terça-feira, 22 de dezembro de 2015

Maria e o mistério da Encarnação


1. - A alegria da vinda do Salvador
Cristo vem. O Salvador está para nascer. A Igreja nesses dias o espera, o deseja, o suspira. O que quer dizer, meus queridos, que estejamos aqui frios em nossos afetos? Que passemos por esses dias de um advento tão alegre, de expectativa tão doce, numa preguiçosa indiferença? Nada solícitos em unirmo-nos em espírito à S. Igreja, nos contentemos somente em não discordar exteriormente com superficial e lânguida harmonia? Infelizmente o amor por estas coisas terrenas e visíveis mantém preocupado o nosso ânimo; e o gosto dos sentidos arrastaram atrás de si em uma ignominiosa escravidão o nosso coração. Cremos, sim, nas coisas celestes: mas não as amamos. Confessam-se exteriormente, mas não as apreciamos intimamente que maravilha, pois, se não as desejamos? Se nos interessamos tão pouco? Oh Deus! Irmãos, já é tempo de que nós sacudamos este gelo, que elevemos
nosso espírito, como nos convida o Profeta para ver a alegria que nos vem do nosso Deus; "Jerusalém, volta o teu olhar para o Oriente, vê a alegria que te vem de Deus" (Br, 4, 36). Este é o objeto que eu gostaria que vocês atentassem bem comigo. Sei que alguns já sabem por experiência quanto é doce e agradável esperar a vinda do Salvador, como os que já têm o coração aquecido pelo amor divino. Estes não precisam das minhas palavras. Quem precisa muito sou eu, que sou frio, e
outros como eu. Que esses rezem muito para que cheguemos a nos persuadir que até os mais miseráveis e desesperados pecadores podem participar com os justos e com os santos nessa espera de tão puro e sublime deleite. Isto à primeira vista parece muito estranho, mas eu procurarei demonstrar.

2. - O que e por quem se espera.
Se nós atentarmos à primeira aparência destes dois termos, isto é QUEM é que se espera, e por QUE se espera, são na verdade mais aptos a gerar em nós um
sentimento de desesperadora tristeza que de confortadora alegria. Quem se espera, realmente é Deus. Aqueles que o esperam somos nós, vermes vis que nos arrastamos sobre a terra, e, o que é pior, cheios de vícios. Que tipo de afinidade podemos encontrar entre o pecado e a Santidade? Entre a iniqüidade e a Justiça? Entre a suma miséria e "Suprema Beatitude? Daí parece que somente os Santos, os justos, os inocentes estão preparados para sentir a alegria da vinda de Cristo: excluídos realmente os pecadores, como os que têm em si muita deformidade e dessemelhança. Mas não é assim. Antes, eu quase diria, que de um certo modo deveria alegrar-se mais os pecadores que os próprios justos.
3. - Os pecadores têm um direito especial de gozar da vinda do Salvador
De fato o Filho de Deus desceu do céu para salvar o que estava perdido; "O Filho de Deus desceu do Céu para salvar o que estava perdido" (Mt 18, 11). Ele mesmo disse que veio para procurar os pecadores e não os justos: "Eu não vim chamar os justos, mas os pecadores" (Mt. 9, 13). O próprio nome que assumiu tornando-se homem - nome anunciado pelo Anjo e solenemente explicado - é Jesus, isto é, Salvador do seu povo dos pecados: "porque ele salvará o seu povo de seus pecados" (Mt 1, 21). Se pois um Rei terreno empreendesse uma longa viagem à mais remota e mísera região do seu domínio, e enviasse aí embaixadores ao homem mais pobre e infeliz dizendo que o Soberano já caminha para honrá-lo com sua visita; se este estivesse também na prisão condenado à morte, e o Rei se locomovesse até o cárcere para visitá-lo pessoalmente, agraciá-lo, abrir com suas mãos as algemas e mudar em glória sua ignomínia e seus grandes males em grandes bens; qual não seria sua alegria nessa tão doce expectativa? Nenhum, nobre, nenhum grande, nenhum rico teria maior alegria que aquele pobre prisioneiro. Assim é o nosso caso. A nós pecadores, oprimidos pela miséria de nossas culpas e presos ignominiosamente na escravidão dos nossos vícios, é dirigida e anunciada uma
iminente visita tão afortunada do Rei supremo dos céus: Ele nos quer livrar com sua graça e nos enriquecer com seus preciosos dons. Devemos pois sentir com maior alegria a aproximação daquele dia tão venturoso, daquele momento tão alegre e, acima de toda imaginação, feliz e faustoso para nós.
Digamos, pois, cada um de nós: Eia, meu pobre coração, alegra-te com a misericórdia do teu Senhor, e ele satisfará teus desejos: "Põe tuas delícias no Senhor, e os desejos do teu coração ele atenderá" (36, 4). E ti, ó Senhor, pus minhas esperanças: "para vós, Senhor, elevo minha alma"). Eu confio em ti, que eu não seja desapontado por ter esperado em ti: "Meu Deus em vos confio, não seja eu
decepcionado!" Mas cumprido o que tu queres que eu espere de ti, meus inimigos deixarão de rir-se de mim e dos meus anseios: "Não escarneçam de mim meus inimigos!" Pois nenhum dos que esperam em ti, ó Senhor, será confundido e escarnecido: "todos os que esperam em ti não serão confundidos" (SI 24, 1 -3).
4. - A nossa miséria é motivo de grandes esperanças
Se bem que de um lado não se pode em verdade negar a deformidade e desigualdade enormes que existem entre nós e Deus, também por outro lado eu quero mostrar que a mesma considerada, mais intimamente, mostra a mais próxima conveniência para unir dois extremos tão disparatados.
De fato, uma suma Bondade, como Deus, inclinado por isso excessivamente a comunicar-se, não pode ter maior proporção que a uma criatura necessitada ao extremo de todos os bens. Para uma imensa misericórdia não há maior adaptação que a uma tão grande miséria. Para uma riquíssima liberalidade não há encontro mais agradável que a uma abjeta e absoluta desolada pobreza.Uma santidade perfeita, que ordena toda suas operações à sua glória como no fim da mais nobre existência, encontra a mais manifesta conveniência para agir, sobre todos os outros, naqueles que não tendo em si senão motivos de confusão e de desprezo, deixam, sem parar um momento, que toda glória retorne ao ponto de partida: segundo o que foi dito: "Todos os rios se dirigem para o mar" (Si 1, 7). Que doce pensamento, e de quanto conforto deve servir para nós! Aquela nossa mesma miséria que tanto nos confundia antes, e quase nos desesperava, agora a vemos transformar em motivo de grandes esperanças. E certamente que se tu, ó Senhor, nos quiser graciosamente enriquecer-nos dos teus preciosos dons, se nos quiser também elevar-nos às honras dos teus mais favorecidos e mais íntimos, não teremos nós de que gloriar-nos em nossos merecimentos e nossas boas disposições; lembrando-nos sempre do nosso pó e do esterco das nossas iniqüidades passadas. Se quisermos nos gloriar, não queremos e não podemos senão em ti. E todos aqueles a quem era conhecida a nossa miséria
todos admirarão tua Sabedoria e teu poder, que sabe atrair o que não existe como o que existe (Rm 4, 17), e escolher as coisas mais abjetas e desprezíveis do mundo para confundir os fortes (1Cor 1, 27).
5. - Diferença entre nosso amor e o de Deus
Quero aqui que advirtais bem uma coisa. Assim como não estamos acostumados a amar senão as coisas em que vemos alguma aparência de beleza ou de bondade, assim vendo não haver em nós senão maldade e feiúra, parece-nos impossível que Deus possa nos amar; e nos parece exagero que o verbo divino, como enamorado apaixonado de nossas almas, desça com os convites mais ternos
e afetuosos a chamá-las às suas castas e espirituais núpcias. Mas toda dificuldade desaparece quando se conhece a diferença que existe entre nosso amor e o de Deus. Nosso amor é causado pelo bem que encontra no objeto que ama: por isso não amamos senão o bem que existe em alguém. O amor
de Deus não é causado pelo bem que existe em nós. Por isso Deus ama também aquilo que não é, para que sejam; ama as almas feias e deformadas pela culpa, para embelezá-las e reformá-las com sua graça.
6. O argumento dos fatos
Mas vamos aos fatos que é um argumento ao qual não se pode responder. Dizei-me: quem foram aqueles grandes santos e receberam as primícias do Espírito na primeira idade da Igreja nascente? Quem eram aqueles mártires invictos, aqueles confessores tão ilustres, aqueles primeiros fervorosos cristãos? Eram gentios, isto é, grandes pecadores, vis escravos das potestades infernais. Adoravam as pedras, os metais, a madeiras: suas vidas e seus costumes eram repletos de confusão. Disse deles o Santo Apóstolo: "Outrora éreis trevas, mas agora sois luz no Senhor" (Ef 5, 8): éreis trevas pelos vícios e superstições, e agora sois luz no Senhor. Como passaram, pois, dos abismos tão profundos do pecado aos cumes tão luminosos da santidade? Veio o Verbo de Deus fazendo-se homem, para fazer da humanidade cega e imunda pelos vícios, uma esposa bela, adornada de virtudes e sem mancha. Foi-lhes anunciada e apareceu-lhes a Graça e a benignidade do nosso Salvador, Cristo. E eis uma mudança prodigiosa digna da direita do Altíssimo. O que será de nós de vida tão desesperada que ao ouvir isto não retome grandes e sumas esperanças de subir, pela graça do Salvador, ainda mais alto que havia profundamente caído pelas suas culpas, se, como aparece do fato daqueles.
primeiros cristãos "onde abundou o pecado, superabundou a Graça" (Rm 5, 20).
7. - Como receber o Redentor
"Agora é o tempo favorável, agora é o dia da salvação que se aproxima" (2 Cor 6, 2). Eu percebo irmãos, que uma doce e alegre esperança já nasceu em seus corações, e agradáveis afetos de satisfação, amor e desejo já comovem seus espíritos. Vocês me deixam perceber que falei suficientemente sobre o propósito por você aprovado "de esperar a feliz chegada do Salvador." Chegou o momento de ver como isso deve ser feito. Eu o farei com uma figura que me oferece a História sagrada. Abraão queria dar uma esposa ao seu filho Isaac. Para isso enviou, um criado à Mesopotâmia. Este querendo resolver satisfatoriamente a obrigação para com seu patrão, e instruído por sinais divinos a respeito do plano de Deus para com Rebeca deu-lhe alguns presentes. Com a anuência da parentela, e depois de mais presentes em ouro e prata, levou consigo a noiva, na volta, ao seu patrão. Ao cair da tarde Isaac saíra para meditar um pouco no campo, quando levantando os olhos viu que chegavam camelos conduzindo Rebeca. Ela também, vendo Isaac, desceu do camelo e sabendo do criado que aquele era seu noivo, imediatamente cobriu seu rosto com o véu, e depois se aproximou dele. Informado de todo o acontecido, Isaac introduziu-a em casa. Aí ratificaram e concluíram as núpcias; e Isaac, depois dispensou à esposa as mais ternas afeições (Gn, 24).
Isaac é a figura do Filho unigênito de Deus, que é o esposo das almas fiéis. O criado enviado para buscar a noite representa os pregadores, que enviados para levar a Palavra de Deus aos povos tornam-se os intermediários dessas felizes núpcias. Por alguns sinais predeterminados por Deus, os pregadores reconhecem ora essa, ora aquela alma escolhida, e representada por Rebeca. A elas insinuam suaves desejos de converter-se a Cristo e unir-se a Ele por meio da Graça; e dão ricos presentes de misericórdia e de amor em Seu nome, até que ela consinta plenamente, seguindo a pregação, de ir até Cristo. Então, conduzem a esposa com alegria ao seu Senhor. Mas o que quer dizer: Isaac saiu para meditar à tarde, e que foi ao encontro de Rebeca? Que o Filho de Deus veio ao mundo, como disse o Profeta: Saíste ao encontro do teu povo para salvá-lo (Hab 3, 13); como também o Salmista: minhas mãos estendidas sejam como a oferenda da tarde (SI 140, 2). Pois não satisfeito de enviar profetas e pregadores. Ele mesmo veio pessoalmente ao encontro daquelas
almas que consentem em unir-se a Ele pela graça.
8. - Vamos com alegria ao encontro de Cristo
Espero, ou melhor, tenho certeza, de que tudo isto hoje se tenha completado em nós. Pois já vejo suas almas, não somente desejosas, mas resolvidas a atender o convite da minha pregação e prontas a irem comigo, com alegria, ao encontro de Cristo, que nesses dias, por sua vez vem ao nosso encontro. Agora somente resta que se concretize em vocês também os últimos pormenores dessa alegoria.
De fato, apenas Receba viu Isaac, desceu do seu camelo. E isto significa que a alma, sequiosa corre para Cristo quando Ele se aproxima. Aumentando seu conhecimento, deve unir aos bons desejos o propósito, ou melhor, a ação eficaz de abandonar realmente sua vida irregular e os soberbos pensamentos mundanos, que é o descer do camelo. Além disso, como Rebeca cobriu seu rosto diante de Isaac, assim a alma diante de Cristo deve envergonhar-se de sua vida passada, dos seus pecados,
confessando-os humilde e dolorosamente. Que o Senhor nosso Jesus Cristo nos dê a graça, a mim e a vocês, de que isto realmente se realize. E assim recolhidas nossas almas por esse novo Isaac em sua casa, digne-se Ele juntá-las e uni-las a si, pela graça nesta vida e pela glória na outra. Possamos aqui na terra e lá no céu ser felizes e, juntos, louvar a misericórdia daquele que com o Pai e o Espírito Santo é amor desde toda a eternidade.


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