domingo, 6 de dezembro de 2015

O Verbo Eterno, de forte se fez fraco. - Santo Afonso Maria de Ligório

Dicite pusillanimis: Confortamini et nolite timere... Deus ipse veniet, et salvabit vos. Dizei aos pusilânimes: Confortai-vos e não temais; Deus mesmo virá e vos salvará (Is 85,4).

     Falando Isaías da vinda do Messias, predisse: A terra deserta e sem caminho se alegrará e florescerá como o lírio. O profeta falava assim dos pagãos, em cujo número estavam os nossos antepassados: a terra dos gentios em que viviam, era como deserta porque não povoada por homens que conheciam e adoravam o verdadeiro Deus, mas só por escravos do demô- nio; era uma terra deserta e sem caminho, porque esses infelizes ignoravam o caminho da salvação. Essa terra tão triste ia pois alegrar-se com a vinda do Messias, vendo-se coberta de servos do verdadeiro Deus, cuja graça os devia fazer fortes contra todos os inimigos de sua salvação; enfim, essa terra iria florescer como o lírio pela pureza de costumes e pelo bom odor das virtudes. É por isso que o profeta ajunta: Tomai ânimo e não temais; Deus mesmo virá e vos salvará. — Essa predição cumpriu-se já; seja-me pois permitido exclamar com júbilo: Alegrai-vos, filhos de Adão, alegrai-vos e não sejais pusilânimes se vos julgais demasiado fracos contra tantos inimigos: Não temais... Deus mesmo virá e vos salvará, dizia Isaías. Ele veio, Deus mesmo veio à terra e vos salvou dando-vos a força necessária para combater e vencer todos os inimigos de vossa salvação. Mas como nosso Redentor nos proporcionou essa força? — De forte e de todo-poderoso se fez fraco. Tomou sobre si nossa fraqueza, e assim nos comunicou sua força. — É isso que vamos considerar depois de pedirmos a Jesus e Maria que nos iluminem.
     Deus é forte, e o único que se pode dizer forte porque é a força mesma, e toda a força vem dele, como Ele o declara pela boca do Sábio: Minha é a força; é por mim que os reis reinam. Deus é poderoso; pode tudo o que quer, e o pode com facilidade; basta um ato de sua vontade: O céu e a terra são obra de vossa onipotência... nada vos é difícil. Com um aceno criou do nada o céu e a terra: Ele disse e tudo foi feito. E se quisesse, com um outro aceno, poderia aniquilar o universo. Sabemos que, quando quis, destruiu num instante cinco cidades inteiras com o fogo do céu. Sabemos que, noutra ocasião, sepultou toa a terra nas águas do dilúvio e fez perecer todo o gênero humano, exceto oito pessoas. Numa palavra Deus é todo-poderoso. Senhor, exclamava Salomão, quem poderia resistir à força do vosso braço?
     Daí se vê quão grande é a temeridade do pecador, que ousa revoltar-se contra Deus, levando a audácia, como diz Jó, ao ponto de levantar sua mão contra o Todo-poderoso. Que pensaríamos nós da temeridade duma formiga que ousasse provocar um soldado? porém, bem mais temerário é o homem que ousa afrontar seu Criador, desprezar seus mandamentos, menosprezar suas ameaças, vilipendiar sua graça, e declararse seu inimigo.
     É a esses homens temerários e ingratos que o Filho de Deus veio salvar; para isso ele mesmo se fez homem, e a fim de reconciliá-los com Deus, tomou sobre si as penas que lhes eram devidas. E vendo-os enfraquecidos pela chaga do pecado e impotentes para resistir a seus inimigos, que fez o Verbo eterno? de forte e de todo-poderoso, se fez fraco; revestiu-se da fraqueza corporal natural aos homens, a fim de lhes merecer a força espiritual de que necessitavam para reprimir os assaltos da carne e do inferno. E ei-lo feito menino necessitado de leite para sustentar-se a vida; e tão fraco ao ponto de não poder sustentar-se a si mesmo nem de se mover.
     O Filho de Deus, vindo à terra e tomando a natureza humana, quis ocultar a sua força: Quando pois veio ao mundo revestir-se da nossa carne, o Filho de Deus quis ocultar o seu poder: Deus virá do meio-dia, disse Habacuc... sua força é oculta. E S. Agostinho: Achamos em Jesus Cristo o forte e o fraco: o forte, porque criou o universo; o fraco, porque se tornou semelhante a nós. Ora, continua o Santo Doutor, o forte quis fazer-se fraco, a fim de remediar por sua fraqueza à nossa enfermidade, e de operar assim a nossa salvação. Eis por que, acrescenta, o Salvador dirigindo-se a Jerusalém, se comparou à galinha: Quantas vezes eu quis juntar teus filhos, como a galinha recolhe debaixo das asas os seus pintos, e tu não quiseste. Segundo a observação de S. Agostinho, a galinha se faz fraca com os pintainhos que cria; e com esse sinal se á a conhecer por mãe; assim fez o nosso amoroso Redentor: a fraqueza de que se revestiu no-lo fez reconhecer por pai e mãe da pobre e débil humanidade.
      Eis pois Aquele que governa os céus, diz S. Cirilo, ei-lo envolto em paninhos sem mesmo poder estender os braços. Considerai-o na viagem que é obrigado a fazer ao Egito por ordem de seu Pai celeste: Ele quer obedecer, mas não poder caminhar; é preciso que Maria e José, revezando-se, o levem nos braços. E ao voltar desse exílio, como observa S. Boaventura, Ele precisa parar muitas vezes no caminho para descansar; pois o divino Infante já demasiado grande para ser carregado, era ainda demasiado pequeno e fraco para caminhar muito tempo.
     Ei-lo agora na humilde oficina de Nazaré, onde, um tanto já crescido, se entrega ao trabalho e se esforça por ajudar a S. José no ofício de carpinteiro. Ah! contemplando atentamente esse belo adolescente, que se fatiga e quase perde o fôlego sob o peso da madeira bruta, quem poderia não exclamar: Mas vós, amável jovem, não sois o Deus que com um aceno tirou o mundo do nada? como pois tendes agora de suar o dia inteiro para trabalhar essa madeira sem todavia conseguirdes terminar o serviço? quem vos fez tão fraco? — Ó santa fé! ó amor dum Deus! esse pensamento, se dele nos penetrássemos bem, deveria não só inflamar-nos, mas ainda, por assim dizer, consumir-nos de amor! Eis até onde chegou um Deus! e por que? para se fazer amar dos homens.
     No fim de sua vida, ei-lo no jardim das Oliveiras carregado de cadeias de que não pode desvencilhar-se, depois atado à coluna no pretório para ser flagelado. Ei-lo que se avança, a cruz sobre os ombros, não tendo força para carregá-la, e caindo mais vezes pelo caminho. Ei-lo pregado na cruz com cravos, de que não pode desfazer-se. Ei-lo enfim a agonizar de fraqueza, desfalecendo e exalando o derradeiro suspiro!


Santo Afonso Maria de Ligório - Encarnação, nascimento, infância de Nosso Senhor Jesus Cristo.

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