terça-feira, 1 de dezembro de 2015

Da má vergonha - Santo Afonso Maria de Ligório

       Se alguém tem a desgraça de cair em uma falta grave, então o demônio lhe fecha a boca, persuadindo-lhe que seria para ele uma grande vergonha manifestá-la! Ai! quantas religiosas, por causa desta maldita vergonha, ardem e arderão para sempre no inferno, digamos melhor, no fundo do inferno! Assim é, porque as pobres, arrastadas pelo respeito humano, para não darem que falar às outras e não perderem a sua estima, continuam facilmente, meses e anos, a fazer confissões e comunhões sacrílegas! 
     Lê-se nas crônicas dos Carmelitas descalços, que uma jovem, aliás muito boa, caiu desgraçadamente em um pecado desonesto. Três vezes o ocultou na confissão, e três vezes se atreveu a comungar neste estado; mas depois da terceira comunhão sacrílega, morreu subitamente. Como passava por uma santa, seu corpo foi posto em lugar separado, em uma igreja dos padres Jesuítas. Apenas terminaram as exéquias e fechou-se a igreja, o confessor da infeliz foi conduzido por dois anjos à sua sepultura, da qual ela se ergueu naquele momento, se pôs de joelhos, e, depois de batida no pescoço pelos anjos, vomitou em um cálice expressamente preparado as três hóstias recebidas sacrilegamente e por milagre conservadas em seu peito. Então os anjos tiraram-lhe o escapulário do Carmo, e ela apresentou logo um aspecto horrendo. Foi depois arrebatada por dois demônios e não apareceu mais.

     Mas quando uma alma ousou ofender a Majestade divina por um pecado grave, e assim mereceu um inferno eterno e a conseqüente confusão eterna, como pode achar uma escusa diante de Deus, se oculta a sua falta na confissão de preferência a sofrer a leve e curta confusão de confessá-la uma só vez a um só sacerdote? Se quer obter de Deus o perdão e se livrar do inferno que mereceu, esta confusão anexa à acusação do seu pecado ao confessor, é precisamente o que a dispõe para receber o perdão. quem desprezou a Deus, é justo que se humilhe e se confunda. Esta foi a bela resposta dada ao demônio por uma pecadora chamada Adelaide. Convidada pelo Senhor a mudar de vida, se converteu e resolveu logo fazer uma boa confissão; mas quando se dirigia ao sagrado tribunal, o demônio lhe pôs diante dos olhos a vergonha que deveria experimentar ao expor os seus pecados ao confessor, e lhe disse: Onde vais, Adelaide? — Ela lhe respondeu com coragem: Besta vil, me perguntas onde vou? Vou me confundir a mim e também a ti.
     Além da falsa vergonha, o espírito maligno põe também na cabeça uma quantidade de idéias enganosas e vãos temores tais como os seguintes:
     1. O confessor me ralhará, quando ouvir este pecado. — E porque vos há de repreender? Dizei-me se fosseis confessor e viesse um pobre penitente manifestar-vos as suas misérias, confiando que havíeis de levantá-lo da sua queda, vós ralharíeis com ele? Como, pois, podeis pensar que o confessor, obrigado por ofício a usar de toda a caridade com as pessoas que se confessam irá vos repreender e se enfadar contra vós, se lhe revelardes o vosso pecado?
     2. O confessor, ao menos, se escandalizará de mim e me detestará para sempre. — Puro engano. Longe de se escandalizar de vós, se edificará de vos ver tão bem disposto a fazer a confissão sincera de vossas faltas, apesar da confusão que experimentais. E pensais vós que o confessor não tenha ouvido, nas confissões dos outros, muitos pecados semelhantes aos vossos e talvez mais graves? Oh! Prouvera a Deus que fosseis o único a ofendê-lo. — Não é verdade que vos aborrecerá; ao contrário, vos estimará mais e se esforçará mais para vos ajudar, porque ficará tocado pela confiança que lhe testemunhardes pela manifestação das vossas misérias.
     3. Eu quero me confessar, mas quando vier o confessor extraordinário. — E, entretanto, quereis viver na desgraça de Deus, no perigo de vos perder para sempre, e num inferno de remorsos, que vos dilacera a alma, sem vos deixar um momento de repouso, nem de dia nem de noite! tudo isto, para não dizer ao vosso confessor: Meu Padre, por desgraça cai neste pecado; mas não quero me desesperar por isso! — Vós dizeis: Eu me confessarei ao extraordinário. — E entretanto quereis ao pecado cometido ajuntar mais sacrilégios? e sabeis que pecado horrendo é o sacrilégio? — Logo, a medicina que Jesus Cristo vos preparou com o seu sangue na confissão, quereis convertê-la em peçonha de morte eterna para vossa alma? — Eu me confessarei mais tarde. — E se vos surpreender uma morte improvisa, a qual atualmente se tornou tão freqüente que, quase diariamente, se ouve falar de pessoas falecidas de repente, que será de vos por toda a eternidade?
      4. Eu não tenho bastante confiança no meu confessor. — Dirigi-vos pois a um outro. Pedi-o ao bispo, ou dizei a um de vossos companheiros que desejais pedir um conselho ao seu diretor, e podereis assim remediar as vossas necessidades. — Mas, finalmente, no caso em que não houvesse outro a quem vos pudésseis abrir, além do confessor ordinário, dizei-me: Se recebêsseis um golpe capaz de vos causar a morte sem um pronto remédio, não chamaríeis logo o cirurgião para conservar a vida, ainda que isso vos causasse grande repugnância? E para vos curar da morte eterna e livrar do inferno, não tendes coragem de manifestar o vosso estado ao vosso padre espiritual? — Notai bem que aqui não basta dizer: Eu me confesso de todos os pecados desde que nasci, como estão diante de Deus. — Se não declarardes a vossa consciência, estas palavras só servem para mais vos desvairar e vos perder.
       Eia, pois, tende coragem, e superai generosamente esta vergonha que o demônio vos faz parecer tão grande. Bastará que comeceis a vos manifestar, para que logo se desvaneçam todas as vãs apreensões. E ficai persuadido que depois da confissão, estareis mais contente de ter declarado as vossas faltas, do que se vos fizessem rei de toda a terra. Recomendai-vos a Maria Santíssima que vos alcançará forças para vencer toda a repugnância. E se não tiverdes coragem de manifestar o vosso pecado logo ao principiar a confissão, dizei assim ao confessor: Meu Padre, ajudai-me, porque preciso de auxílio. Tenho um pecado, que não sei como confessá-lo. — Então, o confessor, sem grande dificuldade vossa, descobrirá o meio de expulsar da toca a fera que vos está devorando: bastará que respondais sim ou não. Ou também, se não quiserdes dizer com a boca, escrevei a falta cometida em um papel e dai-o ao confessor. Depois direis: Eu me acuso do pecado que acabais de ler. — Num instante estareis livre do inferno eterno e do inferno temporal, recobrareis a graça de Deus e a paz da vossa consciência. — Sabei, além disso, que quanto maior for a violência que fizerdes para vos vencer, maior será o amor com que Deus vos abraçará. — Narra o padre Paulo Segneri, o moço, que uma religiosa se fez tanta violência para confessar certos pecados cometidos na infância, que desmaiou. Em recompensa deste ato generoso, o Senhor lhe outorgou tanta compunção e tão grande amor, que, dai em diante, se deu à perfeição, fez grandes penitências e morreu em odor de santidade.



Santo Afonso Maria de Ligório - A Verdadeira Esposa de Cristo

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