nem cristão nem . lógico. Diz S. Ambrósio: "Se vossas filhas quisessem amar um homem, poderiam escolher quem quisessem; e não lhes haveria de ser permitido escolher a Deus?" Qual não é, pois, a terrível responsabilidade dos pais que se obstinam em combater a vocação religiosa da filha? Não somente a fazem perder graças inestimáveis que Deus lhe reservava, como talvez a façam incorrer a eterna condenação! E agora, penetremos mais adentro neste problema tão grave, para vermos quais são os vossos direitos e também as vossas obrigações.

I) "Aquele que amar seu pai e sua mãe mais do que a mim não é digno de mim", disse o Mestre. Esta palavra deve repercutir, profunda, na alma daquelas que se vêem na alternativa de contristar o coração de Deus ou o coração de seus pais bem-amados.
2) Vossos pais tem o direito de vos impor a reflexão antes de vos deixarem partir. Isto é naturalíssimo ; é mesmo necessário para vos impedir de tomar uma decisão tão grave sem vos cercardes de todas as garantias. Bem mais : devem os pais opor-se à partida de sua filha ou quando ela é muito jovem, ou quando a sua saúde é fraca demais, ou quando a vêem agir com imprudente precipitação.


Retirado do Livro: Formação da Donzela, do Pe José Baeteam

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