quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

O Verbo Eterno, de Senhor se fez servo. - Santo Afonso Maria de Ligório

Semetipsum exinanivit, formam servi accipiens. Aniquilou-se tomando a forma de servo. (Fl 2,7) 

   S. Zacarias, considerado a grande misericórdia de nosso Deus na obra da redenção dos homens, teve razão de exclamar: Bendito seja o Senhor, o Deus de Israel, de visitar seu povo e de resgatá-lo... a fim que, livres de todo o temor e libertados da mão de nossos inimigos, pudéssemos servi-lo... Sim, bendito seja para sempre o Senhor nosso Deus, que se dignou descer à terra e fazer-se homem para resgatar os homens; a fim que livres das cadeias do pecado e da morte, pelas quais os inimigos nos conservavam presos, pudéssemos sem temor e na liberdade dos filhos de Deus, servir e amar o Senhor nesta vida, para depois irmos possuí-lo e gozar eternamente de sua presença no reino bem-aventurado, fechado aos homens até esse dia, mas aberto enfim por nosso Salvador.
    Todos nós éramos então escravos do inferno. Mas que fez o Verbo eterno, nosso soberano Senhor, para libertar-nos dessa horrível escravidão? De senhor se fez servo. — Consideremos a grande misericórdia e o amor imenso que Deus nos testemunhou com esse prodigioso benefício; mas antes peçamos a Jesus e Maria que nos iluminem.
    Deus é o senhor de tudo o que existe e pode existir no universo. Quem poderia contestar a Deus o soberano domínio sobre todas as coisas, sendo ele o criador e conservador de tudo? No seu vestido, à ilharga, trás escrito: Rei dos reis e Senhor dos senhores, diz S. João (Ap 19,16). Sua realeza não está somente escrita no seu vestido mas também à sua ilharga, o que quer dizer, segundo Maldonado, que Ele é rei por natureza. Os monarcas da terra tem uma autoridade e uma majestade emprestada, de que os revestiu, por mero favor, o Rei supremo que é Deus; mas Deus sendo Rei por natureza não pode deixar de ser Rei e Senhor do universo.
     Ora, esse Monarca supremo reinava sobre os anjos do céu e sobre todas as criaturas, mas não reinava sobre os corações dos homens. Os homens gemiam miseravelmente sob a escravidão do demônio. Sim, antes da vinda de Jesus Cristo esse tirano infernal fazia os homens prestarem-lhe honras divinas. Ofereciam-lhe incenso e sacrifícios, e não contentes de lhe imolarem animais, chegavam a sacrificar-lhe os seus próprios filhos e a sua vida. E que lhes dava em retorno esse inimigo cruel? como os tratava? Atormentava-lhes o corpo com extrema barbárie, cegava-lhes o espírito, conduzia-os por um caminho de dor à morte eterna.

    O Verbo divino desceu à terra para abater esse tirano, e para livrar os homens da infeliz escravidão em que se achavam, a fim de que, saindo das trevas da morte, e sacudindo o jugo odioso que carregavam, pudessem conhecer o verdadeiro caminho da salvação e dedicar-se ao serviço de seu verdadeiro e legítimo Senhor, que os amava como pai, e que, de escravos de Lúcifer, queria fazê-los seus filhos diletos: A fim de que libertados de todo o temor e arrancados das mãos de nossos inimigos sirvamos ao Senhor.
     Isaías predissera que nosso divino Redentor destruiria o império que o demônio exercia sobre os homens: Quebrastes o cetro de seu exator (Is 9,4). Por que o profeta chama de exator ao demônio? Porque, diz S. Cirilo, esse bárbaro senhor costuma exigir dos pobres pecadores, que são seus escravos, enormes tributos de paixões desregradas, ódios e afeições más, que formam outras tantas cadeias de que se serve para os prender com mais força a seu jugo e para os flagelar. Nosso Senhor veio pois à terra para arrancar-nos das mãos desse cruel inimigo. Mas como? Que meio empregou para nos libertar? Ei-lo, responde S. Paulo: Existindo na forma (ou natureza) de Deus, não julgou que fosse uma rapina o ser igual a Deus; mas aniquilou-se a si mesmo, tomando a forma de servo, tornando-se semelhante aos homens (Fl 2,6-7). Era o Unigênito de Deus, igual a seu Pai, eterno como seu Pai, todo-poderoso como seu Pai, imenso, infinitamente sábio e feliz, soberano senhor do céu e da terra, dos anjos e dos homens como seu Pai. Todavia por amor do homem humilhou-se ao ponto de tomar a forma de servo, revestiu-se da carne humana, e tornouse semelhante aos homens. E como estes por seus pecados se tornaram escravos do demônio, tomou a natureza humana para os resgatar satisfazendo com suas dores e sua morte à justiça divina e tomando assim a pena que os homens mereciam. — Ah! se a fé nos não desse a certeza disso, quem poderia jamais esperar? quem o poderia sequer imaginar? Mas a fé nos ensina e nos garante que esse sumo e supremo Senhor se aniquilou tomando a forma e a natureza de servo.
     Uma vez revestido dessa humilde forma, o Redentor quis começar desde a infância a despojar o demônio do império que tinha sobre o homem, como o predissera Isaías com as palavras: Põe-lhe um nome que signifique: Toma depressa os despojos, faze velozmente a presa (Is 8,3). Era anunciar, observaS. Jerônimo, que Jesus Cristo ia pôr fim ao reino de Satanás. Assim para nos livrar da tirania do inferno, diz o venerável Beda, Jesus declara-se servo logo ao nascer e como tal se porta. Quer ser inscrito entre os súditos de César e pagar o censo. No desejo de satisfazer desde então as nossas dívidas por seus sofrimentos, ei-lo, exclama S. Zenão, que toma se detença os sinais da escravidão: deixa-se enfaixar em paninhos que o privam da liberdade e representam as cadeias de que um dia será carregado pelos algozes para ser conduzido à morte. Ei-lo depois que se submete e obedece toda a sua vida a uma humilde virgem, a um homem. Ei-lo mais tarde, como servo na pobre morada de Nazaré, empregado por Maria e José, ora a desbastar a madeira que José devia trabalhar, ora a recolher os fragmentos para o fogo, ora a varrer a casa, a buscar água, a abrir ou a fechar a oficina. Como Maria e José eram pobres e obrigados a viver de seu trabalho, nota S. Basílio, Jesus Cristo para exercer a obediência e demonstrar-lhes respeito, devido aos superiores, procurava tomar parte em suas fadigas na medida das forças dum menino da sua idade. Um Deus que serve! Um Deus que varre a casa! Um Deus que trabalha! Ah! um só desses pensamentos deveria bastar para nos inflamar e consumir de amor!
    Quando Nosso Senhor se pôs a pregar o seu Evangelho, fez-se servo de todos, declarando que não viera para ser servido, mas para servir os outros (Mt 20,28). Segundo Cornélio a Lápide, isso equivale a dizer que Ele queria ser o servo de todos os homens.
   E no fim de sua vida, ajunta S. Bernardo, “não contente de haver tomado a forma de servo e de haver obedecido como tal, quer ainda parecer servo mau e como tal ser castigado, a fim de pagar a pena devida aos pecados que nos tinham feito escravos do inferno.
    E finalmente, diz S. Gregório de Nissa, “o Senhor do universo, qual súdito que só sabe obedecer, submete-se à iníquasentença de Pilatos, e entrega-se às mãos de bárbaros carrascos que o atormentam e crucificam”. E isso que S. Pedro exprimiu com as palavras: Entregava-se àquele que o julgava injustamente (1Pd 2,23); e de fato, acrescentou o mesmo apóstolo, como um escravo que sofre sem resistência um castigo merecido, não amaldiçoava quando o amaldiçoavam; sofrendo não ameaçava. assim, em seu inefável amor por nós, esse Deus quis obedecer como se não passasse dum simples servo; e essa obediência Ele a levou até à morte e até a uma morte cruel e infame: morreu na cruz. Ele obedeceu não como Deus, mas como homem, como servo, cuja forma e natureza tomara.
     Sublime foi a caridade de S. Paulino que se fez escravo para resgatar o filho duma pobre viúva. Mas esse devotamento, que excitou a admiração do mundo, que é comparado ao nosso Redentor? Ele era Deus e, a fim de nos resgatar da escravidão, das mãos dos demônios e da morte que nos era devida, fez-se servo, deixou-se carregar de cadeias, deixou-se pregar na cruz, onde quis finalmente deixar a vida num oceano de humilhações e de sofrimentos! “Para que o servo se tornasse Senhor, diz S. Agostinho, Deus quis fazer-se servo”.
     A Santa Igreja tem pois razão de exclamar: “Ó prodígio de misericórdia! ó inapreciável efeito do amor divino! para resgatardes o escravo, entregastes o Filho!” Sim, ó Deus de majestade infinita, tanto amor tivestes ao homem, que para resgatar esses servos rebeldes, quisestes entregar à morte o vosso unigênito Filho! — Mas, Senhor, pergunta Jó, que é o homem, esse ser tão desprezível, tão ingrato para convosco, par que o eleveis tão alto, e o honreis e o ameis (Jó 7,17) como o fizestes? Dizei-me, meu Deus, que vos importam a salvação e a felicidade do homem? Dizei-me: por que tanto o amais de sorte que o vosso coração parece não ter outra preocupação que de amá-lo e fazê-lo feliz?


Santo Afonso Maria de Ligório - Encarnação, Nascimento e Infância de Nosso Senhor Jesus Cristo.

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