terça-feira, 1 de dezembro de 2015

O Divino Infante - Santo Afonso Maria de Ligório

     Se amamos a Jesus Cristo, devemos amar o nosso próximo, mesmo os que nos ofenderam. O Messias foi chamado, por Isaías, o pai do século futuro. Ora, para sermos filhos dum tal Pai, devemos amar os nossos inimigos e fazer bem aos que nos fazem mal. É o Senhor mesmo quem nos declarou: Amai os vossos inimigos, fazei bem aos que nos fazem mal. É o Senhor mesmo quem nos declarou: Amai os vossos inimigos, fazei bem aos que vos odeiam..., para serdes filhos do vosso Pai. Ele mesmo, aliás, deu-nos o exemplo dessa caridade quando pediu a seu Pai celeste perdoasse aos que o crucificavam.      Quem perdoa a seu inimigo, diz S. João Crisóstomo,  não pode deixar de obter o perdão de seus próprios pecados. Isso até nos é garantido por uma promessa divina: Perdoai, e vos será perdoado. — Um religioso que aliás não levara vida muito exemplar, deplorava seus pecados na hora da morte, mas com muita confiança e alegria, pois dizia que jamais havia tomando vingança. Ele queria dizer: É verdade que ofendi a Deus; mas o Senhor prometeu perdoar aos que perdoam a seus inimigos; eu sempre perdoei aos que me ofenderam, devo pois estar seguro de que Deus perdoará também a mim.
     E falando em geral do que concerne a todos, como podemos recear não obter o perdão de nossos pecados, quando pensamos em Jesus Cristo? Não foi para reconciliar os pecadores com Deus que o Verbo Eterno se humilhou ao ponto de revestir-se da natureza humana? Não vim chamar os justos, disse ele, mas os pecadores. Digamos-lhe pois com S. Bernardo: “Sim, Senhor, abaixando-vos assim por nós, mostrastes até onde se estendeu a vossa misericórdia e a vossa caridade par conosco”. E tenhamos confiança, como nos exorta S. Tomás de Vilanova com as palavras: “Que temes, pecador? se te arrependeres de teus pecados, como te condenará aquele Senhor que morre para não te condenar? E se queres voltar novamente à sua amizade, como te repelirá aquele que veio do céu para te procurar?”
     Não tema pois o pecador que não quer mais ser pecador, mas quer amar a Jesus Cristo; não se apavore mas confie. Se detesta o pecado e procura a Deus, longe de se afligir, alegrese, como a isso o convida o Salmista. O Senhor protesta que quer esquecer-se de todas as ofensas dum pecador que se arrepende: Se o ímpio fizer penitência, já me não recordarei de todas as suas iniqüidades. E para nos inspirar ainda mais confiança, nosso divino Salvador se fez menino. “Quem temeria aproximar-se duma criança?” pergunta S. Tomás de Vilanova. As crianças nada têm de terrível, respiram só doçura e amor.

     As crianças, diz S. Pedro Crisólogo, não sabem encolerizar-se; se lhes acontece irritarem-se, facilmente se acalmam. E de fato, basta apresentar às crianças uma fruta, uma flor, fazerlhes uma carícia, dizer-lhes uma palavra afetuosa. Perdoam logo e esquecem todas as ofensas a elas feitas.
     Também, acrescenta S. Tomás de Vilanova, uma lágrima, um sentimento de arrependimento basta para aplacar o Menino Jesus. Vamos pois lançar-nos a seus pés, conclui ele, agora que esse bondoso Mestre depôs sua Majestade divina e se oferece a nós sob a forma duma criança para dar-nos coragem e nos atrair a ele.
      S. Boaventura diz igualmente que o Filho de Deus se apresenta aos nossos olhos como uma criança cheia de doçura e misericórdia, para nos liberar do medo que nos poderia causar o pensamento de seu poder e justiça. Ó Deus de misericórdia, ajunta Gerson, ocultastes vossa sabedoria suprema sob as aparências duma criancinha a fim que ela nos não acuse de nossos pecados! Ocultastes a vossa justiça no abaixamento a fim que ela nos não condene! Ocultastes o vosso poder na fraqueza a fim de que ela nos não puna!
      S. Bernardo por sua vez faz esta reflexão: Quando Adão pecou, ouviu a voz de Deus, que o chamava dizendo: Adão, onde estás? e ficou tomado de pavor: Ouvi a vossa voz, respondeu e tive medo. Mas o Verbo Eterno, aparecendo sobre a terra como homem, nada mais tem que inspire temor. Por isso o Santo exorta-nos a banirmos dos corações todo sentimento de temor: “O vosso Deus, diz ele, desta vez procura-vos não para vos punir mas para vos salvar”. O Deus que devia punir-te fez-se menino; a sua voz já te não espanta, porque a voz dum menino pequeno, sendo voz de prantos, inspira antes compaixão do que temor; não podes já temer que Jesus Cristo estenda as mãos para castigar-te, pois que sua terna Mãe as retém e encerra em paninhos.
      Alegrai-vos, pois, ó pecadores, exclama S. Leão: o nascimento de Jesus é a aurora de alegria e de paz. — Ele é chamado por Isaías o Príncipe da paz. Jesus é Príncipe, não de vingança contra os pecadores, mas de misericórdia e de paz: constituiu-se Mediador de paz entre Deus e os pecadores. Se não podemos pagar a justiça divina, diz S. Agostinho, o Pai Eterno não pode desprezar o sangue de Jesus Cristo, que satisfaz por nós.
      O célebre duque Afonso de Albuquerque, transpondo os mares, viu um dia o seu navio no risco de dar contra os escolhos. Julgava-se já perdido, quando, percebendo uma criança que chorava, a tomou nos braços e erguendo-a para o céu exclamou: “Senhor, se eu não mereço ser atendido, atendei ao menos os prantos desta criança inocente, e salvai-nos”. Terminada a prece, a tempestade acalmou-se e desapareceu o perigo. — Sugamos esse exemplo, nós, miseráveis pecadores.
    Temos ofendido a Deus; merecemos ser condenados à morte eterna; com razão quer a justiça divina ser satisfeita. Que temos a fazer? Desesperar? Oh! não: ofereçamos a Deus essa terna criancinha que é o seu Filho, e digamos-lhe com confian- ça, se não podemos expiar as ofensas que vos temos feito, lançai os olhos sobre o divino Infante, que geme, que chora, que treme de frio sobre a palha nesta gruta; Ele satisfaz por nós e vos pede misericórdia. Se não merecemos o perdão dos nossos pecados, considerai os sofrimentos e as lágrimas do vosso Filho inocente, que o merece por nós e vos pede misericórdia.
      Esse meio de salvação é precisamente o que S. Anselmo nos indica. Ele diz que Jesus mesmo, querendo nos não ver perdidos, encoraja a quem se acha réu diante de Deus nestes termos: “Pecador, toma ânimo; se tuas iniqüidades já te fizeram escravo do inferno e não tens meio de te livrares dele, tomame, oferece-me a meu Pai; assim escaparás à morte e te salvarás. Será possível imaginar-se maior misericórdia?” pergunta o Santo Doutor. A Mãe de Deus ensinou o mesmo à Irmã Francisca Farnese. Colocou-lhe nos braços o Menino Jesus e disselhe: “Eis o meu Filho; aproveita-te dele oferecendo-o muitas vezes a Deus”.
      E se quisermos estar ainda mais seguros do perdão, reclamemos a intercessão dessa augusta Mãe, que é todo poderosa junto de seu divino Filho para obter o perdão aos pecadores, como ensina S. João Damasceno. E como razão, porque, segundo S. Antonino, as preces de Maria junto dum Filho que tanto a quer e deseja vê-la honrada, têm o valor de ordens. É isso que faz dizer a S. Pedro Damião, que quando a SS. Virgem vai pedir a N. Senhor em favor de algum de seus servos, ela parece antes mandar que pedir: “Vós vos aproximais do trono de Jesus, não só para lhe suplicar, mas para em certo sentido lhe dar ordens, e antes como Rainha do que como serva, porque, para honrar-vos, o vosso Filho nada do que lhes pedis vos recusa”. Também S. Germano ajunta que Maria, em virtude da autoridade materna que exerce, ou, para melhor dizer, que exercera outrora sobre a terra a respeito de seu divino Filho, pode impetrar o perdão aos maiores pecadores.



Santo Afonso Maria de Ligório - Encarnação, nascimento e vida de Jesus.

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