quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

O Matrimônio - Carta Pastoral Mons. Marcel Lefebvre

      Já se passaram quase 20 anos desde que o nosso Santo Padre, o Papa Pio XI, escreveu em sua memorável Encíclica Casti Connubi estas palavras:

      “Não é mais clandestinamente, ou no escuro, mas também em público, deposto todo o senso de pudor, tanto por viva voz quanto por escrito, como nas performances de todos os tipos, e por meio de romances, contos e comédias, cinema, rádio, enfim, em todas as invenções da ciência moderna, que se viola e ridiculariza a santidade do casamento, enquanto os divórcios, o adultério e os vícios mais torpes são exaltados ou pelo menos pintados com tais cores que aparecem livres de toda a culpa e vergonha (…). Essas doutrinas são incutidas em todos os tipos de homens, ricos e pobres, trabalhadores e empregadores, instruídos e ignorantes, solteiros e casados, fiéis e ímpios, adultos e jovens, sendo estes, principalmente, mais fáceis de seduzir, a quem colocam os piores ardis”.
      E o Papa Pio XI, acrescentava: “Nós, portanto, a quem o Pai de família pôs para a custódia de seu campo, a quem urge o ofício sacrossanto de garantir que a boa semente não seja sufocada por ervas daninhas, Nós julgamos como dirigidas pelo Espírito Santo aquelas palavras terríveis com que o apóstolo Paulo exortou seu amado Timóteo: “Tu, porém, vigia, cumpre o teu ministério, prega, insta oportuna e importunamente, argumenta, suplica, repreende com toda a paciência e doutrina”.
       Queridos irmãos, nós acreditamos hoje um dever fazer nossas estas palavras. Não passam semanas, se não dias, que não tenhamos que deplorar o espetáculo dos lares desfeitos, casamentos desfeitos, cuja separação é mais definitiva por causa de outras uniões adúlteras, ou que não tenhamos que provar a ilegitimidade das uniões que se podiam acreditar regulares. Quantos dramas de consciência, quantas dores morais escondidas!

       Porém, mais grave é a constatação de uma ignorância inconcebível sobre as obrigações do matrimônio, como se esta união só dependesse da vontade humana, e como se os direitos e obrigações que dela decorrem não existissem senão na medida em que cônjuges os desejem. Ou, se conhecem as leis que regem o casamento, não compreendem o rigor e, frente a muitos exemplos de pessoas que violam tais leis, não entendem que a liberdade não é aceita pela Igreja como mais consistente com o espírito moderno.
      Quantas vezes, durante o questionário detalhando sobre as obrigações do casamento, ouvimos reflexões que testemunham ignorância incrível de tudo o que este contrato tem de sério e sagrado.
      Não é raro encontrar, mesmo entre aqueles que ainda têm, graças a Deus, uma ideia clara da importância e santidade do matrimônio, uma indulgência, ou mais exatamente uma tolerância benevolente para com as separações e para com as uniões livres, que não deixam de ser um verdadeiro escândalo, especialmente para a juventude.
       Com a presença de filmes e performances que oferecem tudo o que é contrário à moral e à santidade do casamento, acaba se acostumando com tudo o que teria de ser considerado como um objeto de censura.
       Até mesmo em alguns lares católicos as conversas sobre estes temas são frequentes e não revelam qualquer desaprovação, com grande prejuízo para os jovens que escutam. Não se teme introduzir revistas ou romances em casa onde o casamento estável, infalível, é ridicularizado em favor da união egoísta e fugaz.
     Esse acostumar-se dos âmbitos católicos ​​às ideias falsas espalhadas pelos não católicos é gravemente prejudicial para a santidade do casamento.
      Quantos lares seriam mais dignos, mais unidos, mais apaziguados, se o marido procurasse uma recreação saudável, em vez de ser dado a beber, se as mulheres fossem mais modestas do que entregues a vaidades. Frente estas verificações, queridos irmãos, pensamos que era urgente lembrá-los brevemente sobre os eternos princípios que regem o casamento, indicando especialmente a sua origem e as suas propriedades essenciais.


1) O matrimônio é de origem humana ou divina?

       "O Matrimônio - disse nosso Santo Padre Pio XI - não foi instituído nem instaurado por obra de homens, e sim por obra divina. Não foi protegido, confirmado, nem elevado com leis humanas, sim com leis do próprio Deus, autor da natureza, e de seu restaurador, Nosso Senhor Jesus Cristo. Por tanto, suas leis não podem estar sujeitas ao arbítrio de nenhum homem, nem sequer um acordo contrário com os próprios conjugues (...) Mas, embora o matrimônio seja de origem divina por sua natureza, contudo, a vontade humana tem também a sua parte, e por certo nobilíssima, porque todo matrimônio, enquanto que é união conjugal entre um determinado homem e uma determinada mulher, não se realiza sem o consentimento de ambos esposos (...) É certo que esta liberdade não dá mais atribuições aos conjugues que a determinação de contrair ou não matrimônio e se o querem com tal pessoa; mas a natureza do matrimônio está absolutamente subtraída à liberdade do homem, de modo que, desde que alguém o tenha contraído, se encontra sujeito às suas leis divinas e às suas propriedades essenciais."
      Deste modo, a união santa do matrimônio verdadeiro está constituída em seu conjunto da vontade divina e  pela vontade humana. De Deus vem a instuição do matrimônio, seus fins, suas leis, seus vínculos; os homens são autores particulares e quando estão ligados aos deveres e bens estabelecidos por Deus.
     Tal é a verdadeira origem do matrimônio como Deus tem querido desde toda a eternidade. Tudo o os homens podem dizer ou escrever sobre este assunto não vai mudar nada a essas verdades ensinadas pela Igreja.

2) Quais são as propriedades do matrimônio?

      No sentido comum, que a expressão da verdadeira sabedoria, as Sagradas Escrituras com a Tradição, nos ensinam que são duas: a unidade a indissolubilidade
      Estas duas propriedades, que descartam por uma parte a presença de uma terceira pessoa no matrimônio, e por outra parte a possibilidade de romper o vínculo estabelecido por um contrato concluído entre os dois conjugues, encontram sua profunda raíz na natureza humana estabelecida por Deus. A natureza do contrato matrimonial, que é de constituir uma sociedade familiar pela  presença dos filhos, exige absolutamente a unidade e a estabilidade perfeita do matrimônio.
      "A fidelidade conjugal e a procriação dos filhos - disse Santo Tomás - estão implicados pelo mesmo consentimento conjugal, e em consequência, no consentimento que constitui o matrimônio, se formulasse uma condição que lhe fosse contrária, não haveria verdadeiro matrimônio."
      A união conjugal une em todo um acordo íntimo; as almas mais estreitamente que os seus corpos.
      O matrimônio contraído por duas almas que se dão uma a outra tendo como perspectiva a eventualidade de uma separação, é uma mentira insolente dado as mais nobres inspirações que o coração humano oferece neste evento solene; é uma contradição levada ao mais íntimo de dois corações que se unem. 
      Dizer contradição não é o bastante; os pretendentes que não se destinam a ser irrevogavelmente acorrentados, não é outra coisa e não se pode chamar de outra maneira que covardes necessidades do egoísmo.
     Admitir em um contrato matrimonial que se pode quebrar o vínculo, não é só contrário a natureza da sociedade conjugal, contrário a natureza humana, mas também e sobretudo, contrário ao fim mesmo do matrimônio, da sociedade humana.
     O que sucederá, em efeito, com os filhos, esses seres divididos, mas tristes que os órfãos, que tiram do afeto de sua mão o ódio para com seu pai, e que aprendem de seu pai a maldizer a sua mãe?        Pode conceber-se um contrato de matrimônio que admita a perspectiva de uma semente de dissociação da família e que venha pesar sobre os filhos a ameaça de uma existência ferida para sempre em seus mais profundos afetos?
     A união querida, consentida, de dois seres humanos dotados de inteligência e da vontade para um fim como o matrimônio, que consiste em um dom mutuo com o desejo de constituir uma família, não pode ser provisório.
      Iluminados sobre a gravidade do contrato matrimonial pelas luzes da razão, como estranhar que     Nosso Senhor tenha feito desse mesmo consentimento um sinal sagrado, fonte abundante de graças, um verdadeiro sacramento, cujos ministros são os próprios conjugues?
      Por sua graça, por sua virtude toda-poderosa, Nosso Senhor dá a esse ato solene a nobreza, a elevação que estava na origem. Quando Nosso Senhor deu sua verdadeira perfeição ao matrimônio, quando lhe confiou uma graça particular, renovou o fundamento da sociedade. De corrupta, de dissoluta que era, a elevou e purificou. 
      "O que Deus uniu - proclama Nosso Senhor Jesus Cristo - o homem não separe". "Todo homem que repudia a sua mulher e se casa com outra, comete adultério; e o que se casa com uma repudiada, comete adultério." Estas palavras não deixam nenhuma dúvida sobre a estabilidade necessária do matrimônio.
      A Santa Igreja sempre tem sido fiel a estas afirmações de Nosso Senhor, e sua fé nunca foi alterada, inclusive sobre o preço dos cismas mais graves.
     O Concílio de Trento afirma: "Se alguém dissesse que, por causa de heresia ou por coabitação molesta ou por culpável ausência do conjugue, o vínculo do matrimônio pode dissolver-se, seja anátema."
      E todavia "Se alguém dissesse que a Igreja erra quando ensinou e quando ensina que, conforme a doutrina evangélica e apostólica, não se pode desatar o vínculo do matrimônio por razão de adultério, pode contrair novo matrimônio mesmo estando vivo o outro conjugue, e que adulterar ou mesmo repudiar a adúltera se casa com outra, como a que depois de repudiar o adúltero se casa com outro, seja anátema."
      Quanto devemos agradecer a Igreja por manter através de sua doutrina uma muralha intransitável aos assaltos daqueles que querem arruinar com a família e a sociedade! Única guardiã da verdade, tem conservado nas casas uma base inquebrantável. Esta é uma prova evidente da santidade e da permanência da Igreja.
     A todos estes ensinamentos da razão, das Sagradas Escrituras e da Tradição, poderíamos agregar as provas da experiência. Desde que a lei ímpia votada em 1884 na França ofereceu a ilusão de uma   legalidade as separações, estas tem se multiplicado a um ritmo sempre crescente, e com elas todas as consequências da imoralidade, de qual podem testemunhar com abundância nos tribunais.
     Porém mais do que deplorar os afetos demasiados conhecidos dão esquecimento a santidade do matrimônio, consideremos agora que devemos fazer para restituir toda a sua dignidade.
      Primeiro temos que meditar nos desígnios de Deus sobre o matrimônio. Criador e Governador do Universo, Deus não faz nada sem razão, e a toda criatura lhe tem dado leis escritas na mesma natureza com que a dotou.
     "Para que se obtenha a restauração universal e permanente do matrimônio - disse Nosso Santo Padre o Papa Pio XI - , é de uma maior importância que se instrua bem sobre o mesmo aos fiéis, e isto oralmente e por escrito, não raramente e superficialmente, e sim frequentemente e com solidez, com razões profundas e claras (...) Que saibam e meditem com frequência e com grande sabedoria, sobre a santidade e bondade que mostrou Deus fazer aos homens, tanto ao instituir o matrimônio, como a protegê-lo com as leis sagradas; e muito mais elevá-lo a admirável dignidade de sacramento."
      Porém, de que serviria este conhecimento do matrimônio, se os pais cristãos não preservassem seus filhos de tudo aquilo que pode destruir neles uma elevada e santa ideia da união de seu pai e mãe?
Sobre este ponto, quantos erros ainda circulam entre todas as áreas cristãs! Se defendem novos métodos, no sentido que se julga bom e familiar a criança com a ideia do vício a fim de preservá-lo com maior seguridade. Porém, se injetam vacinas para adultos em organismos jovens? Isto causa nessas almas muito impressionáveis um grave escândalo, muitas vezes irreparável.
       Sobre a preparação próxima do matrimônio, disse uma vez mais Pio XI:""Pertence de uma forma especial a eleição dos cônjuges, porque disso depende em grande parte a felicidade do futuro matrimônio. (...) Para que não padeçam as consequências de uma imprudente eleição, deliberem seriamente os que desejam se casar antes de eleger a pessoa com a que vão conviver para sempre, e nessa deliberação tenham presentes as consequências que se derivam, na ordem em primeiro lugar, à verdadeira religião de Cristo, e ademais em ordem a si mesmo, ao outro cônjuge, a futura prole e à sociedade humana e civil. Implorem com assiduidade o auxílio divino, para que elejam, segundo a prudência cristã, não levados pelo ímpeto cego e sem freio da paixão, nem somente por razões de lucro ou por motivos menos nobres, senão guiados por um amor reto e verdadeiro e por um afeto leal rumo ao futuro cônjuge, procurando ademais no matrimônio aqueles fins pelo que Deus instituiu. Não deixem, finalmente, de pedir para a dita eleição o prudente e tão estimável conselho de seus pais."
       Porém todas as preparações, toda a ciência do matrimônio e do matrimônio cristão não terão eficácia para manter unida em sua santidade e fidelidade, se os esposos não se alimentarem do Pão dos castos, o Pão dos fortes. A Eucaristia, estabelece o equilíbrio e a sensibilidade, temperando o fogo devorador de nossos desejos, diminuindo o absolutismo de sua tirania, aumentando o império da razão, de tal maneira que, como disse São Paulo, "A vida de Jesus Cristo se manifeste em nossos corpos."

      Em união com Nosso Senhor Jesus Cristo, e na atmosfera da Sagrada Família, é onde os esposos encontram o segredo de uma união estável e feliz, praticam o apoio mútuo e assistência todos os dias, oferecem a seus filhos e a sociedade um exemplo de uma vida na qual o corpo está submisso a razão, a razão a alma, e a alma a Deus, cumprimento neles, pela graça de Jesus Cristo, os desígnios de Deus sobre a humanidade.

      Que possam repetir esta frase de São Paulo: "Que o Senhor me vista de um homem novo, criado segundo Deus na justiça e santidade da verdade", esperando o dia em que sua união, que haverá crescido com os anos, encontre em Deus seu pleno desenvolvimento pela eternidade.



Carta Pastoral,
Dakar,11 de fevereiro de 1950

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