quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

Confiemos nossa fraqueza neste Deus, que sendo toda a força, fez-se fraco. - Santo Afonso Maria de Ligório

     E por que se fez Jesus Cristo tão fraco? Ele se tornou fraco, já o dissemos, para assim nos comunicar a sua própria força, e, de outro lado, para vencer e abater as forças do inferno: Venceu o Leão da tribo de Judá. Segundo o Salmista, é próprio de Deus, é sua inclinação natural querer salvar-nos e preservar-nos da morte: O nosso Deus é o Deus que tem a virtude de nos salvar; e ao Senhor, ao Senhor pertence o livrar da morte.
      Esse texto é interpretado no mesmo sentido por Belarmino. Se somos fracos, confiemos em Jesus Cristo e poderemos tudo: Tudo posso, dizia S. Paulo, naquele que me conforta. Posso tudo, não por minhas próprias forças, mas pela força que meu Redentor me comunica em virtude de seus méritos. Confiai, meus filhos, diz-nos Jesus Cristo; se não podeis resistir a vossos inimigos, sabei que eu os venci por vós; a minha vitória foi para o vosso bem. Empregai as armas que vos deixo para a vossa defesa, e vencereis certamente.
      Mas quais são essas armas que Nosso Senhor nos deixou? — São duas: a freqüência dos sacramentos e a oração.
      Já se sabe que os sacramentos, especialmente a Penitência e a Eucaristia, são os canais pelos quais nos chegam as graças que nosso Salvador nos mereceu. A experiência cotidiana prova que quem freqüenta os sacramentos, se conserva facilmente na graça de Deus; mormente quem comunga muitas vezes, oh! que força recebe para resistir às tentações! A sagrada Eucaristia é chamada Pão, e Pão celeste, para nos dar a entender que, como o pão terrestre conserva a vida do corpo, assim a comunhão conserva a vida da alma, que é a graça de Deus. O Concílio de Trento diz que é um antídoto, que nos livra das faltas veniais e nos preserva dos pecados graves. Segundo S. Tomás, a chaga que o pecado nos fez, seria incurável, se não tivéssemos esse remédio divino. Por sua Paixão, diz Inocêncio III, Jesus Cristo nos livros das cadeias do pecado, e pela Eucaristia nos livra da vontade de pecar.

      O segundo meio que temos para vencer as tentações é a oração feita a Deus pelos méritos de Jesus Cristo, que nos fez esta promessa: Em verdade, em verdade vos digo: tudo o que pedirdes ao Pai em meu nome, Ele vo-lo dará. Assim, tudo o que pedirmos a Deus em nome de Jesus Cristo, isto é, por seus merecimentos, o obteremos. É ainda um fato de experiência cotidiana: todos os que, em suas tentações, recorrerem a Deus suplicando-lhe por Jesus Cristo, obtêm sempre a vitória; ao contrário, os que se descuidam de reclamar o socorro divino, especialmente nas tentações carnais, sucumbem miseravelmente e se perdem. Eles dizem, desculpando-se, que são de carne, que são fracos. Mas como pode desculpá-los a sua fraqueza? Para terem a força que lhes falta, bastar-lhes-ia recorrer a Jesus Cristo e invocar com confiança o seu santíssimo nome, e eles não o querem fazer! Que desculpa teria quem se queixasse de ser vencido pelo inimigo, se, sendo-lhe apresentadas as armas de defesa, as tivesse rejeitado e desprezado? Se quisesse alegar a sua fraqueza, fácil seria confundi-lo dizendo: Já que conhecias a tua fraqueza, por que não quiseste servir-te das armas que te ofereciam?
      O demônio, diz S. Agostinho, foi acorrentado por Jesus Cristo; ele pode ladrar, mas só pode morder a quem quer ser mordido; é preciso ser bem insensato, acrescente o Santo Doutor, para se deixar morder por um cão preso à corrente, pois o demônio pode solicitar-nos, mas não forçar-nos a consentir no mal. Ele diz ainda alhures que nosso Redentor nos deixou todos os remédios necessários à nossa cura, e que todos os que morrem, por não seguirem as prescrições do médico, devem atribuir a si mesmo a sua morte.
     Quem se une a Jesus Cristo não é fraco, mas se torna forte pela força de Jesus. Esse bom Mestre, ensina-nos S. Agostinho, não só nos exorta a combater, mas nos ajuda também a vencer; se nos faltam as forças, vem em nosso socorro, e Ele mesmo nos coroa após a vitória. Isaías predisse que o coxo saltaria como o veado, isto quer dizer que, pelos méritos do Salvador, quem de si mesmo não possui força de dar um passo, se torna capaz de galgar as montanhas com a maior facilidade. Predisse que fontes abundantes jorrariam do solo mais árido, isto é, que as almas estéreis, que não produziam nenhum bem, se tornariam fecundas em virtudes. Predisse que, onde moravam os dragões, nasceria a verdura da cana e do junco, isto é, que os corações mais viciados, em que habitavam os demônios, se abririam a sentimentos de humildade e caridade. A cana representa a humildade, porque, segundo o comentário do Cardeal Hugo, quem é humilde julga-se vazio ou desprovido de méritos; o junco representa a caridade porque, segundo o mesmo intérprete, em algumas regiões serve de mecha a arder as lâmpadas.
      Numa palavra, quando recorremos a Jesus Cristo, encontramos nele toda a graça, toda a força, todo o socorro: Nele, diz o apóstolo, fostes enriquecidos de todos os bens... de maneira que nada vos falta em graça alguma. É por isso que Ele se fez homem, que se aniquilou. Em certo sentido reduziu-se a nada, diz Cornélio; despojou-se de sua majestade, de sua glória e de sua força. Tomou sobre si a nossa miséria e a nossa fraqueza, para nos comunicar a sua dignidade e o seu poder, para ser nossa luz, nossa justiça, nossa santificação, e nossa redenção. E está sempre pronto a auxiliar e confortar a quem o invoca.
      S. João viu o Senhor com o peito cheio de leite, isto é, de graças, e cingido dum cinto de ouro. Isso significa que Jesus Cristo em certo sentido está ligado e constrangido pelo amor que tem aos homens: à semelhança duma mãe que, tendo os seios cheios de leite, procura o filho para amamentá-lo e para se desfazer do precioso peso, Nosso Senhor deseja ardentemente que lhe peçamos as suas graças e todos os socorros de que temos necessidade para vencer os inimigos que procuram sem cessar roubar-nos a sua amizade e perder-nos.
      O profeta exclama: Oh! como Deus é bom e liberal para com a alma que o procura com sinceridade e resolução. Se pois não nos tornarmos santos, a culpa é nossa; é que nos não resolvemos a querer só a Deus. Os preguiçosos, ou os tíbios, querem e não querem, e são sempre vencidos, porque não tomam a firme resolução de agradar só a Deus. Uma vontade bem determinada triunfa de tudo, porque quando uma alma se decide verdadeiramente a dar-se a Deus sem reserva, o Senhor lhe estende logo a mão e a força de superar todas as dificuldades que ela encontra no caminho da perfeição. Assim se realiza a bela promessa que Isaías fazia ao mundo, suspirando pela vida do Salvador: Oxalá romperas tu os céus, e desceras de lá! Os montes se derreteriam diante da tua face. À vinda do Redentor, dizia ainda, os caminhos tortuosos serão endireitados, e os escabrosos aplanados. Os montes são os obstáculos opostos pelos apetites carnais à perfeição: fortalecidas pelo Salvador, as almas de boa vontade o vêem desaparecer. Os caminhos tortuosos e escabrosos são as humilhações e as penas que os homens acham naturalmente duras e difíceis de suportar: tudo isso se lhes torna doce e leve pela graça que Jesus Cristo lhes dá pelo amor divino que Ele ateia em seus corações. Assim S. João de Deus regozijava em passar por louco e em ser espancado num hospital; assim S. Ludovina gozava ao ver-se toda coberta de chagas e presa ao leito por vários anos; assim S. Lourenço arrostou o tirano que o fazia arder na grelha, e deu com alegria sua vida por Jesus Cristo. Assim ainda muitas almas fervorosas acham a paz e a felicidade, não nos prazeres e nas honras do mundo, mas nos sofrimentos e nas ignomínias.
      Ah! peçamos a Jesus Cristo nos penetre desse fogo divino, que Ele veio acender sobre a terra, que assim também nós não acharemos pena nem dificuldade em espezinhar a lama dos bens do mundo e empreendermos grandes coisas por Deus. Quando se ama, não se sofre, diz S. Agostinho. Para uma alma que ama a Deus não é penoso nem difícil sofrer, orar, mortificar-se, humilhar-se, renunciar aos prazeres terrestres. Quanto mais trabalha e sofre tanto mais quer trabalhar e sofrer. As chamas do amor divino, como as chamas do inferno, diz o Sábio, não dizem jamais: basta. — Nada pode saciar o ardor duma alma que ama a Deus.
     


Santo Afonso Maria de Ligório, Encarnação, Nascimento e Infância de Nosso Senhor Jesus Cristo

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