sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

O Verbo Eterno, de inocente se fez réu. - Santo Afonso Maria de Ligório

Consolamini, consolamini, popule meus, dicit Deus vester. Consolai-vos, meu povo, consolai-vos, diz vosso Deus. (Is 40,1) 

     Antes da vinda do Redentor, gemiam todos os homens, miseravelmente aflitos, sobre a terra. Eram todos filhos da cólera, e não havia quem pudesse aplacar o Senhor justamente irritado por seus pecados. Isso fazia chorar o profeta Isaías: Eis, dizia ele a Deus, eis que estais irritado... Não há ninguém.... que se levante para reter vosso braço vingador (Is 64,5-7). Ele falava verdade: um Deus tinha sido ofendido pelo homem, e este, não passando de mísera criatura, não podia expiar com nenhuma pena sua a ofensa feita a uma Majestade infinita. Era necessário um outro Deus para satisfazer em seu lugar à divina justiça. Mas esse outro Deus não existia; não pode haver mais de um Deus. De outro lado o ofendido não pode satisfazer a si mesmo pela ofensa recebida. Assim a nossa desgraça era irremediável.
     Mas, consola-te, ó homem, diz o Senhor por Isaías. Consolai-vos, sim, consolai-vos, meu povo...,pois os vossos males estão terminados (Is 40,1). Deus mesmo achou o meio de salvar-vos contentando ao mesmo tempo a sua justiça e a sua misericórdia: Ei-las que se dão o ósculo da paz, segundo o Salmista (Sl 84,11). Como se realizou essa maravilha? O Unigênito de Deus se fez homem, tomou a forma do pecador e, encarregando-se das dívidas do homem, satisfez plenamente por eles à justiça divina pelos sofrimentos de sua vida e por sua morte. Por esse meio, a justiça e a misericórdia receberam ao mesmo tempo tudo o que reclamavam.
     Assim para livrar os homens da morte eterna, Nosso Senhor Jesus Cristo se despojou de certo modo da sua inocência. De inocente se fez réu; isto é: quis aparecer como pecador. Sim, a isso o reduziu o seu amor por nós. Vamos considerar esse grande mistério; mas antes, peçamos a Jesus e Maria nos iluminem para que o façamos com fruto.
     Que era Jesus Cristo? Era, responde-nos o apóstolo, santo, inocente, sem mancha (Hb 7,26). Era, digamos ainda melhor: a santidade personificada, a inocência, a pureza, pois que era verdadeiro Filho de Deus, verdadeiro Deus como seu Pai, e tão caro a seu Pai que, nas águas do Jordão, seu Pai declarou ter encontrado nesse Filho todas as suas complacências. Ora, esse Filho amado, querendo livrar os homens de seus pecados e da morte a eles devida, que fez? Apresentou-se a seu Pai para tirar os nossos pecados (1Jo 3,5). Ofereceu-se para satisfazer pelos homens; e então o Pai Eterno, diz S. Paulo, o enviou à terra para se revestir da carne humana e se tornar em tudo semelhante aos homens pecadores (Rm 8,3). O apóstolo ajunta: Pelo pecado (cometido pelos judeus contra Jesus Cristo) Ele condenou o pecado (que reinava) na carne, o que significa, segundo a explicação de S. João Crisóstomo e de Teodoreto, que Deus condenou o pecado a perder o império que tinha sobre os homens condenando à morte seu divino Filho, que, embora revestido de carne aparentemente manchada de pecado, não era menos santo e inocente.
      Assim, para salvar os homens e para ver ao mesmo tempo sua justiça satisfeita, Deus condenou seu próprio Filho a uma vida penosa e a uma morte cruel! — É isso verdade? É um artigo de fé. S. Paulo nos assegura com as palavras: Deus não poupou seu próprio Filho, mas o entregou por todos nós (Rm 8,32). E Jesus Cristo mesmo o declarou: Deus amou de tal modo o mundo, que lhe deu seu Filho unigênito (Jo 3,16). Célio Rodígino narra num certo Dejótaro que sendo pai de vários filhos, e querendo deixar toda a herança a um filho que ele preferia a todos os outros, cometeu o bárbaro crime de degolar a estes últimos. Deus fez justamente o contrário: sacrificou seu dileto Filho, o seu Unigênito, para salvar criaturas desprezíveis e ingratas. Pois Deus amou de tal modo o mundo que entregou seu unigênito Filho!
     Meditemos bem estas palavras de Nosso Senhor: Deus amou de tal modo o mundo. A palavra de tal modo lá está, diz S. João Crisóstomo, para exprimir a grandeza desse amor. Como? Digna-se um Deus amar os homens, miseráveis vermes da terra, que levaram até à revolta a sua ingratidão para com Ele? E ama-os ao ponto de dar por eles seu unigênito Filho! Não entregou por eles um de seus servos, ajunta o Santo Doutor, não um anjo, nem um arcanjo, mas o seu próprio Filho, o seu unigênito Filho, a quem ama como a si mesmo. Esse Filho Ele o deu, e como? Pobre, humilhado, abandonado de todos, entregou-o às mãos dos algozes, para ser tratado como um malfeitor e pregado num patíbulo infame! — Ó graça, ó força do amor de Deus, exclama aqui S. Bernardo. Ah! quem se não enterneceria ao saber que um rei, para libertar um escravo, se viu constrangido a dar a morte a seu filho único, ao objeto de todas as suas afeições, a um filho que amava como a si mesmo? Se um Deus o não tivesse feito, quem poderia, exclama S. João Crisóstomo, quem poderia superá-lo ou imaginá-lo?
      Mas, Senhor, parece uma injustiça condenar à morte um filho inocente para salvar o escravo que vos ofendeu. Segundo a razão humana acusaríamos certamente de enorme injustiça o pai que fizesse morrer o filho inocente, para livrar indignos servos da morte devida a seus crimes. É a reflexão de Salviano. Mas não houve injustiça na conduta divina, porque o Filho mesmo se ofereceu a seu Pai para pagar as dívidas dos homens. Foi imolado porque Ele mesmo quis, diz Isaías. Eis pois Jesus que se sacrifica voluntariamente por nós, como vítima de amor. Ei-lo semelhante a um tenro cordeiro sob a mão do tosquiador; e embora inocente submete-se, sem abrir a boca, a todos os opróbrios, a todos os tormentos que os homens lhe infligem: Como um cordeiro diante do que o tosquia, guardará silêncio e não abrirá sequer a sua boca, continua o profeta (Is 53,7). Eis enfim o nosso amantíssimo Salvador que, para nos salvar, quer padecer a morte e todas as penas que temos merecido: Verdadeiramente Ele tomou sobre si as nossas fraquezas, e ele mesmo carregou com as nossas dores (Is 53,4). Levado ao desejo de garantir a salvação dos homens, diz S. Gregório de Nazianzo, ele não recua diante dos suplícios feitos para os maiores criminosos. 
     E quem pôde fazer isso? pergunta S. Bernardo. Qual foi a causa desse prodígio: um Deus que morre por suas criaturas! Fê-lo o amor de Deus pelos homens. O Santo considera nosso amável Salvador no momento em que se deixou prender e ligar pelos soldados no jardim de Getsêmani, como narra S. João: Prenderam a Jesus e o ataram: “Senhor, exclama ele, que há de comum entre vós e as cordas?” Senhor, diz ele, eu vos vejo atado como um criminoso por essa gentalha que vos quer conduzir à morte! Mas, ó meu Deus, que tendes a fazer com as cordas e as cadeias? As cadeias são para os malfeitores e não para vós, que sois inocente, que sois o Filho de Deus, a inocência e a santidade mesma. A isso replica S. Lourenço Justiniano: As cordas que arrastaram Jesus à morte não foram as cordas com que os soldados o amarraram, foi o seu amor pelos homens. “Ó caridade, exclama ele a seguir, quão forte é o teu vínculo que pôde prender um Deus!”
     Lançando em seguida seus olhares sobre a injusta senten- ça de Pilatos, que condena Jesus à cruz depois de o haver declarado várias vezes inocente, S. Bernardo não pode reter as lágrimas e assim se dirige ao Salvador: Ah! Senhor, ouço esse juiz iníquo que vos condena a morrer na cruz! Mas, que mal fizestes? que crime cometestes para merecer suplício tão cruel e tão infame reservado aos mais hediondos facínoras? Ah! entendo, meu Jesus, continua ele, entendo qual é o vosso crime; é o excesso do vosso amor pelos homens. Sim, é antes esse amor do que Pilatos, que vos condena à morte; pois que vós mesmo quisestes morrer para pagar a pena devida aos homens.
     Ao chegar ao tempo de sua Paixão, nosso divino Redentor suplicou a seu Pai o glorificasse logo aceitando o sacrifício de sua vida: E agora, meu Pai, glorificai-me (Jo 17,5). “Mas como! exclama admirado S. João Crisóstomo, chamais glória vossa uma Paixão e uma morte, acompanhadas de tantas dores e humilhações?” E lhe parece que Jesus lhe responde: “Sim, no meu amor pelos homens, tenho por glória sofrer e morrer por eles”.



Santo Afonso Maria de Ligório - Encarnação, nascimento e infância de Nosso Senhor Jesus Cristo.

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