quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

Nosso Senhor e o vínculo do amor - Santo Afonso Maria de Ligório

     Regozijai-vos, pois, almas fiéis, que amais a Deus e que esperais nele; regozijai-vos. Se é grande o dano que nos veio do pecado de Adão e sobretudo dos nossos pecados, Jesus Cristo o compensou com usura resgatando-nos: Onde abundou o pecado, diz o apóstolo, superabundou a graça. “Pela graça de nosso Redentor, diz S. Leão, ganhamos mais do que perdemos pela malícia do demônio”. E Isaías havia predito que, por meio de Jesus Cristo, o homem receberia de Deus benefícios superiores aos castigos devidos aos seus pecados. Essa é a interpretação de Adão, citado por Cornélio a Lápide. Também Nosso Senhor disse: Eu vim proporcionar ao homem uma vida mais abundante e melhor do que aquela da qual o pecado o havia despojado. O dom de Deus excedeu o pecado (Rm 5,15), escreveu o apóstolo. Isto é: grande foi o pecado do homem; porém maior é o benefício da redenção, a qual, diz igualmente o Salmista, não é somente um remédio suficiente, mas ainda superabundante. O sacrifício da vida do Homem-Deus excede imensamente todas as dívidas dos pecadores, como se exprime S. Anselmo. Eis porque a Santa Igreja chama feliz a culpa de Adão: Feliz culpa que nos valeu um tal e tão grande Redentor! É verdade que o pecado obscureceu nosso espírito relativamente ao conhecimento das verdades eternas, e introduziu em nossa alma a concupiscência, essa tendência para os bens sensíveis e proibidos pela lei de Deus.
      Mas, devido aos méritos de Jesus Cristo, que poderosos meios temos para adquirir as luzes e as forças de que temos necessidade a fim de vencer todos os nossos inimigos e praticar todas as virtudes! Os sacramentos, o sacrifício da missa, a oração apoiada nos méritos do divino Salvador, oh! que armas para triunfar de todas as tentações! Que força podemos tirar delas para correr, para voar no caminho da perfeição! É certo que com esses mesmos meios que são dados a todos nós, se santificaram todos os Santos da nova lei. A culpa é pois nossa se deles não tirarmos proveito.
    E quantas ações de graças não devemos dar a Deus por nos ter feito nascer depois da vinda do Messias! Que acréscimo de bens não temos recebido vindo ao mundo após a redenção operada por Jesus Cristo! Abraão, os patriarcas e os profetas quanto não desejaram ver aparecer o Redentor que esperavam! E eles não o viram! Violentaram, por assim dizer, o céu com seus suspiros e súplicas: Ó céus, exclamavam, deixai cair o vosso orvalho e enviai-nos o Justo (Is 45,8), para aplacar a cólera de Deus, que nós não podemos aplacar, nós que somos pecadores. Senhor, enviai-nos o Cordeiro dominador da terra (Is 16,1), o Cordeiro sem mancha que, imolando-se, satisfará por nós a vossa justiça, e assim reinará sobre os corações dos homens, que vivem miseravelmente sob a escravidão do demônio. Senhor, mostrai-nos a vossa misericórdia, e dai-nos o Salvador que prometestes (Sl 84,8). Apressai-vos, ó Deus de bondade! apressai-vos a fazer brilhar sobre nós a vossa misericórdia, concedendo-nos o objeto principal de vossas promessas, Aquele que nos deve salvar. Esses eram os gritos e os suspiros dos Santos antes da vinda do Messias, e apesar disso foram privados, durante o espaço de quatro mil anos, da felicidade de o ver nascer. Nós, sim, tivemos essa ventura. Mas que fazemos? Como sabemos tirar proveito? Ah! saibamos amar esse amável Redentor, agora que Ele já veio, nos livrou das mãos de nossos inimigos, nos resgatou a custo de sua vida da morte eterna que temos merecido, nos abriu o céu, nos deu tantos sacramentos e tantos outros meios para o servirmos e amarmos em paz nesta vida, e para depois o possuirmos na eternidade! “Ó minha alma, diz S. Ambrósio, serias muito ingrata se não amasses a teu Deus que quis ser envolvido em paninhos para ter livrar das cadeias do inferno, que se fez pobre para te comunicar suas riquezas, que se tornou fraco para te fortalecer contra teus inimigos, que quis sofrer e chorar para lavar teus pecados com sus lágrimas!
     Mas, ó Deus, quão poucos foram os que, tocados de reconhecimento por tanto amor, tem amado fielmente seu Redentor! Que digo? Após tanta misericórdia e amor, a maior parte dos homens tem ousado dizer a Deus: Senhor, não vos queremos servir; queremos antes ser escravos do demônio e condenados ao inferno do que ser vossos servos. — É o Senhor mesmo que lhes exprobra essa ingratidão e esses ultrajes: Rompestes os meus laços e dissestes: Não vos serviremos (Jr 2,20).
     Que dizes, meu irmão, qual tem sido a tua conduta? Não és do número desses infelizes? Mas, dize-me: vivendo longe de Deus e sob o jugo do demônio, tens estado contente? Tens achado a paz? Ah! não pode falhar a palavra do Senhor: Porque não serviste ao Senhor teu Deus com gosto, servirás a teu inimigo na fome, na sede, na nudez e numa extrema miséria (Dt 28,47). Vê pois como te tem tratado esse tirano cujo jugo preferiste ao de teu Deus. Ele te fez gemer nas cadeias da escravidão, na pobreza, na aflição, na privação de toda a consolação interior.
     Mas levanta-te, fala-te Deus, agora que ainda é possível desfazer-te dessas cadeias de morte que te prendem. Desata as cadeias do teu pescoço, cativa, filha de Sião (Is 52,2). Depressa enquanto é tempo, rompe teus laços, pobre alma, que voluntariamente te tornaste escrava do inferno; quebra esses horríveis nós que te retém para arrastar-te ao suplício eterno, e vem a mim; deixa-te prender por minhas preciosas cadeias, que são cadeias de amor, cadeias de paz, cadeias de salvação (Eclo 6,31).
     Mas de que modo se ligam as almas a Deus? Pelo amor, que o apóstolo chama vínculo perfeito (Cl 3,14). Enquanto a alma se contenta com andar pelo caminho do temor servil e só se abstém do pecado por medo dos castigos, está sempre em grande perigo de recair. Mas quem se prende a Deus pelo amor, está certo de que o não perder jamais enquanto não cessar de amá-lo. Eis por que é preciso pedir sem cessar a Deus o dom de seu santo amor e repetir continuamente esta prece: Senhor, conservai-me preso a vós; não permitais me separe jamais de vós e do vosso amor. Quanto ao temor, o que devemos mais desejar e pedir a Deus, é o temor filial, o de desgostar o nosso bom Senhor e Pai.
     Recorramos também a nossa Mãe. Peçamos sempre à SS. Virgem Maria nos obtenha a graça de amarmos só a Deus, e de nos prender de tal forma a seu divino Filho pelos laços do amor, que o pecado nos não possa mais separar dele.



Santo Afonso Maria de Ligório - Vida, encarnação e infância de Nosso Senhor Jesus

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