quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

Pela santa complacência tornamo-nos como criancinhas alimentadas pelo Senhor - São Francisco de Sales

     Oh meu Deus! Como é feliz a alma que encontra as suas delícias ·em saber e conhecer que Deus é Deus, que a sua 'bondade é infinita ; porque este celeste Esposo, por esta porta da complacência entra nela e come connosco, como nós com Ele. Alimentamo-nos com Ele da sua doçura, pelo prazer que nela encontramos, e satisfazemos o nosso coração nas perfeições divinas pelo bem-estar que em nós produzem, e esta refeição é uma ceia por causa do descanso que se lhe segue ; porquanto a complacência faz-nos descansar docemente na suavidade do bem que nos deleita e com o qual alimentamos o nosso coração ; pois como sabeis, Teotimo, o coração alimenta-se com aquilo de que gosta. É por isso que se diz, que uns se alimentam de honra, outros de riquezas.
     Assim diz o Sábio; que a boca dos insensatos se apascenta de ignorância; e a soberana Sabedoria afirma que a sua comida, quer dizer o seu prazer, não é outra coisa senão fazer a vontade do seu Pai. Em suma, é verdadeiro o aforismo dos médicos, que o que nos sabe bem, alimenta, e o dos filósofos, que o que agrada, sustenta.
     Que o meu Amado venha ao seu jardim, diz a Esposa sagrada, e nele coma' o fruto das suas macieiras. Ora o divino Esposo vem ao seu jardim quando entra na alma devota, pois que Ele se compraz em habitar com os filhos dos homens. E onde pode melhor habitar do que na região do espírito que criou à sua imagem e semelhança? Ele mesmo planta neste jardim a complacência amorosa que sentimos na sua bondade, e da qual nos alimentamos.

     Assim como a sua bondade se compraz, se alimenta na nossa complacência, do mesmo modo a nossa complacência aumenta por sabermos que Deus se compraz em nos ver complacentes nEle. Estes recíprocos prazeres constituem o amor duma incomparável complacência pela qual a nossa alma, feita jardim do seu Esposo e recebendo da sua bondade os pomos de delícias, lhe restitui o fruto, pois que se deleita na complacência que ela lhe consagra.
     É assim que atraímos ao nosso o coração de Deus que nele derrama o seu bálsamo precioso; é assim que praticamos o ·que a santa Esposa diz, cheia de júbilo: O Rei de meu coração me introduziu nos seus aposentos : nós nos regozijaremos e nos alegraremos em ti, lembradas de que o leite de teus seios é melhor do que o vinho ; os bons amam-te.
      Ora dize-me, Teotimo, quais são os aposentos deste Rei de amor, senão o seu Coração que abunda em mil doçuras e suavidades?
     A alma, pois, que contempla no seu muito Amado os tesouros infinitos das perfeições divinas, dá-se por imensamente feliz e rica, tanto mais que o amor torna seus, por complacência, todos os bens e gozos deste querido Esposo.
     Assim como a criancinha se volta buliçosa para a mãe e se agita de alegria quando se vê no seu colo, e a mãe, da. sua parte, a recebe com amor sempre ardente, assim também a alma sente estremecimentos e ímpetos de incomparável júbilo pelo gozo que tem em contemplar o tesouro das perfeições do Rei do seu santo amor.
     Este júbilo cresce ainda quando vê que Ele mesmo lhas mostra por amor, e que entre estas perfeições a do seu amor infinito resplandece em subido grau. Não terá razão esta santa alma de ex:clamar : Ó meu Rei, quão amáveis são as vossas riquezas, quão rico é o vosso amor ! Ah ! quem sentírá maior alegria, vós que o gozais, ou eu que nele me regozijo? Rejubilamos de alegria com a lembrança do vosso amor tão infinitamente fecundo em suavidades; eu porque o meu bem Amado as goza, vós porque a vossa amada se regozija nelas, ambos delas gozamos porque a vossa bondade vos faz gozar com o meu regozijo e o meu amor me faz regozijar com o vosso gozo.
     Ah ! Os justos e bons vos amam ! Quem poderia ser bom sem amar tão grande bondade ? Os príncipes terrestres guardam os tesouros nos aposentos particulares de seus palá­cios, e as armas em arsenais. O príncipe celeste tem o seu tesouro· no próprio seio e as armas no próprio peito, e como o seu tesouro é a sua bondade e as suas armas são o seu amor, o seu seio e seu peito nos atraem, como o seio da mãe ao filhinho estremecido.
      Certamente a natureza colocou o sustento da criancinha no seio da mãe para que o calor do coração, aquecendo o leite, concorresse com ela para alimentá-la e assim o leite fosse um alimento cem vezes melhor do que o vinho.
      Mas notai, Teotimo, que a comparação do leite e do vinho parece tão natural à Esposa sagrada que não se contenta com dizer uma vez que o seio de seu Esposo excede o vinho, mas o repete três vezes, O vinho, Teotimo, é o leite das uvas e o leite é o vinho do peito ; por esta razão a Esposa Sagrada diz que o seu Amado é para ela como um cacho de Chipre, isto é, de aroma delicioso. Moisés diz que os Israelitas podiam beber o sangue puríssimo e delicioso da uva ; e Jacob, descrevendo a seu filho Judá a fertilidade dos bens que viria a ter na terra prometida, profetizou sob esta figura a verdadeira felicidade dos cristãos, dizendo que o Salvador lavaria a sua túnica, quer dizer a Santa Igreja, no sangue da uva, isto é, em seu pró­prio sangue.
      Além disso não há diferença entre o sangue e o leite como a não há entre o agraço e o vinho, visto que o agraço, amadurecendo com o calor do sol, muda de cor e se transforma num vinho agradável que serve de alimento, o o sangue temperado pelo calor do coração toma a bela cor branca e se torna um alimento muito conveniente para as crianças.
     O leite, que é um alimento fortificante, todo de amor, representa a ciência e a teologia mística, isto é, o doce sabor que procede da complacência amorosa que recebe o espírito quando medita as perfeições da divina Bondade, enquanto que o vinho significa a ciência. usual adquirida, que se obtém a poder da especulação sob a força de muitos argumentos e disputas.
      Ora o leite, que as nossas almas haurem na caridade de Nosso Senhor, vale muito mais sem comparação do que o vinho que vamos buscar aos discursos humanos, porque este leite tem a sua origem no amor celeste, que o prepara para seus filhos ainda antes que nisso pensassem. Tem um gosto suave e agradável, o seu aroma excede todos os perfumes, torna o hálito puro e suave como o duma criança de peito, produz alegria sem insolência, inebria sem estontear e não excita os sentidos, mas eleva-os.
      Quando o santo Isaac abraçou e beijou seu querido filho Jacob, sentiu-lhe a fragrância dos vestidos, e foi repentinamente invadido por um extraordinário prazer que o fez exclamar: Oh ! Eis o cheiro do meu filho, semelhante ao cheiro dum campo florido, que o Senhor abençoou. Os vestidos e o perfume eram de Jacob, mas foi Isaac quem sentiu a complacência e o regozijo.
     Ah ! com que delícias recebe os perfumes das infinitas perfeições do seu Salvador a alma que pelo amor o tem entre os braços de seus afectos! Com que complacência diz consigo mesma: Fragrantes como os mais preciosos bálsamos. Aplique ele os lábios, dando-me o ósculo da sua boca ; porque o leite de teus seios é melhor do que o vinho.
     Assim exclamava extasiado o espírito de Santo Agostinho, indeciso entre os santos contentamentos que experimentava em considerar, por uma parte, o mistério do nascimento do seu Senhor e por outra, o mistério da Paixão:
     Entre estes dois mistérios,
     Qual minha alma há-de abraçar?
     O seio querido duma mãe,
     Pronto para me alimentar,
     Ou o sangue santíssimo
     Da chaga para me salvar?



Trecho do Livro: Tratado do Amor de Deus, de São Francisco de Sales

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